Futebol versus Poder

5 Foto: Linus Sandvide

Prefácio

Por Tim Vickery

Em 1936, o escritor inglês George Orwell foi à Espanha para lutar pela república contra a insurreição fascista do general Franco. Orwell encontrou-se na revolucionária Barcelona, uma cidade onde as divisões de classe haviam sido abolidas.

Quando ele relembrou a experiência para escrever “Homenagem à Catalunha”, um momento se destacou como um símbolo do espírito da época, e ele o utiliza para começar o livro. Orwell conhece um jovem italiano que se esforça para ler um mapa. Os dois têm pouco em comum em termos de idade, educação e idioma. Mas eles têm o vínculo de uma causa comum, e apertam as mãos com uma ferocidade e sinceridade que faz Orwell se maravilhar com a profundidade do afeto que os estranhos podem ter um pelo outro. Para Orwell, esse era o espírito do socialismo.

Muitos de nós que amamos o futebol reconhecem o sentimento; nós fomos socializados pelo jogo. Jogue uma bola para um grupo de crianças e elas podem se tornar amigas instantaneamente. Sentimos o poder de trabalhar por uma causa comum, como jogadores e como torcedores. Estamos bem conscientes de como o jogo pode derrubar barreiras internacionais.

No entanto, de vez em quando, todos nós pensamos e nos perguntamos a mesma coisa; quanto estamos nos enganando com nossos mitos românticos? Quanto somos parte do problema e não parte da solução?

O futebol moderno, afinal, emerge de uma situação específica. Os britânicos haviam adquirido um império e precisavam encontrar uma forma de administrá-lo. A ênfase nos esportes coletivos nas escolas britânicas de elite pretendia precisamente criar mentes disciplinadas e bem ordenadas para executar ordens do centro. Desde o primeiro dia, o jogo sempre fez parte de um experimento de controle social. E hoje em dia, é claro, é uma parte fundamental de uma indústria corporativa massiva de entretenimento.

Então, é justificável investir tanto tempo e emoção nessa atividade? É uma questão confusa porque o futebol é confuso; caminha na corda bamba entre a cultura e os negócios, entre a igualdade coletiva e a excelência individual, entre unir as pessoas e dividi-las.

Gabriel Kuhn lidou com todas essas questões em um nível profundo. Como jogador profissional, como um jovem sincero com interesse em política radical e como cidadão. E neste livro ele compartilha suas experiências e percepções, juntamente com uma coleção de visões de todo o mundo.

Tudo isso deve ser de grande interesse para o público brasileiro — porque a importância do jogo aqui lhe confere poderes especiais, para o bem ou para o mal.

Por um lado, na célebre frase da socióloga norte-americana Janet Lever, o futebol no Brasil é “um registro vivo do potencial da sociedade”, um espaço raro onde as oportunidades são abertas ao talento, seja qual for sua origem, uma mensagem inspiradora. Por outro lado, todos que conhecem a realidade do futebol brasileiro contemporâneo se afastaram dos estádios, deprimidos com a grande quantidade de raiva descabida — uma força que muito facilmente pode ser usada pela extrema direita. De mente obtusa e instintivamente autoritário, não é de surpreender que o futebol brasileiro produzisse muitas vozes de alto perfil em favor de Jair Bolsonaro. A primeira vez que percebi que ele seria uma séria ameaça eleitoral foi observando a resposta que recebia em estádios de futebol.

George Orwell reconheceria a imagem de uma bota esmagando um rosto humano. É a descrição da vida sob governos totalitários que ele produziu em “1984”. Ele também havia comentado sobre a maneira como o futebol pode separar as pessoas, de modo que não ficaria surpreso ao ver algumas travas de chuteiras na sola dessa bota.

Mas ainda nos apegamos à esperança de que a própria essência do jogo possa mostrar o melhor da humanidade em seu estado mais generoso, mais feliz. Este livro está cheio de histórias daqueles que compartilham essa fé. E se eu ainda estava confuso no final, pelo menos estava confuso em um nível superior.


Uns meses atrás, eu participei de uma feira de mídia na Alemanha. No segundo dia bem cedo, havia poucos visitantes e comecei a bater um papo com um amigo argentino que tinha um stand próximo. Num lapso de trinta minutos, abordamos várias questões: anarquismo versus comunismo, o movimento autônomo alemão, a crise geral da esquerda, o futuro de publicações [RADICAIS] independentes etc. Foi quando começamos a falar de futebol — três horas depois, ainda estávamos falando do assunto. Nós discutíamos a Copa do Mundo de 2010 na África do Sul, federações corruptas, culturas de torcidas na América do Sul e Europa, as origens dos nossos clubes do coração, os momentos de maior tristeza dos nossos times, os gols mais bonitos. Até que, num momento, tivemos que atender as pessoas que estavam nos nossos stands, mas estávamos longe de terminar a conversa.

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Capítulo 1

Torcedores radicais gostam de pintar o futebol como um jogo da classe trabalhadora. Isto é verdadeiro em certas ocasiões e falso em outras. Historiadores do futebol citam evidências de um jogo parecido com futebol em diferentes culturas. Aparentemente, esses jogos estiveram presentes entre romanos, egípcios, assírios, persas e vikings bem como nas antigas sociedades chinesas e japonesas. O foco deste livro, no entanto, é o jogo moderno, o Football Association, estabelecido na Inglaterra na década de 1860.

Jogos de bola na Grã-Bretanha datam de mais de 800 anos atrás. Eles foram descritos como “batalhas levemente estruturadas entre os jovens das vilas e cidades vizinhas”, com um número ilimitado de jogadores, nem tempo definido ou juiz. Os jogos eram disputados para “acertos de contas pendentes, disputas de terras e como engajamento de agressão tribal viril”. Aparentemente, alguns deles poderiam durar dias. Embora a bola seja referida  geralmente como “uma bexiga de porco revestida com couro”, alguns historiadores sugerem que crânios dos inimigos também eram usados.

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