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Antes do 14, sempre vem o 13

Por Clayton Cardoso

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elé, o Rei do futebol, precisou de Coutinho para execução de suas famosas tabelinhas no Santos. Na Seleção teve Didi e Garrincha primeiro, e depois Rivelino, Tostão e Jairzinho. Outros fora de série como Maradona ou Messi tiveram Careca, Caniggia, Burruchaga, Xavi e Iniesta — mais tarde Suárez e Neymar — ao lado para trilhar suas carreiras em um nível além da média e proporção do grande jogador. Mas apesar dessas grandes duplas — e trios —, talvez a maior simbiose da história do futebol tenha vindo da Holanda.

Johan Cruijff, vestindo a camisa 14, conseguiu ser o epicentro da maior revolução tática dentro de campo e fora dele já vistos. Foi o principal jogador do Carrossel Holandês e anos mais tarde, se nutriu deste mesmo legado, que derivou no Dream Team do FC Barcelona, campeão europeu em 1992. Talvez, somente Alfredo Di Stéfano tenha feito tanto dentro de campo e, ao lado dele, como treinador. Mas como jogador, embora ele tenha sido o grande responsável por ascender o Real Madrid a campeão europeu pela primeira vez, logo depois chegou ninguém menos que Ferenc Puskás.

Comandado pelo genial Rinus Michels, Johan Cruijff consolidaram as bases que ajudaram a moldar o futebol que viria adiante, com um esquema que unia o mais lúdico jogo, com a aplicação montada no preparo físico e obediência tática. Se Michels era o cérebro do Futebol Total, Johan Primeiro — como era chamado Cruijff — era o coração.

Entretanto, a engrenagem só funcionou plenamente graças à aplicação e garra de Johan Segundo, — como era chamado Neeskens —, o pulmão desse time. Rinus Michels sabendo e observando há tempos o talento do rapaz mandou o Ajax buscá-lo no Heemstede, em 1969, onde Neeskens apareceu como um lateral direito de grande capacidade física e boa técnica, tanto para o desarme quanto para o passe.

Neeskens dá voleio na final da Copa do Mundo de 1974 contra a anfitriã Alemanha. Ao chão, Franz Beckenbauer. Rep e Breitner olham (Foto: Bert Verhoeff/Anefo)

Se Cruijff era a inspiração e epifania que flutuava em um campo de futebol, Neeskens, que carregava o número 13 nas costas, era a transpiração materializada no mais profundo fôlego e entrega em uma partida. Se Cruijff estava destinado a brilhar intensamente como o sol em um dia lindo de verão, Neeskens estava fadado ao frio intenso do inverno, ou seja, ambos tinham sua importância, mas Johan Primeiro seria o astro a reluzir para posteridade da história do futebol.

Mesmo sabendo de sua posição de “coadjuvante” Neeskens foi o mais importante de todos os escudeiros da história do futebol. Sua chegada ao Ajax coincidiu com a era mais vitoriosa do clube. Na primeira conquista do time de Amsterdã da Copa dos Campeões em 1971 contra o Panathinaikos, o aplicado jogador atuou na lateral. Já na temporada seguinte Michels o escalou no meio campo, aproveitando toda a versatilidade; mesmo como zagueiro central ele chegou a atuar com eficiência.

No Ajax ele teve seu período mais glorioso em conquistas, foi bicampeão holandês, da Copa da Holanda, tricampeão europeu e campeão intercontinental em 1972 — inclusive marcou um gol na disputa contra o Independiente. Neeskens era o carregador de piano ideal. Tinha extrema dedicação em campo, dava tudo de si para o time jogar tranquilamente. Sacrificava-se ao máximo para a grande estrela, Cruijff, brilhar. Com a bola nos pés, tinha leveza e alta qualidade técnica. Também fazia gols em partidas decisivas. O mais famoso deles na final da Copa do Mundo de 1974 contra a anfitriã Alemanha Ocidental em Munique. Mesmo com a derrota por 2 a 1, Neeskens ajudou a Holanda se imortalizar como uma das maiores equipes de futebol em todos os tempos.

Cruijff e Neeskens se reencontraram no Barcelona, onde foram comandados por Rinus Michels.

O polivalente e incansável jogador se projetou e valorizou seu passe no cenário internacional. Após a disputa do Mundial, Neeskens foi contratado pelo Barcelona. No time Catalão ele reencontrou Cruijff e o técnico Rinus Michels. Apesar dos resultados não terem sido relevantes em números de conquistas, os dois Johans ajudaram a construir toda a base do jogo aplicado no time a partir dali. Pelo Barça, Neeskens jogou 232 partidas, marcando 57 gols, entre 1974 e 1979; conquistando a Copa do Rei em 1978 e a Recopa Europeia em 1979 ganha frente ao alemão Fortuna Düsseldorf com uma atuação apoteótica de Neeskens. Mas apesar da conquista continental e da adoração da torcida barcelonista por conta da sua dedicação e entrega, conflitos com a direção encerraram seu contrato; numa decisão polêmica que revoltou a torcida, resolveu ganhar dinheiro no New York Cosmos, onde foi campeão norte-americano em 1980.

Cruijff saiu do Barcelona no ano de 1978, após a conquista da Copa do Rei; se negou a disputar a Copa do Mundo da Argentina — seja por posições políticas ou exigências comerciais. Mesmo sem Cruijff para auxiliar, Neeskens capitaneou e ajudou a Seleção Laranja a alcançar sua segunda final de Mundial que mais uma vez terminou com derrota, desta vez 3 a 1 para os anfitriões. A dupla não voltou a se reencontrar nos campos, mas se Johan Primeiro, o Cruijff, é celebrado e adorado como um dos mais geniais jogadores de futebol em todos os tempos, deve-se muito ao suor deixado nos campos por Neeskens, o outro Johan.

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