Foto: Fernando Martinho

Olhar para o passado e compreender o presente. Deveria ser assim. O Brasil esqueceu suas origens. O complexo de vira-latas só deixou de existir no futebol graças a técnicos estrangeiros, mais precisamente húngaros, que trouxeram conceitos táticos fundamentais para o triunfo em 1958. Nesta Copa do Mundo, na Suécia, Evaristo de Macedo não disputou por ter ido jogar no Barcelona. Jogar no exterior significava renunciar a seleção do país de origem. Lá dividiu o vestiário e jogadas com László Kubala, um foragido da Hungria.

De novo, Hungria. Depois de Kubala, outros jogadores nascidos na mesma época, entre 1927 e 1929, se destacaram nas Olimpíadas de 1952, em Helsinki, onde conquistaram a medalha de ouro, uma das tantas que o futebol húngaro conquistou nesta competição a partir daí, até 1972, exceto em uma edição: 1956. Mas tem uma explicação simples, a Hungria não disputou os jogos de Melbourne. O time de 1952 era basicamente o mesmo da Copa de 1954, na qual o vice-campeonato ficou conhecido como o Milagre de Berna, estavam Czibor, Kocsis e Puskás. Evaristo se encontraria com esses craques no Barcelona e no Real Madrid mais adiante.

Esses jogadores nasceram numa época em que o futebol jogado no eixo Praga–Viena–Budapeste determinava a vanguarda do futebol mundial, aquela mesma que chegou ao Brasil através de Izidor Kürschner no final dos anos 1930, de Béla Guttmann e Gyula Mándi nos anos 1950. Esses técnicos entenderam que no futebol havia mais do que emoção, instinto e físico. Se formaram na Escola do Danúbio, nome dado por conta do Rio que liga Viena, Brastislava e Budapeste.

As idéias que fluíam nas águas do Danúbio tinham uma razão de existir. Era uma questão de auto-conhecimento e sobrevivência. Uma relação entre Davi e Golias, na qual o poderoso futebol insular britânico só poderia ser derrotado como foi em Wembley, em 1953, pelos azarões húngaros, graças a pensadores que compartilhavam do judaísmo: Hugo Meisl, Márton Bukovi, Erbstein Ernő, Béla Guttmann, Árpád Weisz e Gyula Mándi. Todos influenciados por Jimmy Hogan, um inglês que não encontrou lugar pras suas idéias na sua terra natal.

Eles foram os responsáveis por formar talentos escolhidos por capacidades técnicas antes das atléticas que, posteriormente, na década de 1950 e 1960, duelaram na Espanha. Uns de um lado e outros do outro. Como testemunha: Evaristo de Macedo! A Espanha não precisava desses reforços para o binômio Barça-Madrid ser o retrato de um país com feridas não cicatrizadas. Cada gol de Kubala ou tabela entre Czibor e Kocsis no Barcelona, um título de Puskás com camisa de Real Madrid, sem falar de Di Stéfano e seu reinado europeu à frente do Real Madrid, tinham um ponto em comum: Evaristo.

A Espanha vive sua esquizofrenia bipolar incurável na política e uma bipolaridade esquizofrênica no futebol: clubes com nomes monárquicos e valores operários! O Real Madrid não buscou no franquismo sua plataforma para alçar vôos internacionais, mas sim os aviadores do regime fraquista que aterrissaram no que se conhece como Atlético de Madrid, um clube da classe trabalhadora. O Regime de Franco que pega carona no madridismo vencedor como plataforma de propaganda.

Entender o presente espanhol parece fácil perto do que se converteu a antiga mina de ouro húngara. Como qualquer lugar que tem sua riqueza esgotada, vira um território desértico e cheio de cidades fantasma. Onde foi parar o futebol húngaro? Até o Uruguai soube se reinventar e voltou a estar entre os quatro primeiros na Copa do Mundo da África do Sul, já a Hungria desaparece não só no contexto mundial, mas também europeu.

Com o fim da União Soviética que garantia o financiamento de países com o regime socialista, várias das bandeiras que integravam a Cortina de Ferro foram divididas. A Tchecoslováquia deu lugar a dois países, a Iugoslávia se transformou em sete novas nações. Só a Alemanha Oriental foi anexada à parte ocidental e formou um país maior. Outros países permaneceram intactos em território e população: Polônia, Romênia, Bulgária e Hungria.

Esses países alternavam entre safras boas e ruins de jogadores. Os países da antiga Iugoslávia, por exemplo, mantiveram a tradição de produzir jogadores de técnica apurada num universo muito mais reduzido. Menos a Hungria. O labdarúgás, ou futebol húngaro, definhou mesmo com seus limites territoriais e demográficos praticamente idênticos. A única tese palpável, que explica — em grande parte — o ocaso húngaro, é o anti-semitismo histórico e latente no leste europeu, o que explica, em muito, a associação entre certos clubes como Ajax, Tottenham e Atlanta (!) com a comunidade judaica. Bem-vindo à Corner #6.

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