Carrinho de compras

Nenhum produto no carrinho.

Zenit

O espelho da supremacia branca no Leste Europeu

Em poucos sítios se vive mais intensamente o racismo no futebol como no Leste da velha Europa soviética. Desde a ultra-católica Polónia à ortodoxa Rússia — sem se esquecer do futebol dos Balcãs ou da Ucrânia — são múltiplos e sérios os episódios de racismo contra atletas, além de mensagens de apoio vindas das bancadas a favor de uma política de supremacia branca que ainda hoje impera.

Mais do que uma questão salarial

Foi evidente quando o Zenit, então o clube mais poderoso do velho futebol soviético, decidiu dar um murro na mesa na tradição e contratar dois futebolistas negros. Mesmo aqueles asiáticos que, oficialmente são cidadãos russos, acabam tratados como pessoas de segunda categoria no país, necessitando de visados especiais, e então raramente os encontramos em campos de futebol — dentro ou fora dele. A partir dos anos de 1990, no entanto, chegaram os primeiros futebolistas africanos e sul-americanos para o futebol da Europa de Leste, uma verdadeira novidade exótica. Se o Shaktar Donetsk se especializou em contratar brasileiros e o Spartak Moscovo e CSKA Moscovo rapidamente abriram as suas portas a atletas africanos e brasileiros, os Dínamos — da Ucrânia e da Rússia — continuavam a permanecer orgulhosos. Custou muito em Kiev para o Dínamo quebrar essa barreira. Na Rússia o mesmo sucedeu, primeiro com o Dínamo de Moscovo e, mais tarde ainda, com o próprio Zenit. Foi a chegada do brasileiro Hulk — vindo do FC Porto — e do belga Axel Witsel — chegado desde o Benfica — que mudou para sempre a história do clube e colocou os seus próprios adeptos em pé de guerra com a sua ideologia de supremacia racial. Para muitos a chegada de ambos era um atentado contra a filosofia do clube, o clube de Putin, um homem que está determinado em fazer da Rússia não só uma potência, mas um país onde predomine a supremacia eslava, branca e ortodoxa, sem espaço para os direitos civis de homossexuais, mulheres e minorias étnicas. O futebol seria o espaço ideal para afirmar essa supremacia e a inclusão desses dois jogadores — como antes tinha sucedido com Vagner Love no CSKA e mais tarde aconteceria com o holandês Quincy Promes no recém campeão Spartak Moscovo — era um desafio a essa mentalidade.

Os adeptos, no entanto, não estavam sozinhos nessa luta. Os próprios futebolistas do Zenit não pareciam cómodos com a ideia de ter jogadores negros no seu vestuário. A queixa veio por outro motivo, o das diferenças salariais, mas tanto Kerzakhov como Denisov — capitães e veteranos do futebol russo — revoltaram-se, recebendo sanções desde a própria direcção do clube, preocupada com a imagem que passava à Europa: foram punidos financeiramente e tiveram uma breve despromoção à equipa júnior. Eram dois atletas da era dourada do clube, aquela que venceu, finalmente, o título da Premier League russa e a Taça UEFA em 2008. Dois jogadores que sabem no fundo qual é a verdadeira filosofia de um clube que, até há bem pouco tempo, era apenas um dos muitos de meio de tabela do futebol russo, mas que graças ao investimento da Gazprom e a influência de Vladimir Putin se tornou no símbolo de uma nova Rússia.

Faça login ou crie uma conta abaixo.

Criando uma conta, você tem acesso GRATUITO e ILIMITADO a todos os textos da Corner.

  

Leia também:
Um camisa 10 sem lugar

Os paradigmas em torno de Mesut Özil Poucos jogadores chamavam mais a atenção do mundo em 2010 que Mesut Özil. ... (Continue lendo)

Entre tapas e beijos
A famosa e antiga Ladeira da Montanha (Foto: Flavio Damm)

Jorge Augusto Ferreira de Aragão nasceu na capital da Bahia, Salvador, no dia 23 de abril de 1954, dia de ... (Continue lendo)

Jornalista e escritor. Autor dos livros “NOITE EUROPÉIAS”, “SONHOS DOURADOS”, “SUEÑOS DE LA EURO” e “JOHA: A ANATOMIA DE UM GÊNIO”.Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos.O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona.Estudou comunicação na Universidade do Porto e morou mais de uma década em Madri.

Deixe seu comentário