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Marcos Uchôa

Política, guerra, jornalismo e futebol

Falar sobre Turquia não é simples. Nada é simples, mas o país que se encontra parte na Europa e parte na Ásia, é a materialização geográfica da complexidade em um país. Falar e refletir sobre jornalismo, que é grande parte da missão da Corner, também é complicado. É fácil criticar a Globo e o Galvão Bueno, mas sempre falta ponderar sobre os interesses e papel do principal narrador da maior emissora do Brasil. Claro, futebol não seria uma pauta menor e menos profunda. E conjugar essas três capacidades — de falar sobre Turquia, jornalismo e futebol — é bem difícil, e só foi possível em uma pessoa: Marcos Uchôa. Ele conseguiria ainda mais: se fosse pra falar de Samba, o repórter também daria aula.

O local da entrevista foi — talvez — aquele em que Uchôa mais passou tempo depois de sua casa: um aeroporto. Sua vida profissional começou em um hotel e logo foi para o aeroporto, que ele já estava acostumado a freqüentar desde novo, pois seu pai era exilado político durante a ditadura militar. E é exatamente essa a explicação para que Uchôa fale outras línguas.

Pois bem, o Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, carrega a nostalgia de tempos quando um aeroporto era pra poucos, mas passou a ficar mais parecido com uma rodoviária, e isso é algo positivo, mostra que avião deixou de ser coisa exclusiva de rico e Uchôa concorda com isso, não é pra menos.

Foram algumas pessoas que se aproximaram e pediram pra tirar foto com o famoso repórter carequinha. Ser um rosto comum parece óbvio para quem está há tanto tempo na Globo, mas talvez a simpatia dele seja pela versatilidade em ser correspondente internacional, cobrir guerras, tsunamis, invasão do BOPE em favelas, carnaval e, é claro, futebol. Essa versatilidade, inclusive, abriu portas quando jornalistas da Globo não entravam em favelas.

A entrevista foi feita dias após o retorno de Uchôa da Síria, onde foi filmar um documentário com um antigo companheiro da TV Globo: Sérgio Gilz. Quando terminamos, já num café pós-entrevista, ele contou que filmou sobre a dificuldade de um time de futebol do norte da Síria, na fronteira com a Turquia, exatamente no meio do conflito entre Estado Islâmico, Curdistão, Síria e Turquia. Além dos jogadores de diferentes lugares, a tabela ficava totalmente comprometida, pois muitas vezes era impossível atravessar entre uma cidade e a outra. Bateu aquele arrependimento de não ter gravado ou ter retomado a entrevista a partir dali.

Quando chegou, Uchôa mandou uma mensagem dizendo que estava no terminal de desembarque, logo na entrada, no balcão de informações. No encontro, antes de chamá-lo e cumprimentá-lo, ele lia um livro e carregava um outro. Ele tinha mandado a mensagem 30 segundos antes. Mas tudo depois fez sentido.

Indo para o setor de desembarque, papo rápido sobre a revista, Uchôa sentou em uma daquelas cadeiras de espera, em um lobby que tem vista para a pista, onde se pode ver pousos e decolagens. Restava, então, só embarcar na conversa.

Vamos falar de onde estamos, num aeroporto… É um lugar que tem muito a ver com você.

Sim. A história é simples. Eu comecei a faculdade muito cedo, pulei de ano na escola. Fui fazer sociologia, estudei um ano e larguei. Aí fiz medicina um ano e pouco e larguei. Minha mãe não estava muito satisfeita comigo pulando de galho em galho. E falou que eu tinha que fazer um concurso pra fiscal, já que eu passava em tudo, mas que parasse de encher o saco dela, parasse de pedir dinheiro e fosse trabalhar. Eu não estava nem um pouco interessado em fazer o concurso pra fiscal, mas foi sensacional porque eu encontrei a minha mulher. Conheci ela lá, depois comecei a namorar com ela, casei e estou com ela até hoje. Sensacional esse concurso pra fiscal [risos]! E tentei entrar pra Comunicação como forma de tentar apaziguar a situação dentro de casa, mas a minha mãe não caiu nessa. Eu fui fazer Comunicação, mas tive que trabalhar. Meu primeiro emprego foi no Hotel Sheraton, aquele do Vidigal ali. Eu trabalhava no Room Service , eu falava idiomas, então, atendia os hóspedes. Aí, arrumei um outro emprego, na alfândega do aeroporto. Depois a Tereza, minha mulher, viu uma vaga de uma companhia aérea, que precisava de alguém que falasse inglês e francês. Era a Air France, fui fazer a prova, e passei. Então, enquanto eu estava estudando Comunicação, trabalhei na Air France, e depois que comecei na TV Manchete, continuei. Foram mais de sete anos de aeroporto, era a época do concorde, super divertido. Eu fiquei com os dois empregos, na Air France e na TV Manchete.

E você chegou a quase largar o jornalismo pra ficar só na Air France, não teve isso?

Cheguei a pensar. Quase fiz isso. Eu cobri as Olimpíadas de 1984 e a Copa de 1986 pela Manchete, e aí teve uma greve na TV Manchete que eu acabei virando um líder da greve, meio que por acaso. Mas eu era da Air France. A gente perdeu a greve na Justiça enquanto classe, mas a gente ganhou um aumento muito bom. Ao mesmo tempo, 52 pessoas foram demitidas, das quais 25 eram judias. Eu tive uma discussão muito grande na recepção da TV Manchete, ali na Glória, com o Zevi Ghivelder e o Jaquito, que eram os que tocavam realmente a televisão, e o Adolpho Bloch estava mais em cima. Acusei eles de nazistas! “Vocês estão perseguindo os judeus, porque não é possível, a metade dos funcionários aqui não são judeus”, daí eles disseram que eram traidores. Aí eu fui embora, fui pra Paris, estava de férias, e quando voltei pensei que estava demitido, obviamente. Mas aí eles me chamaram na sala do Adolpho Bloch e eles tinham um vídeo — estamos falando de 1986, o Brasil tinha acabado de sair de uma ditadura, fazer greve era uma coisa que gerava muito medo nas pessoas —, e nesse primeiro dia, veio o sindicato dos jornalistas com um alto-falante, gritando e xingando: “judeu filho da puta, etc”, daí eu subi no caminhão e falei pra pararem com isso, que ninguém ali era anti-semita, racista, todo mundo gostava de trabalhar ali, era só uma questão de dinheiro, e que, resolvendo isso, todo mundo voltaria a trabalhar. Eu não sabia, mas os patrões tinham gravado isso, daí eles mostraram e me disseram que “a greve demorou muito por sua causa, mas você teve uma atitude digna, então não vamos te demitir”. Eu agradeci, mas se uma daquelas pessoas foi demitida porque eu a convenci a participar da greve, eu já me sinto mal. E eu pedi demissão. Nessa hora, a Air France me convidou pra trabalhar numa coisa que se chamava DOV [Despachante de Vôo], que era a pessoa responsável por fazer a rota do avião, calcular combustível, peso, distribuição de carga, uma coisa muito técnica. Eu era bom em matemática, e tinha que fazer um curso de um ano e meio em Paris e retomaria a carreira dentro da Air France. Eu já estava há sete anos e meio na companhia aérea, eu adorava. Aeroporto é um ambiente muito legal, de alegria, de tristeza, você vê o ser humano bem por um lado e triste por outro, uma coisa que depois eu fui encontrar no esporte, no jornalismo, né? A coisa da emoção. E eu ia pra Ásia com a Tereza, pra que na volta eu fosse pra Paris. E nessa hora, a TV Globo me chamou pra cobrir férias da Isabela Scalabrini, e eu fiquei pra fazer um dinheirinho e depois ia embora. Mas me convidaram pra ficar. Poxa, TV Globo, trabalhar com gente muito qualificada, melhores cinegrafistas, melhores editores de imagem, aí dei mais uma chance pro jornalismo. Dei sorte.

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Editorial

Décima sexta edição

Jornalista, publicitário e fotógrafo. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 1997 contra a França ou de Petković em 2001 contra o Vasco). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. Boicota o acordo ortográfico.

1 Comments

  1. julianoortiz

    setembro 27, 2021

    Cara, que entrevista sensacional. O Uchôa é um jornalista fantástico e que sempre me pareceu gente boa. Essa entrevista não apenas corrobora meu “achismo”, como também revela um ser humano incrível. Que matéria gostosa de ler e absorver.

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