Uma viagem no tempo e nas memórias do Zé, o Trajano

Por Fernando Martinho

U

m dos fundadores da ESPN Brasil concedeu entrevista em São Paulo para a edição #1 da Corner. A conversa passou pelo jornalismo esportivo brasileiro, novas arenas, CBF, Olimpíadas e política. Muita política. Mas apesar de toda a incandescência dos temas, houve tempo para falar até mesmo sobre literatura.

Depois de comentar algumas publicações recentes do mercado editorial brasileiro, José Trajano revelou detalhes exclusivos de seu novo livro, que será lançado em junho deste ano. No romance Tijucamerica, o jornalista propõe um verdadeiro resgate (ou seria ressurreição?) do que era o América nos tempos em que o clube também dava as cartas no futebol carioca.

Fale um pouco sobre seu novo livro.

Eu estou muito animado com o lançamento. É uma coisa legal que eu combinei com o pessoal da Companhia das Letras. Aquela abordagem que vocês gostam, de tratar o futebol sob outro ângulo. Aliás, eu nunca quis fazer livro nenhum na minha vida. Eu achava que não tinha competência. Muita gente lança livro de merda, principalmente jornalista esportivo.

No meu primeiro livro, chamado Procurando Mônica, escrevi coisas mais ou menos autobiográficas. Foi uma paixão juvenil por uma moça que eu conheci em Rio das Flores. Meu avô tinha uma fazenda e a família dela também. O pano de fundo era Rio das Flores. Eu vou pra Europa buscá-la de navio, sou preso, condenado; aí conta um tempo em que eu morei com o Sócrates – foram anos depois, mas peguei o gancho; um pouco da minha vida jornalística e meu reencontro com ela, 40 anos depois. O livro termina, eu me correspondendo com ela; eu acabo de escrever o livro; eu não acabo, mando pra ela… Porque o pessoal fala: “Manda pra ela o livro, pô”. A partir daí, a história passa a ser quase um diário. Acontece um encontro final que é uma merda, mas eu deixo no ar.

Neste segundo livro, eu queria contar a história do América e da Tijuca, que é meu bairro. Eu não queria criar uma história do tipo “foi fundado em 1904…” Pô, isso não interessa a ninguém, nem a mim. Eu tenho que fazer uma história! A história que eu fiz começa assim, passando ali em frente à sede do América, que estava abandonada – hoje está fechada, lacrada pelo Corpo de Bombeiros –, imaginei: “O que eu posso fazer para salvar o América?” Estádio lá na baixada fluminense, essa merda fechada aqui… Aí invento uma história maluca, que tem um realismo fantástico. Eu convoco um bando de pais-de-santo, parapsicólogos, macumbeiros, tudo que você imaginar. Coloco todos na Ilha do Sol da Luz del Fuego, como se ela estivesse viva. Era uma ilha de nudismo, no caminho para Paquetá. Eu faço um pedido. O primeiro de uma série de pedidos.

Você é religioso?

Não, não. Mas dá pra ressuscitar todos os grandes craques do América de todos os tempos? Cheguei à conclusão que dava. E os que ainda estão vivos, dava para fazê-los voltar no auge da forma? Tipo Eduzinho, meu ídolo, irmão do Zico. Os novos, então, foram recolhidos e voltaram no auge da forma. Os mortos ressuscitaram: Alarcón, Ferreira, Canário, todo mundo.

Acontece um campeonato com uma enorme pressão mundial: o Papa, a FIFA… Ninguém quer um campeonato com mortos-vivos. Mas aí a gente vai driblando todas as coisas e o América vira campeão carioca com esse time morto-vivo. Você imagina todas as adversidades possíveis de um time desses. Os jogadores não podiam responder por ninguém. Eles falavam só entre eles e com o técnico. Ressuscita também o técnico, preparador físico. No final, todos os torcedores do América de todos os tempos e todos os tijucanos ressuscitam também e vão prestigiar o jogo. Não cabe a torcida do América dentro do Maracanã. A maioria fica do lado de fora e o América passa a ter a maior torcida do Rio naquele dia. O campo volta a ser em Campos Salles também, outro pedido que eu faço. Não é mais na baixada fluminense. O campo era ali.

E como se refaz esse campo agora?

Aí é que está o segredo do final do livro. É o seguinte: do mesmo jeito que reencarna e ressuscita os caras, o campo também volta a ser em Campos Salles, que era o campo da minha infância. Quando o América é campeão, há um show em Campos Salles. Todo mundo sai do estádio e é o maior show da história do Brasil. Porque todos os grandes torcedores do América, compositores, cantores se apresentam: Mário Reis, Vicente Celestino, Carlos Galhardo, Tim Maia, Francisco Alves, todo mundo cantando ali.

Quando o Tim Maia se apresenta, o Roberto Carlos, o Jorge Ben e o Erasmo vão prestigiar, porque era a turma do Matoso. Incluí as letras no livro. Aí começa o filme do Tim Maia. O Villa-Lobos era América. Se apresenta com orquestra sinfônica no Municipal. E vão acontecendo loucuras, desde o Telecatch, Carequinha, Silk o faquir. E o que acontece com o campo? Na hora de ir embora – o pessoal tem que ir embora porque tem um tempo de validade. Está tudo morto, todos têm que voltar pros seus cemitérios, cada um numa cidade. Tem um texto de um grande amigo meu, Luiz Antônio Simas, que é um historiador. Ele fala de um cemitério na Tijuca. Me baseei nesse texto.

Então, eu transformo o Campos Salles num cemitério, porque não ia ter mais validade nenhuma e os caras iam tudo embora, pô. Mais ou menos o Incidente em Antares, do Érico Veríssimo. Todo mundo é enterrado em Campos Salles e Campos Salles passa a ser um cemitério visitado. E dá orgulho ao tijucano, porque ali estão enterrados os campeões recentes. Então eu conto a história da Tijuca, do América e muito de Noel Rosa – porque o América teve um campo na Teodoro da Silva, onde nasceu Noel. Há uma grande explanação, para quem torcia Noel, e as músicas que ele fez sobre futebol.

E qual desses craques você não viu jogar?

O pessoal do Tico-Tico no fubá. Maneco e tal, que foi uma coisa muito famosa que o América teve na década de 40.

Mas o exercício era reviver a sua memória…

É, mas tem o seguinte: os pais-de-santo, esse pessoal todo, dizem: “A verdade é que o tijucano vive um dilema desgraçado. Considerado semi-ipanemense pelos suburbanos e meio-suburbano pelos ipanemenses, o tijucano vive momentos difíceis de um bairro impreciso. ‘Tu mora aonde?’ Tijuca. O autor dessa resposta (aí tem aquela confusão do que é Tijuca) pode morar no Largo da Segunda-feira, no Maracanã, no Andaraí, em Vila Isabel, em Aldeia Campista. Entre o Estácio e o Grajaú, digamos, tudo é Tijuca”. Aí ele vai explicando o que é o bairro.

Não é um texto grande. Ele fala o que é ser tijucano. E no final, muito engraçado, ele fala: O tijucano padrão é feito aquele amigo meu que pirou em plena praça Saenz Peña (que nos anos 50, essa praça era a Cinelândia da zona norte, eu descrevo bem essa época). Tirou a roupa, subiu numa árvore e começou a gritar: “A Tijuca é uma merda. Tô farto disso aqui. Num güento mais a Tijuca. É uma merda. Uma verdadeira merda.” Quando a ambulância chegou e meu amigo leu o que estava escrito nela, o escarcéu aumentou. Do alto da árvore, nu, mas em pose de senador, bradava: “Para o Pinel, jamais! Nós, os tijucanos, temos o nosso próprio sanatório. Me interna aqui! A Tijuca é uma merda mas eu não saio daqui.”

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