Vodu não funciona

No Old Firm, religião entra em campo. Para os dois lados.

Ilustração: Éric Chinaglia
Livraria FC

Por Guilherme Jungstedt

Para que um jogo seja chamado de grande clássico, os times e torcidas envolvidos precisam apresentar alguma espécie elementar de oposição direta ao outro. Não é raro observar rivalidades alimentadas por motivações sociais  – o clube dos ricaços contra o time do bairro pobre, por exemplo – e inclinações políticas, nas quais esquerdistas e direitistas (para manter simples a questão) se enfrentam em um campo de futebol. Mas apesar de também conter estes antagonismos sociológicos,  a rivalidade escocesa entre Celtic FC e Glasgow Rangers FC também é estimulada por sentimentos sectaristas provocados por dois fatores especialmente voláteis: a xenofobia e a religião.

Fundado por um padre católico irlandês, o Celtic surgiu motivado pela nobre causa de levantar fundos para as comunidades do East End, bairro essencialmente povoado por imigrantes irlandeses e seus filhos escoceses, em Glasgow. A essa altura, o Rangers já existia, com uma significativa base de adeptos leais à coroa britânica. Sua inclinação protestante deu-se um pouco mais tarde, justificada, talvez, pelo desejo de oposição diametral aos imigrantes católicos representados pelo novo rival.

Em campo, a primeira partida entre os times aconteceu em 1888, com vitória do Celtic por 5 a 2. O clássico passou a ser chamado de Old Firm (“velha firma”, em tradução livre). Não há dados precisos sobre a razão pela adoção do nome, mas acredita-se que foi graças às vantagens comerciais do apelo popular em ocasiões de enfrentamento entre os dois clubes.

O Celtic concretizava sua hegemonia de títulos sem discriminar jogadores protestantes, aceitando-os em seu elenco sem maiores problemas. Mas o rival insistiu em fechar as portas para os católicos até o ano de 1989, quando o ex-ídolo do Celtic, Maurice “Mo” Johnston assinou com o Rangers, causando revolta nas duas torcidas: os fãs do Celtic o chamavam de mercenário, enquanto os torcedores do Rangers não aceitavam um católico atuando pelo clube. A tensão obrigou o jogador a se mudar de Glasgow. Ironicamente, a escalada de títulos que levou o Rangers a igualar o recorde de conquistas  do rival, começou justamente na mesma temporada deste pequeno precedente religioso.

Com nove títulos nacionais seguidos conquistados pelo Glasgow Rangers durante a década de 90, as tensões religiosas pareciam haver arrefecido – ainda que as brigas entre as torcidas continuavam a acontecer, motivadas pelos outros inúmeros antagonismos entre os rivais. Parecia que a Escócia estava livre do sectarismo religioso que tanto contribuía com a divisão da população.

Mas em 2006, um goleiro polonês acabou trazendo a discussão de volta. Artur Boruc entrava em campo pelo Celtic em seu primeiro Old Firm, sediado na casa do rival, o Ibrox Stadium. Torcedores do Rangers queixaram-se de gestos provocativos do jogador, seguidos pelo sinal da cruz – o estopim para que a polícia se sentisse obrigada a agir e conter os ânimos dos protestantes ofendidos. Apesar de não haver qualquer imagem que houvesse capturado esta situação específica, Boruc foi advertido pelos órgãos judiciais escoceses, levando a Igreja Católica a condenar publicamente a medida: “A Escócia parece ter se convertido em um dos poucos países onde um simples gesto religioso é considerado uma ofensa.”

Advertido ou não, Artur Boruc continuou com seus rituais religiosos dentro de campo, fosse a partida no Celtic Park – onde o gesto levava os locais à loucura – ou no Ibrox Stadium, onde os torcedores da casa chegaram a levar uma faixa com os dizeres Dodgy ‘keeper, voodoo no worky [goleiro desertor, vodu não funciona, em tradução livre].

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