Nos lugares onde o futebol é o esporte mais popular, a modalidade fundada e regulamentada pelos ingleses tende a ser um reflexo daquela sociedade em questão. Sociólogos costumam recusar essa perspectiva. Em parte, com certa razão, afinal, há diversas camadas da sociedade a serem refletidas que talvez o futebol não consiga traduzir em uma imagem tão verossímil da população de um país.

O fato é, no entanto, que o futebol é parte integrante da sociedade e costuma trazer consigo várias tensões sociais e dificilmente fica alheio, ao longo da história, aos avanços econômicos ou tecnológicos. Seja no início da popularização do esporte, ou no período nazista, ou na época das duas Alemanhas, ou após a reunificação — desse país que foi dividido em dois da maneira mais cruel —, ou 30 anos depois… o futebol consegue explicar tudo isso e um pouco mais.

A relação entre Alemanha e Brasil no futebol nasce com a chegada de Hans Nobiling, vindo de Hamburgo, para fundar, em São Paulo, o SC Germania — que se tornaria o aristocrático EC Pinheiros — e segue até o famigerado 7 a 1, que tanto mexeu com o orgulho dos brasileiros.

Mesut Özil explica muita coisa da Alemanha, esse país que se dividiu e buscou mão de obra em outros países. Os filhos desses trabalhadores, que chegaram pra suprir a carência das fábricas de um país industrializado que se tornaria a principal economia da Europa no século XXI, também acabariam jogando bola e representando a nova nação, trazendo uma releitura do significado de pátria.

O país que promoveu o holocausto na primeira metade do século XX se tornou uma porta de entrada para milhões refugiados sírios e africanos menos de 100 anos depois da chegada de Hitler ao poder. São essas camadas que as páginas da Corner #12 vão mostrar, usando o futebol como desculpa para falar de tudo, como sempre.

Quando o futebol começou a se desenvolver na Alemanha, o Bayern não era nada. Sua maior relevância na primeira metade do século XX foi na resistência ao nazismo personificada em seu presidente Kurt Landauer.

No entanto, com o nascimento da Bundesliga, uma liga nacional em um país dividido, o Bayern demoraria até participar da recém-criada primeira divisão alemã, mas se tornaria a sua maior potência nos 60 anos seguintes — esse Bayern dos primórdios e de grandeza continental é desbravado em detalhe nesta edição.

Entre o Bayern e o Dortmund, houve um homem que construiu uma ponte entre os clubes. Foi o responsável por recolocar os dois clubes no cenário europeu no final dos anos 1990 e no início dos anos 2000. Ottmar Hitzfeld é o denominador comum da final da Champions League em Londres naquele 2013 que mostrou ao mundo quem era Jürgen Klopp.

O 7 a 1 não passaria em branco. Mas, em vez de enaltecer cegamente a acachapante vitória alemã em terras brasileiras, a Corner faz o trabalho de sempre e desconstrói o triunfo alemão na Copa de 2014, mostrando outro viés do título que repercutiu, inclusive, politicamente no Brasil. A viagem no tempo pela Alemanha começa aqui.

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