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Amor, homenagens e reconhecimento a um ídolo que ajudou a mudar a história do clube andaluz

Por Jessica Miranda

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stádio Ramón Sánchez Pizjuan, 25 de agosto de 2007. Às nove da noite, o árbitro apitou o início do campeonato espanhol da temporada 2007/08 para Sevilla e Getafe. Uma hora e meia depois, o juiz gesticulava para que a equipe médica entrasse logo em campo para atender o lateral rojiblanco, Antonio Puerta, que desmaiou após um ataque cardíaco.

O desespero se espalhou rapidamente entre os presentes. O sérvio Ivica Dragutinovic foi o primeiro a tomar uma atitude: enfiou os dedos na boca do seu companheiro para evitar a asfixia. Com a chegada dos médicos, Puerta retomou a consciência, mas ao chegar ao vestiário sofreu outras inúmeras paradas cardíacas e, em decorrência delas, faleceu no hospital três dias depois, aos 22 anos.

A reconstrução

O início do século XXI foi complicado para o Sevilla. Rebaixado à segunda divisão e sem perspectivas de melhora, Monchi, o antigo goleiro do clube que mal atuara profissionalmente, foi contratado como diretor de futebol e começou a implantar sua filosofia de garimpar talentos desconhecidos, além de fomentar a utilização de jovens sevillistas.

Cria da base, Puerta marcou o gol mais icônico dos primeiros sucessos europeus do clube andaluz. Na Espanha, já era prorrogação no segundo jogo da semifinal da Copa da UEFA de 2005/06 e nada de gols entre Sevilla e Schalke 04. Precisamente ao minuto 100 do jogo, Puerta — em sua temporada de estreia na equipe principal — aproveitou o espaço deixado pelo lateral adversário Rafinha para, da entrada da pequena área, emendar um chute de perna esquerda, de primeira. Feroz, a bola fez uma curva indefensável e morreu no canto esquerdo do alemão Rost.

Puerta comemora o gol histórico (Foto: Getty Images)

Com o término da partida, a torcida local invadiu o campo, em êxtase coletivo, afinal o time estava mais próximo de vencer um título relevante após quase 60 anos de jejum. “Nada nos fará encerrar a ilusão”, remetia uma das faixas da torcida sevillista. No período dourado entre 2005 e 2007, o clube empilhou títulos: bicampeonato da Copa da UEFA, Supercopa da Europa, Copa Del Rey e Supercopa da Espanha.

Esquerda de diamante

Saudade que ficou em campo (Foto: Getty Images)

“A evolução clínica do paciente é desfavorável pela progressão dos sinais de dano cerebral postanóxico, e pela disfunção multiorgânica causada pela parada cardíaca prolongada”, dizia um trecho do último boletim médico sobre a situação de Antonio. Tal qual como Serginho, zagueiro do São Caetano morto em 2004, Puerta tinha miocardiopatia hipertrófica assimétrica e, no início da tarde de 28 de agosto de 2007, o jogador não resistiu à falência múltipla de órgãos e ao dano cerebral irreversível causados pela sua doença. “A esquerda de diamante nos deixou”, pronunciou o então presidente do clube, José María Del Nido.

Após cinco títulos conquistados com o Sevilla, o jovem Puerta estava na mira de grandes clubes como Manchester United, Real Madrid e Barcelona. A saída de outro talento da base andaluz seria questão de pouco tempo, tal qual ocorrera com Sergio Ramos. O defensor, amigo de Puerta, faz questão de homenageá-lo anualmente, de diversas formas. Na seleção espanhola, Ramos utiliza o número 15 — usado por Puerta nas poucas oportunidades que teve na Fúria — e nas celebrações das conquistas dos principais títulos da história do país — Euro 2008 e 2012, Copa do Mundo de 2010 — lá estava ele trajando camisetas com o rosto do seu grande companheiro durante a adolescência. No primeiro jogo do Real Madrid depois do falecimento de Puerta, Ramos meteu um passe certeiro para van Nistelrooy marcar. Comemorou erguendo os dedos ao céu e levantando seu uniforme para mostrar os dizeres “Puerta, irmão, não esqueceremos de você”. O jogador recebeu cartão amarelo pelo ato, mas a sanção do árbitro foi anulada depois.

Sergio Ramos jamais se esqueceu do amigo (Foto: Getty Images)

Fora dos holofotes do futebol de alto nível, Guillermo Carrillo, conhecido como Guillie, também honra o seu antigo amigo ao fazer gols pelo Xerez. O atacante, inclusive, mantém contato com o filho de Puerta.

Antonio vive

O legado de Puerta vive no sonho de seu filho (Foto: Sevilla FC)

Aitor Antonio nasceu quase dois meses depois de seu pai morrer. O nome composto é fruto do desejo do jogador e homenagem da viúva Mar Roldán ao marido. A criança joga futebol no AD Nervión — cuja escolinha de base se chama Antonio Puerta — e sabe que a camisa 16 do Sevilla, usada pelo seu pai, estará reservada para ele, caso se profissionalize. A equipe andaluz tentou aposentar o número de Puerta, mas como a Federação Espanhola obriga a numeração fixa do elenco de 1 a 25, a alternativa encontrada foi visar a destinar o número a jogadores vindos da base do clube.

O troféu que leva o nome do ídolo (Foto: Getty Images)

A partir de 2008, o Sevilla organiza anualmente o torneio Antonio Puerta. Mais do que um troféu disputado em jogo único, as partidas realizadas no Ramón Sánchez-Pizjuán servem para manter inflamado o espírito do clube, representado pela alma de Puerta, afinal, conforme se lê na placa da estátua erguida em 2010 para o jogador, “A sua perna esquerda nos deu um sonho que mudou nossas vidas, começando desde então uma das etapas mais gloriosas de nosso clube. Um ‘obrigado, Antonio’ de todos os torcedores”.

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About The Author

Jessica Miranda
Chefe de redação

Advogada, formada pela USP, mas jura que é legal sem ser hipster. Zagueira que não corre porque posicionamento e carrinhos perfeitos são a chave do sucesso.

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