Foto: Fernando Martinho

Rumo ao térreo, descendo do décimo primeiro andar de um restaurado edifício antigo no centro do Rio de Janeiro: além do ascensorista, quatro pessoas estão no elevador. A mais próxima à porta resolve dar licença para quem estava pior posicionado.

Curiosamente, o cidadão que deu a vez era negro. Já do lado de fora, o gesto foi comentado e um outro passageiro, em resposta, disse que considerara o homem apenas educado. No entanto, ficou a reflexão se era educação — apesar de não parecer ser somente um gesto educado —, ou se era condicionamento social. Negros, por exclusão histórica e cultural, não pertencem ao universo corporativo e isso se reflete nessas mínimas atitudes.

Citando um experimento no qual um homem negro e um branco trajam terno diante de uma Business Tower. Na opinião das pessoas negras e brancas interpeladas, o branco seria um empresário bem sucedido enquanto o negro, um segurança.

Para falar sobre o racismo no futebol, a Corner buscou alguns nomes que, por diferentes motivos, recusaram ou não foram liberados para conversar e expor pontos de suma relevância para a discussão: Paulo Cézar Caju, Paulo César Oliveira e Cristóvão Borges. Respectivamente, um ex-jogador e militante de opiniões fortes, um ex-árbitro negro que se tornou comentarista e um treinador que, ao abordar o tema racismo, passou a ser perseguido.

De acordo com o relatório apresentado no documento “Desenvolvimento Humano para Além das Médias”, divulgado em maio de 2017 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em parceria com a Fundação João Pinheiro e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a população negra no Brasil estava dez anos atrasada em relação aos brancos. As métricas e pontuações evidenciaram o óbvio, mas que muitas pessoas, inclusive teóricos e políticos não admitiam. Vale pesquisar sobre o estudo.

Nos seus primórdios, o futebol apresentou sim resistência aos jogadores negros. Mas isso foi superado há muito tempo, e o argumento de que Pelé — ao ser considerado o maior jogador de todos os tempos do futebol brasileiro — seja a prova de que não haja racismo no esporte em terras brasileiras é tão raso que ignora um sintoma nítido: a escassez de técnicos negros ao longo da história. Nesse aspecto, os ex-jogadores ainda estão muito atrasados. Dada a quantidade de ex-atletas, não faz nenhum sentido a proporção de técnicos brancos em comparação à de negros.

O futebol é um universo conservador em sua origem. Quando a televisão trouxe a possibilidade de transmissão ao vivo dos jogos, clubes e dirigentes de federações a receberam como uma grande ameaça pois acreditavam que tiraria o público dos estádios. Em pleno século XXI, as receitas das transmissões proporcionam no mínimo 30% do faturamento de um grande clube europeu. Esse valor agrega substancialmente o orçamento para que os clubes contratem melhores jogadores que fazem lotar os estádios. Algumas crenças, no entanto, obedecem a uma complexidade maior. O conservadorismo impede que um clube contrate um técnico negro, por acreditar que imprensa, torcida e os próprios jogadores — inclusive negros — não respeitariam um afrodescendente num cargo de tamanha liderança como o de treinador.

Tinga falou, em entrevista, sobre isso e sobre um ponto que remete ao episódio do elevador. De acordo com ele, muitas vezes, um ex-jogador negro nem sequer se prepara para ser técnico ou gestor, por crer que não lhes caberia ocupar tais cargos. Abel Neto é o único repórter esportivo negro na maior emissora do país em pleno 2017. Ele ressaltou a importância de assumir esse papel, mas pondera como é complicado ser um dos poucos representantes da maior parcela da população brasileira.

Enquanto intelectuais de todo mundo discutem paradigmas de representatividade, de igualdade e de oportunidade, na Espanha ou na Rússia estão atirando bananas aos jogadores negros. Manifestações de ultra-direita espalham a xenofobia por toda Europa e também nos EUA, com respingos no Brasil, refletidos na busca de um suposto “salvador” da política nacional. Por triste ironia, Messias integra o nome do sujeito.

Mesmo na Corner — até essa quarta edição — apenas dois negros atuaram como colaboradores. Se for pra falar em representatividade, num universo de cerca de 30 pessoas, a revista representa muito mal a sociedade. Mas as portas sempre estiveram igualmente abertas a homens, mulheres, brancos e negros. O que fez com que tão poucos negros se envolvessem é o que remete novamente à cena do elevador em um edifício corporativo: talvez um negro também não se sinta confortável em estar em determinados lugares, ainda que inconscientemente. Mas claro, nunca esquecendo que a maioria dos negros não dispõe das melhores condições para competir no mercado de trabalho como deveriam, por não terem acesso à escolas e universidades, razão direta para a existência de cotas raciais.

Talvez os trabalhos de Cristóvão Borges sejam ruins em sua maioria, mas não são inferiores aos de muitos outros brancos que estão sempre pulando de clube em clube e dispõem de muito mais paciência. A discussão não pode passar somente por Cristóvão — que até teve bastante oportunidades —, mas é exatamente este o ponto: haver poucos negros ocupando determinados espaços na sociedade. Até que ponto se trata de falta de oportunidades e até que ponto pouquíssimos negros se postulam a assumir determinados lugares de poder?

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