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Marcell Jansen não quis defender um clube que não amava

Por Wladimir de Castro Rodrigues Dias

Aposentadoria é um dos temas mais delicados do mundo do esporte. Pelas mais diversas razões, dentre as quais lesões e o avançar da idade são as principais, não existe momento determinado, não há regra que delimite o tempo certo. A notícia da vontade de Tévez, ainda jogando o fino da bola, querer se aposentar aos 32 anos arqueou sobrancelhas mundo afora. Por outro lado, quando trajetórias vão se prolongando indefinidamente para além dos 40 anos, como no caso de Rogério Ceni, nota-se exagero. Vem da Alemanha, no entanto, uma das histórias mais peculiares sobre o tema. O protagonista não convivia com lesões graves ou era velho, não era, tampouco, futebolista de baixa qualidade, apenas não se via vestindo outra camisa.

Eram os idos de 2015, mais precisamente o período de férias dos atletas europeus, ao final da temporada 2014/15. Marcell Jansen, lateral esquerdo de longas trajetórias em dois clubes — além de uma fugaz passagem pelo Bayern München —, viu seu contrato com o Hamburger SV vencer. Tinha 29 anos, havia disputado duas Copas do Mundo e chegou a ser convocado às vésperas do Mundial de 2014. Ainda assim, não teve seu vínculo renovado. Ainda possuía, então, valor de mercado, mas preferiu encerrar sua carreira.

Foto: Getty Images

Naquele momento, o clube vivia tempos tempestuosos. Em 2014 e 2015, o Hamburgo ficou a uma posição do rebaixamento automático, vencendo o Greuther Fürth e o Karlsruher SC nos play-offs que determinam com quem fica a última vaga na edição seguinte da Bundesliga. Como uma renovação na equipe era necessária,  saíram jogadores respeitados e históricos do clube, como Jansen, e os experientes Rafael van der Vaart e Heiko Westermann.

A vontade de permanecer na cidade de Hamburgo e os fortes laços que construiu nos sete anos em que defendeu Dier Dino falaram mais alto na hora em que o contrato expirou. Seu último porto como futebolista lhe ancorou tão bem, que fez com que decidisse por lá seguir residindo.

Foto: Getty Images

“Há muitas ofertas boas, mas seguir não é uma opção. Estou em forma, posso me mudar em uma transferência livre, ainda posso ganhar um bom dinheiro, mas prefiro renunciar ao dinheiro. Nos últimos anos, fiquei muito ligado emocionalmente ao HSV. Continuarei vivendo em Hamburgo e sempre vou amar esse clube. O mesmo com o Gladbach […] Não posso, de repente, beijar outro escudo agora”, disse ao Bild, na época da tomada de sua decisão.

Repise-se: Jansen não era um jogador qualquer. Tudo bem, não foi um craque nem nada parecido, mas era útil. Exercia com competência todas as atribuições do lado esquerdo do campo, tendo sido eventualmente, além disso, meia e extremo. Possuía qualidades e foi um dos responsáveis pela transição de Philipp Lahm à ala direita na Seleção Alemã. Reserva no Mundial de 2006, assumiu a titularidade após o certame, construindo uma trajetória importante.

Foto: Getty Images

Tendo sofrido muitas lesões no período que antecedeu a Copa do Mundo da África do Sul, em 2010 foi, novamente, reserva. Continuou sofrendo problemas físicos após a competição, mas ainda foi convocado muitas vezes. Fez um total de 45 partidas pela Nationalelf. Marcou três gols.

Em 10 anos de carreira, fez 335 jogos oficiais e foi às redes 40 vezes. Grandalhão, 1,91m, ao contrário do que se poderia supor, gostava de ir à frente, mas com equilíbrio. Aliás, talvez essa tenha sido sua maior virtude no tempo em que atuou como profissional. A fiabilidade fez de um jogador sem grandes habilidades, mas consciente de seu papel no campo e diante do coletivo, um jogador de carreira invejável.

(Foto: Getty Images)

Ele chegou ao patamar a que todos aspiram e poucos chegam: representou sempre clubes de primeira divisão em um dos maiores campeonatos do planeta e vestiu as cores de sua seleção nacional. Jogou Copas do Mundo e conquistou três títulos,  Bundesliga, DFB-Pokal e DFL-Liga Pokal — ironicamente pelo Bayern, o menos importante dos clubes de sua carreira, e onde teve problemas com o treinador Jürgen Klinsmann, por não chegarem a um consenso sobre as perspectivas do então lateral de 22 anos.

Ao contrário do que se poderia pensar, no tempo que se seguiu à dura decisão tomada, Jansen não voltou atrás em sua decisão e já convive com o esquecimento. Ao final, seu equilíbrio não se mostra característica restrita ao campo de futebol.

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