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Classe, postura e elegância: Didi, uma lenda do futebol romântico

Por Lucas Sposito

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oi nos anos 50 que que o futebol ganhou o apelido de “jogo bonito”. O termo rodou o mundo, fazendo com que sua criação chegasse a ser disputada até por um jornalista inglês. Mas o brasileiro — mais precisamente, o carioca — sabe que que isso foi obra de um dos jogadores mais populares do Rio de Janeiro.  Não apenas em palavras, mas também na maneira de se comportar em campo. Valdir Pereira, simplesmente conhecido como Didi, foi quem emplacou a expressão na literatura e nos gramados.

A carreira de Didi quase não começou. Aos 14 anos, sofreu uma entrada no joelho que quase resultou na amputação da perna. Foram meses usando uma cadeira de rodas até que voltasse a jogar futebol novamente. Após passagens por pequenos times cariocas, foi para o Fluminense aos 21 anos, onde ficou por sete anos e tornou-se ídolo. O tricolor foi o clube em que ele passou mais tempo jogando.

Mas ainda assim havia tempo para fazer história por outro grande do Rio. Após deixar o Flu, namorou com o Botafogo por diversas idas e vindas. Formou o esquadrão alvinegro com Garrincha, Nilton Santos, Quarentinha, Amarildo e Zagallo.

Folha seca

Didi foi um dos meio-campos mais completos do futebol. Tinha recursos para qualquer tipo de lance. Podia matar a bola no peito e fazer um lançamento de 40 metros com uma rara precisão. Quando ficava sem espaço, passava a bola de primeira como se não estivesse ali, como um organizador anônimo. Em último caso, dava rolinhos e chapéus com a qualidade de um ponta, mas com a elegância que só Didi tinha.

Sempre jogando de cabeça erguida, seus olhos estavam sempre observando o ataque, procurando o avanço do companheiro que receberia seu próximo lançamento magistral. Foi apelidado por Nelson Rodrigues de O Príncipe Etíope de Rancho. “Eu não precisava correr. Quem precisava correr era a bola. Eu dava um passe de 40 metros, para quê eu vou correr quase 35 metros para poder dar um passe de cinco, se eu posso dar um passe de 40?”

Foi durante suas passagens pelo Botafogo que ele conquistou as Copas do Mundo de 1958 e 62. A calma e experiência de Didi serviram para acalmar diversas estrelas da Seleção, incluindo o jovem Pelé, para que pudessem mostrar seu futebol com menos pressão. Durante a final de 58, quando o Brasil saiu perdendo para a Suécia, Zagallo conta a influência de Didi sobre os nervos da equipe:

“Eu já estava na ponta-esquerda, pronto para dar a saída, e vi o Didi andando devagar com a bola nos braços. Fui desesperado em direção a ele, gritando: ‘vamos, Didi, estamos perdendo!’ Ele, calmo como sempre, simplesmente retrucou: ‘Calma, garoto. Nosso time continua sendo melhor que o deles. Fica tranqüilo que a gente já vira esse jogo’”

O resto é história.

Em 1959, recebeu uma proposta para jogar no Real Madrid. Fez parte de um dos maiores times da história, que incluía Gento, Puskás e Di Stéfano. Mas sua chegada ao clube causou ciúme no argentino, que não gostou de dividir a atenção da torcida com o recém escolhido melhor jogador da Copa de 1958.

Um boicotava o outro. Didi recusava-se a dar assistências a Di Stéfano e só o fazia quando necessário. Se passava a bola ao argentino e este marcava um gol, recusava seu abraço: virava-se de costas e comemorava com a torcida. Torcida a qual ele nunca compreendeu muito bem:

“Os espanhóis adoravam jogador que dava carrinho, caía no chão. E eu nunca dei um carrinho em ninguém. Saía de campo com a camisa e as meias limpinhas, e eles não entendiam. Eu tinha de meter a mão na lama e passar na minha camisa. Para quê isso tudo, se eu chegava na frente e deixava os atacantes na cara do gol? Eles ficavam danados.”

Mas nem só de passes vivia Didi. Orgulhava-se e emocionava-se ao falar da “folha seca”, maneira que ele mesmo criou de bater na bola e colocar um efeito que dificultasse a vida do goleiro. Foi assim que fez grande parte de seus gols, tanto com bola rolando quanto de falta. Até o fim da vida, reclamou que os jogadores já não usavam sua criação como recurso. Ele nunca imaginou o sucesso que a batida faria com jogadores como Juninho Pernambucano, Andrea Pirlo e Cristiano Ronaldo, mas todos após sua morte.

Didi faleceu maio em 2001, vítima de câncer de estômago. Sobre seu caixão, duas bandeiras dividiam espaço: uma do Botafogo e outra do Fluminense.

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