Noites Européias

120 anos de história das competições de clubes da Europa

2 Foto: Davide Ragusa

Prefácio

Por Mauro Beting

As noites européias são tardes brasileiras. Desde o final dos anos 90, costumam ser tão vividas quanto as nossas noites de Libertadores ou de Copa do Brasil. É o que há. Globalização. Internet. TV por assinatura. Êxodo. Exportação de pé-de-obra qualificado. Futebol gourmet. Modernidade. Violência urbana. Novas tribos. Hype. Geração Nutella. Fandom. Videogame. Geração que shippa. Chip trocado. Jogo apoiado. Entre as linhas. Último terço. Pé nosso que estais no seu campo dos sonhos do que somos. E do que fomos como berço e altar do melhor futebol do mundo.
Explicação não falta nestes trópicos mais tristes com a nossa gente que vai, e que a gente vai atrás. Sabemos mais do lateral reserva do Saint-Étienne que do camisa 10 do São Cristóvão. A boleirada sonha mais ouvir o tãtatataaaaaaaannn do hino da Champions League fardado no gramado que o “Pátria Amada, Brasil”, falado com a mão no peito vestido de verde e amarelo. Sinal dos tempos. Cifrão dos campos.

“Noites européias”, o livro, traz essa febre de bola que não baixa. Só sobe. Direitos de TV, deveres do sponsor, isso fica de lado. O que o livro conta não tem contador que mensure. Ele define muito além do nosso campinho tacanho, da nossa telinha HD, 4K, o que for, a alma, as armas e as amarras do sonho de Europa antes mesmo da primeira competição regular, em 1955. Os autores portugueses cavam os pontapés iniciais no início do espetáculo do futebol. Do relvado à raiva dos hooligans. Das camisolas das épocas aos mantos das novas temporadas. Eles vão ao século XIX. E, desde então, conseguem inserir na escalação um elenco de histórias, tramas políticos, temas econômicos, elementos sociais e culturais, muito além do nosso campinho tacanho e das limitações da cobertura de antanho. Sabendo discernir o jogo do trigo, a jóia da intriga, o pé nosso de cada dia. 120 anos de noites européias.

A fascinante jornada pelo tempo e pelo continente explica não apenas como jogavam as equipes. Mas como nós nos jogamos em busca da gênese de nosso futebol. Questões táticas — muitas delas discutíveis. Querelas de todos os campos — algumas inquestionáveis. Quimeras que conseguem nesse caleidoscópio dar a cor local, a dor intestina, o calor da refrega, o credo da entrega, a magia colorida do jogo que dribla máfia, escanteia máculas, chapela feridas, e reabre a discussão para refazer da Europa o centro do planeta. Do futebol — nem que seja por 90 minutos e mais prorrogação com gol qualificado.

Os ingleses, que criaram o jogo e meio que não souberam mais o que fazer com ele. Os franceses, que o reorganizaram meio século depois e o expandiram no centenário do esporte. Os espanhóis, que só ganharam o mundo na África, mas montaram invencíveis armadas, como se fossem Felipe, que unificou a coroa ibérica. Os portugueses, que fizeram dos rios da aldeia os maiores do continente. Os italianos, que dominaram a Bota e outras canchas com suas chancas como chagas. Os escoceses e seus bravos corações celtas. Os holandeses, que saem debaixo do mar para voar com máquinas que inspiram catalães e outros que creem em Cruijff. Os alemães que ganham tanto como se parecessem alemães. Iugoslavos e romenos que se dividiram. Gregos que se multiplicaram. Di Stéfano a Messi, de Eusébio a Cristiano, de Rivera a Buffon, de Canário ao canarinho Neymar, de tantos nomes e tentos. Das tribunas aos tribunais. Dos torcedores que podem até cantar a mesma canção de que ninguém vai andar sozinho. E ninguém joga mesmo assim. Ainda mais num universo que se liga na Champions, como nunca se ligou em nenhum outro torneio.

O mundo que acha que conquistar a Europa é mais importante e mais difícil que conquistar o mundo. É prepotente? É. Eles podem. É jactante? Alea jacta est! A sorte está lançada.

As noites européias são as tardes brasileiras. Um clássico num final de dia ensolarado. Jogue-se. A noite é uma criança.


 

O futebol e a Europa têm sido sempre espelhos recíprocos. O jogo (re) inventado no norte, nas Ilhas Britânicas é, antes de mais nada, um jogo europeu, oferecido ao Mundo pelo continente. Que numa época dominada pela globalização, quase sempre um processo controlado pelos localismos da cultura norte-americana, o futebol seja cada vez mais o jogo planetário só pode ser motivo de orgulho e de esperança no futuro para os Europeus.

Para continuar lendo, faça login ou registre-se. É grátis! Clique aqui.


 

Parte 3

3.1 O fim da idade da inocência

Nem sempre as décadas acabam quando se espera. Os condicionantes sociais, culturais e econômicos podem encurtar ou alongar um período que a história recordará como 50, 60, 70, sem ter em atenção que tudo começou antes e terminou depois do que se podia imaginar. Para muitos, os anos 60 chegaram ao fim com a tensão política que desencadeou o Maio de 1968 nas ruas de Paris. Para outros, prossegue até 1973, quando a crise do petróleo acabou definitivamente com quase trinta anos gloriosos de crescimento econômico do bloco ocidental. Há quem prefira apontar a ressaca tremenda provocada por Woodstock e o final da geração hippie. No mundo do futebol, aplicam‐se exatamente as mesmas sensações, os mesmos condicionantes. Mas, no caso da década de 60, é fácil estabelecer o dia e a hora em que chegou ao fim.

Para continuar lendo, faça login ou registre-se. É grátis! Clique aqui.


3.2 A escola do Futebol Total

Em 1960, enquanto o Real Madrid destroçava o Eintracht Frankfurt em Glasgow, para vencer a sua quinta Taça dos Campeões consecutiva, o futebol na Holanda continuava a viver no mais puro amadorismo. Era uma realidade que se adequava à própria dinâmica do país. De certa forma, o cinzentismo social holandês ficava espelhado na profunda incapacidade das suas equipes de se aproximarem dos seus vizinhos europeus. Os melhores jogadores abraçavam o profissionalismo de outras ligas e eram penalizados pela federação holandesa, deixando de ser convocados pela seleção nacional. A maioria dos treinadores continuava a apostar em um modelo inspirado no 2‐3‐5, prévio à introdução do WM por Herbert Chapman. Um atraso tático de trinta anos, que tornava a linha defensiva das equipes holandesas um pasto aberto para os atacantes dos seus rivais europeus nos jogos internacionais. O registro oficial da seleção laranja estava ao nível do Luxemburgo. O dos seus clubes não era muito diferente.

Para continuar lendo, faça login ou registre-se. É grátis! Clique aqui.

 

Mantenha-se informado sobre nossos textos e produtos. Receba descontos exclusivos.
Assine a nossa newsletter.