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Quando o comunismo venceu o capitalismo

Por Wladimir de Castro Rodrigues Dias

Hamburgo, 22 de junho de 1974. Em campo, a Alemanha enfrentava a Alemanha. Comunismo e capitalismo, amadorismo e profissionalismo, abertura e fechamento, divisões familiares e ideologias. Tudo isso estava em disputa em 90 minutos.

Com o final da Segunda Grande Guerra, o país germânico sofreu graves sanções e, durante a Conferência de Potsdam, ficou estabelecido o desmembramento da nação, com a independência de países como Áustria e Polônia. Inicialmente não estava prevista a divisão da Alemanha em duas e sim em quatro zonas, supervisionadas por União Soviética, Estados Unidos, Reino Unido e França. Após isso, aumentaram as tensões entre norte-americanos, apoiados pelos europeus, e soviéticos, o que, inevitavelmente, conduziu à Guerra Fria.

Naquele contexto, Berlim era uma das praças divididas e as partes envolvidas na recuperação germânica não conseguiam chegar a um consenso sobre quais providências deveriam ser tomadas para alavancar a economia alemã. A União Soviética entendeu, contudo, como ilegítima a eleição de governante para conduzir a capital do país, nos moldes determinado pelas outras três envolvidas, e tratou de impedir sua chegada ao poder. Evidentemente, as nações ocidentais responderam, aumentando a tensão. A situação tomou novos rumos e Berlim passou a ter governos paralelos, um seguindo diretrizes ocidentais e o outro orientais.

Com a idealização do Plano Marshall, visando a recuperação econômica da Europa e o aumento da influência norte-americana no continente, a União Soviética, percebendo-se ameaçada, recusou-se a colaborar. À sua maneira, ambos os lados desejavam a união germânica, mas inexistia consenso e as diferenças de qualidade de vida entre as porções ocidental e oriental do país aumentava, bem como o êxodo do lado soviético. Assim, em 1961 a divisão brutal e definitiva aconteceu, com a construção do muro de Berlim, com a Alemanha perdendo de vez o seu senso de unidade, fragmentado desde 1949.

Após um momento em que nenhum dos lados reconhecia o outro, os países foram consolidados e, evidentemente, passaram a disputar competições esportivas, independentes umas das outras. No futebol, a Alemanha Ocidental, reconhecida pela maior parte do mundo em 1951, disputou a Copa do Mundo de 1954, superado um período de banimento, e já havia jogado os Jogos Olímpicos de Helsinki, em 1952. Para o lado Oriental, o início se deu nas eliminatórias para o Mundial de 1958, após as Olimpíadas de 1956 terem sido disputadas em unidade — apenas no papel, porque desacordos entre os países levaram o lado oriental a retirar seus atletas.

Enquanto a Alemanha Ocidental se profissionalizava, sua “irmã” mantinha o caráter amador, o que, como em todo o bloco soviético, garantia-lhes bons desempenhos nos esportes olímpicos, uma vez que as disputas se equiparavam às profissionais, mas não possuíam tal identidade. Para os Stasi, como ficou conhecida a polícia secreta do lado leste, a supremacia no esporte sinalizava para o mundo a vitória de seu regime — foi, inclusive, fundado o Berliner FC Dynamo, o qual obteve sucessos justificados pelo fato de os melhores jogadores do país terem sido coagidos a o representar e em razão de arbitragens tendenciosas.

Assim, a Alemanha Oriental conseguiu ótimos resultados nas Olimpíadas de 1972, 1976 e 1980: bronze, ouro e prata, respectivamente. No entanto, o momento mais representativo da história do futebol da DDR aconteceu na Copa do Mundo de 1974, a única para a qual a equipe se classificou.

A vitória era única forma do lado Oriental ficar à frente da Alemanha Ocidental, na última rodada do Grupo 1, que contava ainda com Chile e Austrália. No Volksparkstadion, a tensão podia ser vista para onde quer que se olhasse, o que, é claro, refletiu-se dentro de campo. No minuto 78, um lado passou à frente. Uma Alemanha se impôs. Nada importou o fato de que a base da Alemanha Ocidental fosse o Bayern München campeão europeu, o domínio das ações tivesse sido tomado por parte dessa, ou que a realidade do jogo mostrasse estudo e cautela de ambas as partes:  o gol, limite entre o sucesso e o fracasso, veio da porção oriental — de Jürgen Sparwasser, lançado por Erich Hamann em profundidade, da direita para o meio da defesa ocidental, aquela retaguarda que alinhava ninguém menos que Franz Beckenbauer.

Por um momento, para o regime estabelecido na Alemanha Oriental não importava a gritante diferença, existente em todos os campos, entre cada lado germânico. A vitória era sua e embora houvesse em ambos os países quem torcesse pelo adversário, estava clara a distinção: havia um distanciamento da ideia de unidade alemã. Poucas formas poderiam ter sido tão hábeis a demonstrar tal realidade.

“Foi importante porque foi em uma Copa do Mundo e porque era Alemanha contra Alemanha […] É claro que foi glorificado pelos políticos, mas isso acontece em qualquer lugar. Todos os países tentam obter vantagens políticos a partir do sucesso esportivo”, refletiu Jürgen Croy, goleiro da Alemanha Oriental em 1974, ao Spiegel, em 2006.

Ironicamente, a vitória teve consequências esportivas nefastas para a Alemanha Oriental e fantásticas para sua antagonista, que avançou a um grupo muito mais fácil na fase seguinte, com Polônia, Suécia e Iugoslávia, enquanto o lado vitorioso do confronto precisou duelar contra Brasil, Argentina e Holanda, liquidando suas chances de fazer ainda mais história. Entretanto, naquela competição, o principal objetivo do selecionado do leste era mostrar suas capacidades e força e nenhuma outra partida poderia ter sido tão determinante quanto aquela em que um fato ocorrido em um minuto ressoou por décadas.

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