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O clube mais odiado da antiga Tchecoslováquia virou sensação pop na Inglaterra

Por Miguel Lourenço Pereira

Há poucos clubes e camisas tão místicas na história do futebol como a do Dukla de Praga, representante perfeito do espírito da Guerra Fria, divisora da Europa em duas metades. Tamanha ascensão icônica do clube, aliás, até conseguir invadir o cenário punk, com uma das músicas mais celebradas da Inglaterra dos anos oitenta: “All I Want for Christmas is a Dukla Praha Away Shirt”. Atrás da sátira juvenil escondia-se a história de um clube que foi proporcionalmente odiado no seu próprio país e amado no exterior. A história do Dukla de Praga é, de certo modo, a história da Guerra Fria no futebol.

Dukla de Praga, fenômeno da cultura pop

Se algo ajudou a celebrizar a nível global o clube da antiga Tchecoslováquia foi uma conjugação mística entre as noites europeias e o mais popular jogo de mesa do mundo, Subbuteo. Na Inglaterra e Itália, sobretudo, mas também no resto da Europa, o Subbuteo tinha se tornado altamente popular nos anos sessenta graças às suas figurinhas em três dimensões dos jogadores. As partidas eram disputadas  num pano retangular verde e uma série de acessórios que incluía balizas, bolas, árbitros, adeptos, bancos de suplentes e até holofotes e marcadores eletrônicos. Todos os meninos dos anos sessenta cresceram com o seu set de equipas Subbuteo que eram comercializados tendo em conta a celebridade mundial dos clubes. Sempre que alguma equipa se convertia em celebridade por algo que sucedia no mundo real, a empresa detentora da Subbuteo lançava ou, em alguns casos até relançava, o respectivo conjunto.

Em novembro de 1978, num jogo válido pela Copa da UEFA, o Dukla de Praga, um clube quase anônimo para muitos adeptos ingleses, causou uma imensa surpresa ao eliminar o Everton, em pleno Goodison Park, num jogo transmitido ao vivo para todo o país. O que mais fascinou os adeptos não foi tanto o seu modelo de jogo vertical e físico e sim as suas camisas hipnóticas, um vermelho acastanhado com amarelo nos ombros e calções igualmente amarelos, uma combinação que não possuía nenhum outro clube no mundo.

O cobiçado Subbuteo com os jogadores do Dukla

No Natal daquele ano, a caixa de Subbuteo do Dukla converteu-se numa das grandes sensações e rapidamente entrou na lista dos sets mais vendidos do ano. A paixão desses jovens adolescentes foi tão grande e marcante que sete anos depois, em 1985, a banda de punk-pop britânica Half Man Half Biscuit decidiu lançar um single — também na época das festas natalícias — para recordar o período de fascinação com uma equipa das mais alternativas que se poderia imaginar.

A música se chamava “All I Want for Christmas is a Dukla Praha Away Shirt” [“Tudo que quero para o Natal é uma Camisa Reserva do Dukla Praha”, uma sátira não só à canção “All I Want For Christmas is You”, mas também ao fenômeno futebolístico e à cultura juvenil da época, subindo rapidamente ao topo dos charts de venda. Seja uma critica ou uma lembrança nostálgica, o certo é que o Dukla de Praga se tornou num clube de culto, quatro décadas depois do seu nascimento, curiosamente sem que ninguém na Inglaterra suspeitasse que esse era também o clube mais odiado de toda a Tchecoslováquia.

O clube mais odiado de seu país

Em 1948 o exército tcheco — controlado pelas esferas do partido comunista depois da ocupação militar do país no final da II Guerra Mundial — decidiu patrocinar um clube de futebol para participar na liga local, como era hábito nas Repúblicas Populares, e assim tomar parte nesse xadrez político e desportivo, como de costume nas nações com essa influência política.

O clube atraiu o ódio do país ainda nos tempos de ATK

O país era conhecido de todos pela qualidade do seu futebol e pelos seus clubes míticos, sobretudo em Praga e Bratislava, mas nenhum deles estava ao dispor dos militares. O Sparta converteu-se no clube dos serviços secretos e o Slavia, no dos dissidentes políticos — e por isso pagou um pesado preço histórico, quando foi necessário recomeçar do zero. O exército fundou assim o ATK Praha e, aproveitando a influencia política, lograram aprovaram uma lei que obrigava qualquer jogador em idade de cumprir serviço militar a jogar pelo clube, independentemente de ter contrato com outro emblema. Durante quase uma década o ATK nutriu-se dos melhores jogadores rivais para acumular títulos e honras tornando-se, em consequência, no mais detestado clube do país. Embora os elencos fossem temporários, congregavam o talento de mais alto nível e por isso eram quase sempre campeões nacionais, sem discussão.

Como entre 1954 e 1956 time não venceu nenhum torneio, os meses complexos e agitados na vizinha Budapeste levaram a algumas alterações na gestão do clube e do futebol tcheco. O exército decidiu patrocinar então a mudança do nome do clube para Dukla Praha, em homenagem a uma das batalhas mais sangrentas da II Guerra Mundial em território tcheco, entre soviéticos e alemães. Nesse dia, morreram mais de 40 mil homens e o triunfo dos soviéticos proporcionou a liberação do país e também a sua ocupação pelo Exército Vermelho. Utilizar o nome Dukla para batizar o clube era mais do que uma manobra política, era um verdadeiro sinal de força. Com o apoio dos militares, o clube manteve a sua tirania sob o futebol nacional durante quase todos os anos sessenta e setenta, acumulando diversos títulos, à medida que albergava os grandes talentos do país.

Josef Masopust, o grande nome do futebol europeu em 1962

Em 1953 o clube contratou uma jovem promessa ao FK Teplice graças à sua política de preferência sobre jogadores em idade de serviço militar: durante mais de doze anos Josef Masopust foi general em campo que os militares na diretoria sempre sonharam em ter. O primeiro jogador checo a vencer o Ballon D’Or – em 1962 bateu Eusébio depois de ter sido uma das figuras do Mundial perdido contra o Brasil — o genial Masopust era o cérebro do jogo ofensivo do conjunto vermelho e amarelo de Praga. Quando se aposentou, a braçadeira de capitão já tinha encontrado um digno sucessor, o mítico guarda-redes Ivo Viktor, uma das traves-mestras do triunfo da Tchecoslováquia no Europeu de 1976. No ataque dessa equipa, imortalizada pelo pênalti de Panenka, estava Zdeněk Nehoda, o último grande herói em campo do clube. Em 1991, no despertar de uma nova era, o Dukla foi forçado a vender a sua última estrela: ainda não o sabiam, mas o adolescente Pavel Nedved estava destinado a grandes voos. Seria o primeiro tcheco a suceder a Masopoust em mais de quatro décadas como vencedor da Bola de Ouro, encerrando o ciclo do Dukla de forma simbólica, pois o clube que forçava os outros a vender-lhes as suas estrelas fechou as portas tendo de vender a sua mais brilhante pérola.

O renascimento de um clube maldito

A cada novo título, o Dukla perdia adeptos na Tchecoslováquia, que olhavam para os seus triunfos como sinônimo da ocupação soviética e da asfixia forçada pelo regime comunista. O Julisce, o seu mítico estadio, foi-se esvaziando com o passar das décadas. Antes mesmo do final da Guerra Fria, o Dukla era incapaz de atrair mais de dois mil adeptos a um jogo em casa. Na Inglaterra, provavelmente, havia mais adolescentes com o seu set de Subbuteo do clube do que adeptos apoiando ao vivo. Quando o muro de Berlim caiu e o bloco soviético se desmoronou, o destino do Dukla ficou traçado para sempre. Muito atrás em apoio popular do que outros clubes de Praga como o Sparta, Slavia, Bohemians ou Viktoria, o Dukla foi rebaixado aos campeonatos regionais em 1992, depois de entrar em declínio.

O novo Dukla Praha

Na década seguinte penou nas ligas amadoras até que foi transferido de cidade, oitenta kilômetros a oeste, para Příbram, graças à influência de um milionário, Bohumír Ďuričko, que mudou o nome do clube para Dukla Příbram, a sua cidade natal. No início dos 2000, o clube conseguiu voltar a Praga e em 2011 regressou ao futebol de elite, sempre com as suas camisolas míticas. Agora, ironicamente, converteu-se num clube nostálgico dos anos de ferro do comunismo e dos amantes do futebol retro, um clube alternativo como nunca foi na sua larga história. Mais do que nunca, a música dos Half Man Half Biscuit ecoa nas ruas da cidade de Kafka com outro espirito, pois o Natal sempre pede um novo set de camisas do Dukla de Praga.

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