Never tear us apart

A voz que faltou à Austrália

O final do ano de 1997 para o futebol e o povo australiano foi marcado por uma profunda perda. A crônica da decepção parecia tomar um final totalmente diferente. Após uma eliminatória tranquila na Oceania, vencendo no confronto final a Nova Zelândia no agregado por 5 a 0, os Socceroos se classificaram para enfrentar o Irã na repescagem para a Copa do Mundo de 1998 na França, um adversário sem grande tradição. Era a chance de ouro para retornar a um Mundial após sua única participação, em 1974, na Alemanha Ocidental.

Os confrontos marcados para os dias 22 e 29 de novembro seriam a ratificação de uma classificação para os australianos. E dois motivos elevavam o otimismo: o primeiro é que a Austrália decidiria o confronto jogando no estádio MCG Melbourne, e o segundo, pela geração australiana composta por jogadores tecnicamente muito bons, caso do goleiro Mark Bosnich, que seria campeão mundial pelo Manchester United em 1999 contra o Palmeiras, Mark Viduka, atacante de Celtic, Leeds United, Middlesbrough e Newcastle United; e Harry Kewell, craque de Leeds United e — posteriormente — Liverpool.

Mas eis que a sorte pareceu virar justamente no dia do primeiro confronto frente aos iranianos. E um fato dramático fora dos campos serviu para abalar o país. Michael Hutchence, vocalista e líder INXS, foi encontrado enforcado em seu apartamento em Sydney. A banda INXS foi um dos maiores expoentes do Pop Rock dos anos 80, de clássicos como Need You Tonight, Original Sin, Suicide Blonde e By My Side. O suicídio foi justamente no dia em que todos os australianos estariam com as atenções voltadas para o Azadi Stadium na cidade de Teerã.

A morte de Hutchence causou uma comoção em todo o universo da música. E na Austrália, um povo consternado pela perda de um grande ídolo nacional. Em meio a esse turbilhão de emoções, os Socceroos entraram em campo para uma partida decisiva. A equipe era comandada por Terry Venables, experiente técnico inglês que dirigiu Barcelona, Tottenham e Seleção da Inglaterra, e começou melhor a partida, tanto que o placar foi aberto logo aos 19 minutos do primeiro tempo com Harry Kewell. O placar foi igualado 20 minutos depois com Azizi marcando para os iranianos aos 39 do primeiro tempo.

O jogo acabaria empatado; a seleção australiana sairia otimista e satisfeita com o resultado. A seleção teria sua oportunidade de homenagear o vocalista em seu território, com uma vantagem de poder empatar por 0 a 0 ou vencer por qualquer resultado.

A Copa do Mundo parecia próxima dos australianos. Com 98 mil vozes empurrando a seleção e — principalmente — com a vantagem construída com gols de Kewell, aos 32 minutos do primeiro tempo e de Vidmar, logo aos 3 minutos do segundo tempo, parecia a ratificação de uma classificação tranquila. Entretanto, o inesperado aconteceria.

O afinco dos iranianos surpreendentemente veio com dois gols, o primeiro de Bagheri aos 31 e o segundo de Azizi aos 35 do segundo tempo, gols que seriam o suficiente para calar as quase 100 mil vozes. A partir dali, o silêncio sepulcral imperaria no estádio de Melbourne, parecia faltar uma voz como a de Michael Hutchence, que por muitas vezes fez cantar e berrar de emoção plateias em estádios pelo mundo com canções como Never Tear Us Apart.

O placar permaneceria imóvel até o fim. Uma seleção que não ficaria em nenhum momento atrás no placar, que seria eliminada em um confronto de 180 minutos mesmo estando à frente todo o tempo do confronto. Uma decepção para os australianos.

Após essa grande frustração pela eliminação para a Copa da França de 98 e a perda de um grande ídolo nacional como Hutchence, a Austrália juntou os cacos para a disputa da Copa das Confederações realizada na Arábia Saudita em dezembro de 1997. Os Socceroos conseguiram uma classificação improvável em um grupo que tinha, além dos anfitriões, México e Brasil. Inclusive, a Austrália segurou o 0 a 0 contra a Seleção Brasileira. A classificação para as semifinais elevou o ânimo da Seleção Australiana; em um confronto contra o Uruguai, Kewell marcou o gol da classificação para final, na prorrogação.

 

O otimismo australiano em disputar uma final contra os campeões mundiais de 1994, que eles tinham empatado a zero, logo se tornou um pesadelo. Um 6 a 0 acachapante, com três gols de Ronaldo e três de Romário, mostrou a realidade e o tamanho da Seleção Australiana no cenário do futebol mundial. Menos de um mês depois da morte de Hutchence.

A retomada do futebol australiano viria quatro anos depois justamente contra o Brasil em uma Copa das Confederações, desta vez realizada na Coréia do Sul e Japão no ano de 2001. Na decisão de terceiro lugar, o gol de Murphy selaria a vitória histórica frente aos brasileiros. No entanto, os australianos levariam mais alguns anos para alcançarem novamente o acesso à Copa do Mundo. Após a derrota para os uruguaios na repescagem para a Copa de 2002, os australianos dariam o troco nos mesmos uruguaios, quatro anos depois, para se classificarem para a sonhada disputa do Mundial.

A partir da Copa da Alemanha em 2006, além da mudança de disputa, da Oceania para a Ásia, a Austrália se tornaria figurinha carimbada na disputa dos mundiais seguintes. Estava coberta a lacuna da Copa do Mundo. Já a lacuna de Michael Hutchence, essa não será preenchida jamais.

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