Os olhos azuis de Manchester

Como Liam Gallagher se tornou o torcedor mais icônico do Manchester City

É comum que alguns artistas ingleses chamem a atenção para os seus clubes de coração. Estas histórias costumam ficar ainda mais interessantes quando o time é modesto, sem grandes aspirações.

Elton John sempre mostrou orgulho por seu Watford, que vaga pelas divisões mais altas da Liga Inglesa. Robert Plant, ex-Led Zeppelin, é vice-presidente honorário do Wolverhampton. Alguns fãs do Iron Maiden podem não entender muito de futebol, mas o baixista Steve Harris faz com que todos eles soubessem o significado de West Ham United.

São casos em que o fenômeno musical torna-se maior que o esportivo. Enquanto Wonderwall era tocada no mundo inteiro no final da década de 90, o Manchester City vivia uma dramática decadência que o levaria à terceira divisão pela primeira vez na história. Ironicamente, o som do momento era tocado por garotos de Manchester. Garotos que representavam a classe trabalhadora da cidade e agora atraíam os olhares de toda a Inglaterra.

Ora, isso já havia acontecido com os Stone Roses na década anterior — três de seus quatro integrantes são torcedores do Manchester United. Mas os Stone Roses acabaram em 1996. Era hora de mudanças no trono musical de Manchester, e a primeira delas seria a troca do vermelho pelo azul. Foi no mesmo ano de 1996 que o Oasis foi headliner de seu primeiro grande show a céu aberto. O local não poderia ter sido outro: eles lotaram o Maine Road, antiga casa do Manchester City.

No início dos anos 2000, os irmãos Liam e Noel Gallagher consagravam o Oasis como uma das maiores bandas britânicas de todos os tempos, enquanto o City traçava seu caminho de volta à primeira divisão para nunca mais sair de lá. Em 2008, o clube foi comprado pelo Sheikh Mansour bin Zayed, dos Emirados Árabes, e finalmente voltou a disputar títulos. Pena que a parceria não pôde durar mais tempo. No mesmo ano, a banda liderada pelos Gallaghers lançou seu último álbum: Dig Out Your Soul.

Pelos desgastes resultantes das freqüentes brigas entre os irmãos, o Oasis acabou extinto em 2009. Nos tempos de banda, Noel compunha os grandes hits, mas tocava sua guitarra pelos cantos do palco enquanto preocupava-se mais com melodias do que com o estrelato. Já Liam, sempre gostou de ser o frontman, usando roupas extravagantes e chamando a atenção para si. Depois do fim da banda, Liam Gallagher, juntamente com os outros componentes do Oasis, montou o Beady Eye — que já não existe mais —, enquanto Noel segue por uma bem sucedida carreira solo.

Agora que o City finalmente voltou a ver a cor dos troféus que estavam sumidos há tantos anos, é comum ver os irmãos em jogos do time nas transmissões. Após o título da Premier League em 2012 — que tirava o City de uma fila de 44 anos —, Liam Gallagher invadiu as salas do Etihad Stadium e fez uma pequena visita ao técnico italiano Roberto Mancini: “Quando eu estava em meu escritório após o jogo decisivo, Liam Gallagher, do Oasis, entrou. Ele é um grande fã do City e me deu um beijão na boca. Eu não tive tempo para reagir!”

Liam freqüentemente relembra seus tempos de torcedor de arquibancada. Um dos casos mais famosos aconteceu quando ele foi ao Santiago Bernabéu assistir a uma partida entre Real Madrid e Manchester City. O problema é que ele ficou com a torcida merengue, e é claro que isso não durou muito. Após comemorar efusivamente o gol de Edin Džeko, Liam se irritou com o empate do time da casa e acabou chamando a atenção da polícia espanhola, que o expulsou do estádio.

Ele também invadiu uma coletiva do City após uma vitória sobre o Manchester United: “O que querem saber, rapazes? Topo da tabela. Parabéns, City”, dizia com uma simpatia raramente vista. Isso antes de analisar os treinadores da partida: “Ferguson deve ter bebido whisky. Eu amo Mancini, ele é quase tão legal quanto eu!”

Em entrevista promocional num evento de lançamento da camisa do Manchester City (na época, confeccionada pela Umbro), o vocalista diz não ser fã de cantar durante os jogos, já que passa a maior parte do tempo xingando. Além da entrevista, o Beady Eye tocou uma versão de Blue Moon — canção que se tornou um hino dos Citizens —, seguida The Beat Goes On, que lançava o primeiro disco da banda: Different Gear, Still Speeding.

Sua melhor memória de uma partida do City é a de um massacre em Maine Road, quando eles venceram o United por 5 a 1, em 1989. Seu jogador favorito? “Mike Summerbee, sem dúvidas. Sem caneleiras, meias abaixadas, jogando sério. Ia pra cima.”

Liam, se Noel Gallagher fosse um jogador de futebol, você acaba de descrevê-lo.

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