Um conceito: futebol e arte. Uma cidade: Milão. Uma torre.

Por Giovanni Ghilardi

Se puder, chega um pouco antes porque hoje vamos entregar as caneleiras aos jogadores”. É só um pedido [nada comum por sinal] mas já mostra bem a essência do A.S. Velasca. Um clube italiano que dá seus passos com uma perna artística e outra esportiva; buscando fazer tudo diferente, desde a camisa de jogo até as caneleiras.

O autor da frase que abre o texto: Wolfgang Natlacen [presidente do clube] e Marco De Girolamo [diretor esportivo], são dois dos cinco fundadores da equipe, falaram com a Corner para entender um pouco mais da história e das pretensões do time milanês.

No alto da catedral de Milão, fica uma das vistas mais famosas da cidade. A paisagem contempla ruas, prédios e galerias tradicionais. Mas não tem jeito, quem rouba a cena é sempre a torre “diferente demais para estar no centro histórico” que tem um lugar de destaque no cenário.

A torre foi inspirada na cultura lombarda, com as torres das fortalezas tendo as bases mais estreitas que as partes superiores, e ao lado do Duomo, a Torre Velasca com estilo arquitetônico brutalista é a construção mais icônica de Milão.

Aquela é a Torre Velasca, inaugurada em 1958, grande inspiração para o time que leva o mesmo nome e que também quer causar o mesmo efeito da obra no mundo do futebol, criando experiências igualmente “fascinantes e impossíveis de serem copiadas”.

Aquelas caneleiras do primeiro parágrafo são um grande exemplo disso. Cada par é uma obra única feita pelo artista italiano Alessandro Belussi

A ideia inicial era retratar de um lado um jogador antigo que não usava caneleiras, e do outro, trazer um raio-x de uma lesão obtida graças a esse fato.

Depois, utilizando as mesmas técnicas fotográficas, Belussi produziu os pedidos de jogadores, que escolheram as imagens para serem estampadas em cada uma de suas pernas, como um símbolo de sorte e proteção; sendo também uma espécie de escudo quase invisível. Afinal, o meião acaba escondendo tudo, mas o sentido transcende o futebol e ganha um significado para cada jogador.

Em cada jogo, dá pra notar algumas inovações do time. A bandeira de escanteio por exemplo, é uma obra feita pelo artista inglês Kevin Jackson e as tradicionais bandeirinhas dos auxiliares é um trabalho confeccionado por Stephen Dean, inspirado no calçadão do Rio de Janeiro.

Assim é o Velasca, cada detalhe que possa ser reinventado se transforma em uma obra de arte. Os limites não existem para a as criações: “Aqui, os artistas são sempre livres.” garante Natlacen, almejando honrar sempre o slogan do clube, em alusão à torre, à arte e ao futebol: Always Higher ou em tradução livre: Sempre mais alto.

No campo

“Não entendo porque fui descartado, eu gosto de Basquiat e leio Houllebecq”. Essa foi a fala inconformada de um jogador após ser dispensado pelo Velasca. Sim, é verdade que alguns dos atletas também tem um lado artístico e muitas vezes até trabalham nesse campo, mas essa não é a regra por lá.

O Velasca, ano a ano, vai subindo dois degraus com a bola nos pés. Na primeira temporada, acabou em sétimo. Já na segunda, a colocação na tabela foi a quinta posição. E em 2018, vem brigando pelo terceiro posto. Agora na Open B, liga organizada pela CSI [Centro Esportivo Italiano], o objetivo em breve é disputar competições maiores, regularizadas pela maior confederação futebolística do país.

“Em 2019, gostaria de inscrever o time em campeonatos organizados pela FIGC [Federação Italiana de Futebol], sempre partindo de baixo. A inscrição não é difícil, basta pagar. Mas queremos causar uma boa impressão por lá. Por isso quero que o time melhore a cada ano e assim na temporada 2019/20 estaremos nessas ligas com mais visibilidade”.

Assim conta De Girolamo. Na sua cabeça também está bem claro o time de equipe e de jogadores que ele gostaria de contar. “Meu desejo é que os jogadores ficassem no Velasca por anos. Do ponto de vista futebolístico queria criar essa alma para o time. Formar ídolos, ‘bandeiras’ como vimos antes na Itália: Maldini e Totti.”

Com a declaração dá pra ver um pouco do espírito do diretor esportivo e como ele gostaria que seu time resgatasse o romantismo de outros tempos. Os outros quatro fundadores também compartilham a paixão pelo futebol de outrora. “Sócrates e a democracia corinthiana é uma das nossas grandes referências” diz Natlacen.

A parceria com a Le Coq: camisas e fontes de receita

A cada temporada, um artista é convidado para fazer o desenho da camisa. Na temporada 2016/17, o convidado foi o francês Zevs que aproveitou a oportunidade para fazer uma crítica ao mundo das marcas e ao capitalismo moderno. O paradoxo de confeccionar essa ideia, ficou por conta da Hummel.

Já, na temporada 2017/18, a ideia foi brincar com o fato que os dois grandes times de Milão, a Inter e o Milan, foram comprados recentemente por investidores da China.“Estava com inveja, os dois primeiros times de Milão são chineses, nós também queremos ser” conta o presidente. Assim, foi escolhido um artista do país asiático, Jiang Li, para criar a camisa.

Os tradicionais cachecóis também foram produzidos para temporada com um conceito que liga as duas obras: liberdade de expressão. Dessa maneira, três versões diferentes foram confeccionadas levando três poemas futuristas diferentes.

Outro detalhe para essa temporada fica por conta da entrada da Le Coq Sportif como patrocinadora esportiva. Um desejo que os fundadores tinham desde o início do clube. “Eles tem valores bem parecidos com os nossos, sempre pensamos neles”, conta Natlacen. Que após 16 meses de negociação concluiu a parceira.

Dessa forma, uma leva de camisas e cachecóis são feitas e vendidas no site do clube. O comércio dessas duas peças é o maior ganha pão do time que não apresenta outras grandes rendas.

O Velasca não vende o trabalho de outros artistas — como aquelas caneleiras do começo da matéria, criadas por Belussi. Assim, se alguém quiser uma peça igual a usada pelo time, deve se dirigir diretamente ao autor que fica com o lucro. É desse modo que a parceria sempre vai aumentando.

“Alguns artistas são nossos patrocinadores. Outros nós que buscamos, como por exemplo Eric Pougeau que usava sempre a temática da morte em suas obras e assim, nós pedimos para que ele fizesse nossa faixa de luto”.

Os trabalhos fogem totalmente de um esporte cada vez mais padronizado. Mas é essa estranheza e esse respiro que a equipe quer proporcionar ao futebol que já foi o maior do mundo e que hoje lamenta a ausência de sua seleção na Copa do Mundo.

Sempre com a torre em vista, o Velasca vai construindo seus próprios andares jogando bola e contando histórias. Querendo chegar nas alturas para desafiar os antigos arranha-céus italianos, mas tendo os pés no chão para saber onde estão pisando.

“Tudo é pensado, tudo tem uma narração e segue o nosso pensamento.” finaliza o presidente.

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