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A transição do jovem promissor sueco em craque mundial

Por Fernando Martinho

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filme Becoming Zlatan traz imagens exclusivas do início da carreira de Ibrahimović. A produção sueca, de 2015, começa com o jogador embarcando para Amsterdã e mostra o impacto midiático da transferência mais cara da história do Ajax até aquela época, custando € 9 milhões aos cofres do clube da capital holandesa.

Minutos após o início, o filme volta dois anos no tempo, e começa a exibir a trajetória de Zlatan no Malmö, clube que leva o nome da cidade natal do sueco, filho de imigrantes dos Bálcãs. O material é muito rico com imagens únicas de um jovem, que já mostrava sinais de rebeldia desde muito cedo, quando iniciou sua carreira.

Zlatan marca um gol em um amistoso de pré-temporada, e tudo parecia perfeito para sua carreira decolar. Ele mesmo diz na entrevista coletiva de sua apresentação em Amsterdã: “Meu jogo é perfeito para o Ajax”, e perguntado sobre como era seu jogo, ele responde com inglês um pouco duro, que marcou seu estilo de falar pra sempre: “técnico”, finaliza.

No livro Eu Sou Zlatan, Ibra fala da sua devoção por Ronaldo

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Mas a primeira temporada no Ajax ficou muito aquém das expectativas. Um dos poucos holandeses que criou uma relação extra campo com Zlatan, Andy van der Meyde, conta no filme que Ibra se sentia preso durante os jogos, não conseguia fazer aquilo que melhor sabia que era jogar futebol e, claro, fazer gols como fazia no Malmö que o credenciou a ser a contratação mais cara da história do maior clube holandês até aquele momento.

Foram sete gols em 27 jogos. Logo no início da temporada, uma cotovelada em um zagueiro do Groningen lhe rendeu cinco jogos de suspensão e sujou a sua imagem junto à torcida ajacied. Outra contratação do verão de 2001, o egípcio Mido, que chegou para jogar de ponta esquerda começou a marcar gols e resolveu competir por um lugar no ataque com Zlatan e com Nikos Machlas. O time terminou fazendo a dobradinha, conquistando a liga e a copa holandesa. Zlatan terminava a temporada tachado pela imprensa como carta fora do baralho para a temporada seguinte.

No filme, Mido conta sobre a relação de amizade entre eles. Conta da vez que Šefik, o pai de Zlatan, foi até Amsterdã, mostrou uma foto dos três, e que Šefik estava muito chateado com o filho não usar o sobrenome paterno na camisa.

O então técnico do Ajax, Ronald Koeman, recebeu o antigo ídolo do clube, Jari Litmanem, como reforço para a temporada seguinte (2002/03). Mido começou a se desentender com o técnico, causar problemas no vestiário, inclusive com Zlatan, atirando uma tesoura, que usava para cortar o esparadrapo dos meiões,  na direção do rosto de Ibra, como ele mesmo conta no documentário Becoming Zlatan. O sueco foi o único jogador do elenco a sair em defesa do egípcio após o incidente, perdoando o amigo.

Jari Litmanem era o jogador que faltava para abrir os espaços e encaixar as bolas para Zlatan. O experiente finlandês já conhecia os atalhos e foi um verdadeiro tutor de Ibra. Mido acabou deixando o clube e nunca mais se assentou em nenhum lugar. A temporada 2002/03 não foi gloriosa para o time, mas Ibra começava a mostrar, por fim, do que era capaz. Foram 16 gols em 28 jogos. A influência de Litmanem era nítida.

Foi então na temporada 2003/04 que terminou com o título da liga holandesa, que houve um mudança pequena, porém significativa na carreira de Zlatan. O Team Manager, David Endt, contou que o sueco chega até ele e diz que não queria mais o nome Zlatan na camisa. Ele queria Ibrahimović. No entanto, não há nenhuma outra menção ou explicação sobre a decisão do sueco.

Foi nesta temporada que Rafael van der Vaart, cria da base do clube, se tornou capitão do time. No início da temporada seguinte, após a primeira Eurocopa de Zlatan com a camisa da Suécia, em um amistoso entre Suécia e Holanda em Estocolmo em 18 de agosto de 2004, Ibra faz uma jogada na entrada da área, e ao dividir a bola com van der Vaart, ele estica a perna e quase quebra o tornozelo do companheiro de equipe. A jogada termina em gol da Suécia, e Ibra comemora como se nada tivesse acontecido mesmo com van der Vaart caído aos prantos. Zlatan ainda daria um golpe em Giovanni van Bronckhorst naquele jogo.

Perguntado após o jogo sobre como seria a relação com Zlatan, van der Vaart disse que seria muito difícil, pois estava muito desapontado com o companheiro. Nos comentários exibidos no filme, as insatisfações eram contundentes e beiravam o ódio.

A imagem de Zlatan estava definitivamente manchada junto à opinião pública holandesa. Imprensa e torcida contra sueco. Conhecido como cigano por sua origem balcânica, Zlatan nunca pertenceu nem mesmo à comunidade sueca, onde também era descriminado por seu sotaque peculiar do bairro onde cresceu, com predominância de imigrantes.

Ronald Koeman foi obrigado a convocar uma reunião e interceder no problema. Mas confessou que uma solução seria difícil. “Zlatan disse a Rafael: eu não gosto de você, não gosto de você como capitão do time”, contou Koeman com olhar de quem não tinha muito mais o que fazer. David Endt, o Team Manager, agregou: “Se Rafael fosse homem, ele teria vindo até mim e dito o que ele pensava e não nas minhas costas. Se ele fizer isso de novo, eu arranco a cabeça dele”, e houve um silêncio a seguir.

No final de semana posterior à reunião, precisamente em 22 de agosto, veio então um jogo da liga holandesa contra o NAC Breda. Foi quando Zlatan se tornou — definitivamente — Ibrahimović. Agora também dentro de campo. Fora dele, o recado já estava dado. Rafael van der Vaart não jogaria, pois estava lesionado após o pisão de Ibra no amistoso entre as respectivas seleções. O holandês estava na arquibancada.

No primeiro toque na bola, uma vaia monumental sobre o sueco. O NAC fez 1 a 0. Zlatan faz o gol de empate. Não comemorou. Zlatan desempatou o jogo, ainda que tenha sido atribuído ao defensor como gol contra. Ibra tampouco festejou. O Ajax ampliou pra 3 e depois pra 4 a 1. E foi aí, que o sobrenome de Zlatan percorreu o mundo. Ele recebe a bola de costas, faz o pivô, divide com outro rival que tenta explodir a bola, e no pé de ferro a bola repica e cai pra ele novamente, desta vez de frente. Ameaça que vai chutar de fora da área, e ilude dois defensores que tentam interceptar. Traz então a bola pra dentro, pra sua perna esquerda, corta pra sua direita, depois pra esquerda novamente já sobre a linha da grande área e entorta o marcador. Um outro zagueiro vem de carrinho e é driblado, fica no chão. Outra finta, vai chutar, outro carrinho, mais um no chão, o goleiro cai junto e Ibrahimović traz pra perna esquerda novamente, com os dois estirados no gramado, e coloca pra dentro.

Van der Vaart fica atônito, não reage, como se nada tivesse acontecido. Ibrahimović sai correndo, comemora, grita, a torcida que vaiava explode de emoção ao ver um dos gols mais plásticos da história do futebol. Todos os jogadores correm atrás do sueco e se amontoam sobre ele, eufóricos.

Dias mais tarde, no fechamento da janela de transferências, Zlatan e seu agente, Mino Raiola, estavam na cerimônia de Melhor do Ano do futebol holandês, quando Mino se levanta com pressa e vai pra um corredor, e atende a ligação falando em italiano. Já havia uma expectativa em torno de uma transferência de Ibrahimović para a Itália. Era a Juventus quem pagaria € 16 milhões (segundo o Transfermarkt) pelo atleta.

O filme acaba após o final da primeira temporada de Ibrahimović na Juventus, com o título da Serie A. Esse título seria revogado após o escândalo de suborno e manipulação de resultados e a Juventus seria rebaixada à Serie B no final da temporada seguinte, mesmo conquistando o maior número de pontos. Com a Vecchia Signora na segunda divisão, Ibra se transfere pra Internazionale por € 25 milhões. Em 2009, após três temporadas com a camisa nerazzurra, o Barcelona desembolsa uma fortuna (€ 70 milhões), além de ceder o atacante Samuel Eto’o pelo atacante sueco.

No livro Eu Sou Zlatan, Ibrahimović conta que seu único problema na Catalunha foi com Pep Guardiola, a quem se refere como “filósofo”. Ele volta pra Itália, pro Milan, por € 24 milhões, onde joga por duas temporadas até ser contratado pelo PSG, no projeto Qatari do Sheik Nasser Al-Khelaïfi. Ao final de seu contrato com o o clube parisiense, Ibrahimović diz: “Eu vim como um herói e vou embora como uma lenda”, o sueco deixou o PSG como o maior artilheiro da história do clube e foi o Manchester United.

A parte que o filme não mostra, a partir de sua chegada à Juventus é a história que todos conhecem, pois onde passou deixou sua marca. Talvez o filme devesse ser intitulado Becoming Ibrahimović, pois a história que não se conhecia era de Zlatan até ele se tornar a lenda — como ele mesmo se autodenominou — que leva nas costas o sobrenome Ibrahimović.

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