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A fábula do cimento

Por Tauan Ambrosio

O

futebol é terreno para gols, gritos, táticas e estratégias. Mas é também uma gigantesca terra fértil para verdadeiros contos de fadas e poucas histórias se assemelham tanto a esse tipo de narrativa quanto a do Loma Negra. O pequeno time da cidade interiorana de Olavarría, na Província de Buenos Aires, na Argentina, ganhou as manchetes esportivas em todo o mundo quando, em 1982, acabou com a incrível invencibilidade de 18 jogos da então temida seleção soviética.

E da mesma maneira como é comum nas fábulas infantis, o humilde protagonista contou com grande ajuda de uma fada madrinha. No caso do Loma Negra, os episódios mais inesquecíveis vieram graças ao investimento financeiro de Amalia Lacroze de Fortabat. Conhecida como ‘Amalita’, ela foi uma das personalidades mais fortes, influentes e carismáticas de seu país. Chegou a ser a mulher mais rica da Argentina, segundo apontado pela revista Forbes, e revolucionou a cidadezinha ao interior da província de Buenos Aires.

Fundado em 1929, o Club Social y Deportivo Loma Negra tinha como principal objetivo dar uma opção de lazer aos operários da famosa fábrica de cimentos, o coração da cidade. Fora dela, o clube era um nome conhecido somente por causa do empreendimento de Alfredo Fortabat, com quem Amalia se casou depois de assinar um dos primeiros divórcios oficializados pelo governo argentino. Fluente em vários idiomas e dona de um carisma único, ela passou a acompanhar o marido em suas viagens de negócios e reuniões empresariais.

Amalita ao lado do marido Alfredo Fortabat

Após a morte de Alfredo, em 1976, o peso daquele império milionário caiu no seu colo. Negando-se a viver apenas a gastar quantias aparentemente sem fim em obras de arte, sua grande paixão, ela se debruçou sobre o trabalho e triplicou toda aquela fortuna. A partir de então, Amalita ganhava uma nova alcunha: a Dama do Cimento.

A construção da história: de abóbora à carruagem

Loma Negra já era um nome de sucesso entre as empresas argentinas pois nas décadas de 50 e 60 havia dominado com folgas o seu setor, mas Amalia queria mais. A história sobre o seu interesse no futebol não tem uma origem muito bem definida. Um sobrinho a teria encorajado a investir no modesto time? Estava ela em busca de maior espaço político? Se animou na aventura esportiva após conversas com diretores da empresa ou simplesmente, como afirmaria em entrevistas futuras, via no futebol uma arte como as que colecionava e promovia em esculturas e pinturas?

Poucos anos antes, Amalita testemunhara como a conquista da Copa do Mundo de 1978 teve um impacto para aliviar os corações pesados em meio à sangrenta ditadura de Jorge Rafael Videla. Naquele cenário de terror, esportivamente a Argentina se orgulhava pelo primeiro título mundial conquistado. A grande maioria dos estádios foi construído com cimentos de sua empresa, e embora a Dama do Cimento jamais tivesse sido acusada de ligação direta com a ditadura, é fato que lucrou bastante no período.

Amalita, no vestiário, com os jogadores do Loma Negra

A partir de 1981, o Loma Negra começou a seduzir os maiores jogadores do país com salários que gigantes como Boca Juniors e River Plate nem sonhavam em pagar. Depois de ter conseguido o feito de bater o Estudiantes de Olavarría, o time da fábrica garantiu presença no Torneo Regional. Era o último passo antes de conseguir uma vaga histórica na primeira divisão e estar na elite do futebol passou a ser uma obsessão de Amalita.

Jogadores famosos da época chegaram para a disputa do certame classificatório. Vieram Carlos Squeo (Racing de Avellaneda), Mario Husillos (Boca Juniors), Carlos Carrió (Gimnasia La Plata), Luis Barbieri (Atlanta), Osvaldo Mazo (Colón), Jorge Vázquez (Atlanta), Ricardo Lazbal (River Plate) e Osvaldo Gutiérrez (Vélez). A ideia de Dream Team tomava conta da antes modesta equipe, que tentou até mesmo as contratações de um jovem Diego Maradona e do goleiro Ubaldo Fillol. Valentín Suárez, que no passado havia sido presidente da própria AFA, era o cérebro por trás das transações.

Durante pouco tempo, o clube de Olavarría fez frente aos gigantes argentinos

Amalia só pedia uma coisa de seus jogadores: que ganhassem. E foi o que eles fizeram. A vaga na primeira divisão foi garantida e o nome Loma Negra também passava a ser sinônimo de futebol por toda a Argentina. O estádio acanhado passou por algumas reformas, mas ainda era muito pequeno para as proporções que a equipe de futebol tomou e ambicionava. Olavarría transpirava orgulho, com a sua identidade expandindo para os grandes centros, principalmente depois que o time estelar, reunido em tão pouco tempo, conseguiu terminar o Campeonato Argentino na terceira colocação de seu grupo – atrás apenas de River Plate e Ferro Carril, que seguiram em frente para decidirem o título.

7 a 1, Malvinas e a máxima glória

Os torcedores de Olavarría até mesmo estranhavam todo aquele glamour repentino, com astros antes vistos apenas nas capas de revistas esportivas chegando em carros de luxo para a época. Isso para não falar das aterrissagens via helicóptero de Amalita e de outros dirigentes, em dias de treinos ou jogos. No meio do futebol, a Dama do Cimento sentia-se popular dentre os populares — embora não escondesse o descontentamento ao ser o grande alvo dos xingamentos dos torcedores adversários em algumas partidas.

Em 1982, de forma incrível ante todo o investimento feito, o Loma Negra não conseguiu repetir presença na primeira divisão. Durante amistoso de pré-temporada realizado em Mar Del Plata, os jogadores da ‘tia’ Amalia perderam por 7 a 1 para a seleção argentina. A Dama do Cimento não gostou, ainda mais com ânimos nacionais aflorados à época, graças ao início da Guerra das Malvinas pela Dama britânica, a de Ferro: Margaret Thatcher.

Frustrada pela goleada sofrida, a fada madrinha que transformara o futebol do Loma Negra resolveu fazer mais uma grande extravagância. A temida seleção soviética, que vinha em grande forma, fazia excursão pela Argentina enquanto se preparava visando à Copa do Mundo na Espanha e então Amalita pagou os 30 mil dólares de cachê, agendando o pouco usual confronto.

No início da tarde daquele dia 17 de abril, o Estádio Ignácio Zubiria, pertencente ao Racing de Olavarría, estava abarrotado de gente. Mesmo assim, a arrecadação não devolveu metade do dinheiro investido. Mas não era isso o que importava para a Dama do Cimento. O time da União Soviética vinha de empate por 1 a 1 com a Argentina, alcançando a marca de  18 compromissos sem derrotas, divididos em 13 vitórias e 5 empates, com um total de 43 gols marcados e apenas 10 sofridos.

A camisa que fez história

Em meio aos tradicionais papéis picados, ao som dos tambores e com muitas bandeiras argentinas, o Loma Negra encarava aquela partida, contra uma seleção soviética recheada de jogadores reservas, como uma final de Copa do Mundo, imprimindo um ritmo forte e tão intenso que, no intervalo, um dirigente europeu entrou no vestiário dos mandantes para lembrar que aquilo era apenas um amistoso. Não para o Loma Negra.

Não adiantou os soviéticos fazerem alterações para o segundo tempo, inclusive com a entrada do mítico atacante Oleg Blokhin. O lance que terminou no único gol da partida foi um retrato do jogo que vinha fazendo o Loma Negra. Após a bola ser lançada à área, os jogadores argentinos brigavam pelo rebote e dentre as várias pernas que buscavam arrematá-la, foi a de Armando Husillos — ex-Boca Juniors e que estava no Real Madrid Castilla antes de ser contratado por Amalita — que deu o golpe fatal à invencibilidade soviética. As imagens da comemoração são épicas: os companheiros de time se abraçando em meio à festa dos papéis e se pendurando nas traves. Nas tribunas, Amalita via a sua mágica dar certo e não escondia a felicidade.

Todo carnaval tem seu fim

Loma Negra: um dos maiores contos de fadas do futebol

Terminado o encontro, a festa foi do tamanho do feito do Loma Negra. Pela primeira vez, o nome do clube estampava páginas de jornais pelo mundo. Poucos podiam acreditar que um time pequeno havia batido a famosa União Soviética. Foi o ápice naquela construção de cimento. No ano seguinte o clube voltou a se reforçar e conseguiu entrar na disputa do Campeonato Argentino de 1983, chegando ainda mais longe em relação à campanha anterior: avançou até as oitavas de final para cair somente para o Racing de Avellaneda.

O dia 18 de maio daquele ano, que sacramentou a eliminação, foi também quando o relógio bateu o ponteiro da meia noite. Tão rápido quanto o dinheiro veio, ele se foi. Por causa de uma crise econômica, o mecenato de Amalita chegava ao fim. Sem a fada madrinha, que seguiu desempenhando papel importante na esfera política do país até a sua morte em 2012, o Loma Negra voltou à realidade de sempre, sem jamais se esquecer do seu momento mais mágico.

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About The Author

Tauan Ambrosio

Jornalista formado na FACHA, acredita que o futebol, além de ser o melhor dos esportes, é palco para grandes lições sociológicas, históricas... e de vida. Árduo defensor de que 3 a 0 jamais será goleada, foi um goleiro promissor e hoje brinca de ser zagueiro esforçado.

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