O (quase) milagre de São Caetano

O efêmero sucesso de um clube do ABC Paulista.

Foi na fase mata-mata da Copa João Havelange — uma das versões mais bizarras que o campeonato brasileiro já teve — que o Brasil conheceu o São Caetano. Clube jovem e sem expressão, que foi fundado em 1989 e teria disputado a Série B de 2000, não fosse pelo novo regulamento. Com 116 times participantes, o torneio reuniu equipes das três primeiras divisões do futebol nacional e deu a chance para que diversos clubes pequenos provassem que poderiam brigar de igual para igual pela taça. Mas só o Azulão conseguiu lutar até o fim.

O modesto time do ABC Paulista conseguiu conquistas absurdas durante a competição. Nas oitavas, eliminou o Fluminense no Rio. Nas quartas, desbancou o Palmeiras em pleno Palestra Itália. E nas semifinais, venceu nada menos que o Grêmio do meteórico e promissor Ronaldinho, no Estádio Olímpico.

Tudo isso antes de cair para o Vasco de Juninho, Romário e Edmundo em uma das mais polêmicas finais do futebol brasileiro. O episódio aconteceu em São Januário, após um empate de 1-1 em São Paulo. A grade das arquibancadas do estádio carioca cederam e o jogo teve que ser paralisado para atendimento às 150 pessoas que ficaram feridas. Com uma nova data marcada para janeiro, uma vitória de 3-1 do time vascaíno acabou com o sonho da equipe paulista.

Mas nem precisavam do título. O feito foi o suficiente para que o São Caetano se tornasse o xodó dos paulistas. Principalmente do ABC, onde os moradores acostumam-se a viver à sombra da cidade de São Paulo e nunca tiveram um grande time de futebol que representasse a região. Era comum ver nas arquibancadas os torcedores preocupados com os resultados de seus clube de coração — que jogavam simultaneamente — mas, mesmo assim, marcavam presença no Estádio Anacleto Campanella para apoiar o Azulão.

O time teve os anos seguintes para mostrar que não foi um sucesso de uma só temporada. Liderou com folga a fase de pontos corridos de 2001, mas acabou perdendo as finais para o Atlético-PR. Já eram dois vices em dois anos seguidos.

Foram durante esses anos que brilhou a maior estrela do São Caetano. Os ambulantes ao redor do Anacleto só vendiam camisas com um número nas costas: 18. Essa era a marca de Adhemar, maior goleador da história do clube. Superou Romário na artilharia da João Havelange, enquanto seu poderoso chute de perna direita era o pesadelo dos goleiros. A potência era tanta que o jogador chegou a receber uma proposta salarial de um milhão de dólares para ser kicker na NFL — oferta recusada pela impossibilidade de levar sua família para os EUA.

O foco agora seria a Libertadores. A fase mata-mata de 2002 do Azulão foi sensacional. Eliminaram camisas pesadas como Universidad Católica, Peñarol e América do México. No jogo de ida da final, contra o Olímpia, uma vitória por 2 a 1. No jogo de volta, mais de 30 mil corintianos, palmeirenses, são paulinos e santistas abraçavam o São Caetano e lotavam o Pacaembu para a partida contra o Olímpia. Mas a síndrome do vice apareceu mais uma vez. Após perder por 2 a 1, mesmo resultado do primeiro jogo, vieram os pênaltis e, assim, perderam por 4 a 2 para o time paraguaio. De novo, amarguravam o sentimento de “quase lá”. O feito histórico era adiado mais uma vez.

O comandante do Azulão entre 2000 e 2002 era Jair Picerni. Responsável pelos anos de ouro do clube, ele contou em recente entrevista ao UOL que o São Caetano sempre fora estruturado para as grandes conquistas: “Eu peguei o São Caetano em uma situação completamente diferente, um time com poucos anos no futebol profissional, mas que funciona como uma empresa-futebol. O clube era muito bem administrado, estruturado. O projeto foi muito bem feito para ganhar títulos. Nós não podíamos falar para vocês (imprensa) na época, porque vocês falariam que estávamos nos gabando, mas o São Caetano sempre teve o projeto para brigar por títulos importantes.”

Após um 2003 apagado, o ano de 2004 seria o de glória e início da decadência do clube. Comandados por Muricy Ramalho, o time finalmente conseguiu seu primeiro título expressivo ao conquistar o Campeonato Paulista. Meteram 4 a 0 no Santos de Robinho pela semifinal e foram campeões contra o Paulista de Jundiaí.

A passagem de Muricy pelo São Caetano foi importantíssima para a afirmação do clube no cenário nacional. Naquele Paulistão, o treinador classificou o time com cinco pontos de vantagem em relação a qualquer outro rival, mostrando desde cedo sua consagrada força nos pontos corridos. Não apenas superou os quatro rivais paulistas como também revelou diversos jogadores. Entre eles, Mineiro, que viria a marcar o gol do título mundial do São Paulo sobre o Liverpool, um ano mais tarde.

Mas em outubro daquele ano, o pesadelo começava. Numa partida contra o São Paulo no Morumbi, o zagueiro Serginho teve um ataque cardíaco e veio a falecer no hospital minutos depois. Como se não bastasse o abalo emocional de todo o elenco, o clube ainda perdeu 24 pontos como forma de punição. Por mais que tenham enfrentado diversos processos na época, ninguém pagou judicialmente pela morte de Serginho. Tanto Paulo Forte (médico) como Nairo Ferreira de Souza (presidente) ainda exercem suas funções no clube.

 

Mesmo com a punição, o time ainda conseguiu sobreviver na Série A daquele campeonato. Mas após o fim do torneio, mais uma notícia que balançaria as estruturas do clube: a morte do prefeito Luiz Olinto Tortorello.

A família Tortorello — tradicional na política da cidade — liderou a fundação do clube em 1989. Os anos em que Luiz Tortorello assumiu a prefeitura (1997-2004) deram ao São Caetano as condições que lhe proporcionaram voos tão altos durante estes anos, mesmo que nunca houvesse um apoio financeiro oficial vindo do governo municipal. O clube sempre foi um xodó do ex-prefeito e a queda após sua morte não foi coincidência.

O rebaixamento para a Série B veio em 2006, onde o time ainda conseguiu manter-se até cair para a Série C, em 2013, e para a Série D, em 2014. Hoje, espera que um novo milagre os leve de volta aos anos de glória, que não contaram com grande títulos, mas tiveram emoção e bom futebol para dar orgulho à cidade que representam.

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