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Como Claudio Ranieri conseguiu o impossível?

Por Fernando Martinho

A

inquietante conquista do Leicester City fez especialistas arrancarem os cabelos tentando explicar o inexplicável. A campanha dos Foxes foi muito mais do que surpreendente. Quebrou as casas de apostas, que pagavam £ 5 mil por cada £ 1 apostada no início da competição. As perdas somam mais de £ 10 milhões.

Desde que a Premier League foi implantada — na temporada 1992/93 — o Blackburn Rovers tinha sido o único ‘não-grande’ a conquistar o título, em 1995. Eles investiram £ 3,4 milhões por Alan Shearer, configurando uma transferência recorde do futebol inglês naquela temporada. Como comparação, o Manchester United pagou £ 1,3 milhão por ninguém menos que Eric Cantona no mesmo ano. Na temporada seguinte (1993/94), os Rovers pagaram £ 2,9 milhões pelo goleiro Tim Flowers, £ 2,8 milhões pelo meio-campista David Batty e mais £ 2,8 milhões pelo defensor Warhurst. Já em 1994/95, foi a vez da chegada de Chris Sutton para fazer dupla de ataque com Alan Shearer, por £ 5,6 milhões. Foi quando o clube comandado por Kenny Dalglish conquistou o campeonato.

Essas cifras representavam o início do despejo de dinheiro oriundo dos novos contratos de TV da recém fundada Premier League, e por isso o título conquistado por Claudio Ranieri da temporada 2015/16 é ainda mais espetacular e incrível.

Somente sete técnicos conquistaram a Premier League. Alex Ferguson quase monopolizou a competição enquanto a disputou — foram 13 títulos no comando do Manchester United. Ao mesmo tempo que o clube se consolidava esportivamente, as finanças davam um salto que permitia investimentos como a contratação de Andy Cole na temporada 1995/96, por £ 7,2 milhões. Os clubes que melhor desempenho apresentavam na nova liga conseguiam subir de patamar ano após ano, pois as distribuições de recursos financeiros privilegia os melhores colocados, em vez de sua popularidade.

Clubes tradicionais — mas que fracassaram na primeira década da Premier League, como Leeds, Nottingham Forest e até o Manchester City — não conseguiram permanecer na divisão de elite do futebol inglês, culminando inclusive em quedas para o terceiro escalão do futebol britânico.

Títulos de Ranieri:

Cagliari: Serie C1 e a Coppa Italia C 1988/89;
Fiorentina: Serie B 1993/94 e Coppa Italia 1995/96;
Valencia: Copa del Rey 1998/99;
Monaco: Ligue.2 2012/13.

José Mourinho e Arsène Wenger conquistaram três títulos cada um. Ambos dispunham de um exército multimilionário quando conquistaram os campeonatos. Mourinho fez o improvável antes de assumir o Chelsea, conquistando a Champions League em 2004 com o modesto FC Porto. No Chelsea, seus resultados podem ser considerados regulares.

O francês que comanda o Arsenal já pode ser questionado, afinal, três títulos da liga inglesa com um clube que dispõe de um dos maiores orçamentos do Reino Unido é bem pouco. O dobro dos títulos seria um número, no mínimo, mais aceitável.

Após a injeção de capital árabe no Manchester City, o clube pode rivalizar de igual pra igual com seus vizinhos. Mas ainda assim, Roberto Mancini e Manuel Pellegrini, talvez possam ser comparados a Arsène Wenger. Embora tenham conquistado um título da Premier League cada um, seus rendimentos são abaixo do esperado. É muito pouco para o clube que possui a maior folha salarial da Inglaterra, como dispõem os Citizens.

O dinheiro investido pode colocar os clubes na rota de vitórias, mas também demonstra que vencer um título ou mais pode ser pouco. No entanto, se a lógica for invertida, esquecendo os títulos conquistados e olhando para os desempenhos, nomes como Roberto Martínez e Mauricio Pocchettino surgem como subversores do jogo. Com muito menos recursos, conseguiram colocar Wigan e Southampton, respectivamente, em lugares impensáveis.

Mas a temporada 2015/16 coloca por terra todas as regras econômicas estabelecidas. Nenhum subversor seria capaz de conquistar o título da Premier League num clube que escapou do rebaixamento e praticamente sem nenhum grande investimento. E foi exatamente o que Ranieri conseguiu. Com uma campanha irreparável, sem lançar mão de qualquer anti-jogo, doping ou suborno a árbitros.

Mas peraí. Claudio Ranieri não era o pior técnico a conquistar a Premier League? Sim, ele é.

É preciso olhar para as carreiras e currículos dos técnicos que já conquistaram a Premier League para notar a inferioridade de Claudio Ranieri. Quando esteve no Chelsea, e dispunha de um elenco vasto, já com os primeiros investimentos de Abramovich, ele conseguiu chegar em segundo lugar na Premier League e nas semifinais da Champions League, na temporada 2003/04 — aquela mesma que José Mourinho conquistou o título com o Porto — e acabou sendo demitido para dar lugar ao treinador português. Essa foi a temporada de maior êxito de Ranieri em alto nível.

Claudio Ranieri

Ranieri conquistou a Serie C1 e a Coppa Italia C com o Cagliari na temporada 1988/89. Mais tarde, com a Fiorentina, triunfou com o acesso à Serie A, após título da Serie B em 1993/94. Com a Viola, venceu a Coppa Italia de 1995/96. No Valencia, obteve o título da Copa del Rey de 1998/99. Com o Monaco, conquistou a segunda divisão francesa, na temporada 2012/13. Com essas sendo as glórias máximas na carreira do italiano, é difícil compará-lo com outro técnico a ter vencido a Premier League.

Alex Ferguson

Os 13 títulos da Premier League de Alex Ferguson falam por si e são precedidos de um título da segunda divisão escocesa com o St. Mirren, em 1976/77, três títulos escoceses com o Aberdeen (1979/80, 1983/84 e 1984/85), quatro Copas da Escócia (1981/82, 1982/83, 1983/84 e 1985/86), além de uma Copa da Liga Escocesa em 1985/86 e da Recopa da UEFA na mesma temporada — que o levaram a ser contratado pelo Manchester United.

Kenny Dalglish

Dalglish venceu o título de 1994/95, pois dispôs de muito investimento em transferências como visto, mas antes, ele foi campeão inglês por três vezes com o Liverpool (1985/86, 1987/88 e 1988/89) e conquistou também duas Copas da Inglaterra (1985/86 e 1988/89).

Arsène Wenger

O francês chegou ao Arsenal em 1996 e, antes disso, havia conquistado o campeonato francês de 1987/88 e também a Copa da França em 1990/91 com o Monaco. No Nagoya Grampus venceu a Copa do Imperador em 1995, nos tempos em que a J-League atraía jogadores e técnicos de renome.

José Mourinho

O lusitano chegou ao Chelsea em 2004 após conquistar um improvável título com o Porto. Além da Champions League, o português também ganhou a Liga Portuguesa em 2003/04 e, na temporada 2002/03, conquistou a Copa da UEFA, o campeonato português e a Copa de Portugal.

Roberto Mancini

O italiano foi contratado pelo Manchester City em 2009. Mas além de conquistar uma Coppa Italia com a Fiorentina (2000/01), ganhou outras três, sendo uma com a Lazio em 2003/04 e as outras duas com a Internazionale (2004/05 e 2005/06). E foi com a Inter que enfileirou três Scudetti entre 2006 e 2008 — o primeiro dos títulos foi conquistado fora de campo após o escândalo Calciopoli, que a Juventus tinha vencido.

Manuel Pellegrini

O chileno saiu da América do Sul tendo conquistado títulos com a Universidad de Chile (Copa do Chile), LDU (campeonato equatoriano), San Lorenzo (campeonato argentino e Copa Mercosul) e River Plate (campeonato argentino). No Villarreal, conseguiu chegar às semifinais da Champions League em 2006 e, no Málaga, às quartas-de-final em 2013.

Em síntese, os treinadores que já conquistaram o campeonato inglês na Era Premier League detinham um currículo — no mínimo — mais vencedor que o de Claudio Ranieri e também dispunham de elencos e orçamentos muito mais caros.

Então, como conseguiu?

O feito de Claudio Ranieri remete à Brian Clough, que conseguiu — várias vezes — subverter o jogo, apostando em jogadores em baixa, que posteriormente vendia quando estavam em alta. Embora tenha fracassado no Leeds United — todo poderoso da década de 60 e 70 —, o que Clough realizou antes com o modesto Derby County e posteriormente com o inexpressivo Nottingham Forest foi sem nenhum precedente. Mas tudo isso antes da Premier League, quando o dinheiro não pesava tanto e as regras pra se contratar jogadores estrangeiros eram muito mais rígidas.

Números do Leicester de Ranieri:

— Apenas três jogos sem marcar gols (2E 1D);
— Em 13 oportunidades, marcou apenas um gol (7V 5E 1D);
— Ganhou 13 dos 22 jogos pela diferença mínima;
— 30% dos gols foram de bolas cruzadas pelo alto.

Contudo, mesmo reconhecendo o magnífico êxito de Claudio Ranieri, em um mercado ultra-competitivo e totalmente globalizado, fica uma dúvida cruel com relação ao futuro. Foram 38 rodadas, diferentemente de títulos em competições de mata-mata. O que aconteceu foi realmente incrível, digno de aplausos infinitos por desafiar a lógica como nunca antes. Nem a Grécia de 2004 ou mesmo o Porto de José Mourinho conseguiram tamanha proeza. O Verona de 1985 foi fantástico, mas já vinha jogando em alto nível nas temporadas anteriores.

No entanto, o Leicester não aplicava um tipo de jogo ou uma jogada específica — apesar de um terço dos gols marcados terem sido de bolas aéreas —, nem de jogadores brilhantes — Vardy é só um bom atacante e Mahrez, eleito melhor jogador da competição, não é nenhum Messi. N’Golo Kanté parece ser o grande jogador desse elenco, capaz de jogar em qualquer grande clube europeu. Mas isso intriga ainda mais. Afinal qual é o segredo?

O segredo remete a Luís Aragonés e sua célebre frase: “Ganhar, ganhar, ganhar, ganhar e ganhar.” Não se explica o que aconteceu. Foi uma temporada muito bizarra. O Chelsea — detentor do título — começou brigando nas últimas posições; o ‘novo-grande’ Manchester City oscilava, mas conseguia se manter no G4; o Manchester United manteve a regularidade sendo irregular como na temporada anterior. E o Tottenham, de Mauricio Pocchettino, surpreendentemente, se firmou em segundo lugar, fazendo uma campanha excelente.

Mesmo assim, como pôde vencer tantos jogos um time sem nenhum grande craque, sem um grande técnico, sem investimentos consideráveis, sem um estilo revolucionário ou inovador, com a menor posse de bola do campeonato?

Talvez a resposta esteja nesta enorme pergunta. Por não ter um grande craque, por não ter um grande técnico, por não ter investimentos maciços, por revolucionar e inovar, dando a posse de bola para o adversário e, assim, com aquilo que tinha à disposição, ganhou tantos jogos, fazendo tantos gols de cabeça ou no contra-ataque.

Mas ainda fica uma última indagação: qual é o legado? Será o discurso da humildade? De auto-conhecimento ou de ousar e acreditar?

 

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