João Castelo-Branco fala um pouco de seu perfil “faz-tudo”

Por Fernando Martinho

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epórter correspondente graças às circunstâncias da vida, João Castelo-Branco conhece como poucos as manhas da produção jornalística autônoma, onde ele cumpre todas as funções que eram desempenhadas por numerosas equipes há até bem pouco tempo atrás. Com a autoridade de quem morou em Londres a maior parte de sua vida, ele fala dos desafios da videorreportagem solitária e explica porque é insustentável a fórmula que encarece o preço dos ingressos nas novas arenas brasileiras – tão comparadas aos sempre lotados estádios ingleses.

Você acha que o mercado jornalístico demanda mais videorrepórteres como você?

Sim. Acho que a função é uma tendência para certas coisas. Hoje em dia, todos querem vídeos. A tecnologia permite uma independência profissional cada vez maior. Com poucos equipamentos, dá para entrar ao vivo de qualquer lugar e, para fazer vídeos de qualidade, basta um simples celular com uma boa câmera.

O problema é que o profissional acaba se tornando um “burro de carga” e sofre em algumas situações – como uma zona mista de Champions League, por exemplo: aquela muvuca, gente pra caramba e você tendo que garantir seu espaço na base do empurra-empurra. Já estou acostumado, mas quando se tem um câmera pra fazer isso por você, há mais tempo para se concentrar só nas perguntas. Cada vez mais eu vejo outros como eu, filmando e fazendo as perguntas ao mesmo tempo.

Quando eu comecei a mandar vídeos para o Brasil, ou enviávamos a fita por FedEx ou as imagens por satélite. Comecei a investigar e experimentar outras maneiras pela internet.  Vi que dava para comprimir os vídeos e enviá-los por e-mail. Antes, não havia FTP e WeTransfer. Era um sofrimento enviar as imagens e eu cheguei a virar noites só para mandar um vídeo

Essa casca você ganhou na ESPN ou já foi “calejado” para a emissora?

A ESPN era, como os ingleses falam, um underdog. No Brasil, é o que se poderia chamar de “zebra”. O canal mais pobre, com menos recursos. A gente chegava num lugar e a Globo já estava lá com dez equipes e tinha os direitos sobre tudo.  Chegávamos eu e o [André] Plihal, com uma camerazinha pequena, tendo que se virar sozinhos. Às vezes era foda. A gente quebrava a cabeça e se fodia muito. Mas ao mesmo tempo, isso unia as pessoas que trabalhavam lá. Nossas pequenas conquistas nos faziam batalhar mais pelas coisas e trabalhar como uma verdadeira equipe. Entre nós, comentávamos: “Porra, os caras estão aqui com dez equipes e a gente conseguiu fazer um trabalho digno sem ficar muito atrás.” A ESPN cresceu e agora tem muito mais estrutura. Foi na própria emissora que eu fui me desenvolvendo. Durante muito tempo, conseguimos manter esse espírito de guerra, de comemorar as pequenas conquistas.

As novas arenas do Brasil estão normalmente vazias e o preço dos ingresso costuma ser um dos motivos. O brasileiro gosta tanto assim de futebol a ponto de pagar o que pedem pelo ingresso de uma partida?

Eu acho que gosta, mas o Brasil está meio perdido. O que eles estão querendo com essas novas arenas? Copiar o modelo daqui da Inglaterra? Estádio bonitinho, tudo sempre cheio, menos violência, só porque agora a classe média também freqüenta? Isso aí pode ser muito legal. Mas funciona na realidade brasileira? Acho que não houve um estudo bem feito. As pessoas encarregadas por tomar decisões no futebol brasileiro não parecem estar preparadas para isso.

A Premier League, por exemplo, é um produto, um baita campeonato que todo mundo quer ver. O Brasileirão não é. Estão querendo copiar um modelo europeu de estádios, com ingressos mais caros. Acontece que na Europa é assim porque há uma enorme demanda. Aqui é caro porque os clubes já venderam todos os carnês e têm lista de espera por entradas. É enorme a quantidade de turistas que vêm para assistir os jogos e não conseguem entrar.

Isso gera um movimento de torcedores de verdade que não conseguem ir aos estádios por causa dos altos valores das entradas. No Brasil, estão tentando estabelecer preços altíssimos sem ter essa demanda. Tudo bem que os estádios melhoraram. Mas antes, é necessário ter um produto para vender e o Brasil não tem.

Com a elitização do futebol por aqui, o ambiente mudou muito. Parece que você está num teatro. Todo mundo sentado e cantando pouco. Isso não é futebol. Às vezes, é muito mais legal você ir assistir a um jogo num pub, com torcedores de verdade que não podem mais ir aos estádios em todas as rodadas – não só pelo dinheiro, mas também pela perda de conexão do futebol inglês com suas próprias origens, com a comunidade e com os próprios torcedores, que acabam tratados mais como consumidores.

O Brasil não devia excluir o torcedor fanático. Ele é o responsável pelo clima no estádio. Mas também é preciso atrair a classe média oferecendo segurança, não um apartheid. Os estádios estão vazios, mas cabe todo mundo!

Houve algum momento em que você sentiu que não dava mais para voltar para o Brasil?

Depois que eu tive filhos, pensei: “Putz, agora pra voltar é uma coisa muito mais complicada”. Minha mulher é inglesa e ela começa a pensar nos prós e contras, especialmente na segurança dos filhos. Mas eu amo o Brasil e não descarto voltar. Gostaria de fazer isso em breve, com algum projeto. Eu quero me “abrasileirar” um pouco outra vez.

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