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A história de Josef Bican, o maior artilheiro que o futebol já viu

Por Fernando Martinho

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m amigo que morou em Praga por um bom tempo recomenda um passeio ao forte de Vyšehrad (em português, quer dizer “Castelo do Alto”). Mas não é bem um castelo. É uma fortaleza localizada no alto de uma montanha à beira do rio Vltava, que corta a cidade. A fantástica vista do alto das muralhas — que datam do século X — permite um ângulo perfeito pra contemplar a capital tcheca. A lenda local diz que Vyšehrad foi a construção que deu origem à cidade, mas não há registros que a confirmem essa informação. Lá no topo, a basílica de São Pedro e São Paulo. Ao lado da basílica, um cemitério.

Em um dos túmulos, é impossível não perceber o desenho em granito de uma bola de futebol e o busto da pessoa que ali jazia: Josef Bican. Entre uma e outra foto no local, uma pessoa se aproxima: “Você conhece ele?”, pergunta o transeunte. “Ele marcou mais de cinco mil gols.”

Milan Šimůnek, engenheiro de uma empresa alemã com sede em Praga, começa a falar sobre sua paixão pelo futebol e a lenda ao redor de Josef Bican. Disse que fez questão de visitar a Bombonera quando esteve na Argentina e também marcou presença na Copa do Mundo disputada no Brasil em 2014. Mostrava contundência quando afirmava: “Aqui jaz o homem de mais de cinco mil gols.”

Que ali jazia Josef Bican, era um fato. Que ele tivesse marcado cinco mil gols, despertava uma só conclusão: a de que no Brasil, poucos sabem que o maior artilheiro de todos os tempos não é Pelé. No entanto, o que menos importa é a quantidade de gols marcados por Bican, seja em jogos oficiais ou em amistosos. A lenda em torno do jogador vai muito além.

O homem de cinco mil gols

Por Lucas Sposito

Durante a Copa do Mundo de 2014, os argentinos invadiam o país e provocavam os brasileiros com a já clássica “Decime qué se siente”. O troco veio em seguida: “Mil gols, mil gols, mil gols. / Só Pelé, Só Pelé / Maradona cheirador”. Era uma resposta convincente. Para um paulista, Maradona nunca foi tão bom quanto Pelé. E ninguém marcou mais gols do que o rei do futebol.

Mas o torcedor que saía de São Paulo e ia ao Maracanã ouvia uma versão diferente da música: “Mil gols, mil gols, mil gols / Só Pelé, Só Pelé / o Romário e o Túlio!” O carioca acredita nos números que apontam Romário e Túlio como detentores de gols contados em quatro dígitos. Mesmo que o botafoguense não seja fã do baixinho e o vascaíno não goste do Maravilha, vale a pena contradizer os paulistas.

E se alguém entrasse nessa briga dizendo que tem cinco mil gols? É isso o que diz a lenda de Josef Bican, o atacante austríaco que teria deixado Pelé, Romário, Túlio, Puskás e Müller no chinelo. Tanto em gols oficiais como em suas próprias contas.

Bican nasceu em Vienna, em 1913. Seu pai era um jogador de futebol que lutou na Primeira Guerra Mundial, voltou sem ferimentos, mas morreu aos 30 anos de idade por se recusar a operar um dos rins após uma lesão sofrida numa partida. Sua mãe — obrigada a criar os quatro filhos sozinha — já invadiu uma partida para dar uma “guarda-chuvada” num garoto que fez uma falta em Bican, nos tempos de categorias de base.

Seu fantástico controle de bola era relacionado à pobreza de sua família, que não tinha condições para comprar chuteiras e fez com que ele jogasse descalço em seus primeiros anos. Jogou no Schustek e no Farbenlutz até tornar-se profissional pelo Rapid Vienna. Em 1934, aos 21 anos, já tinha feito quase 250 gols (95 deles, oficiais). Isso rendeu-lhe uma transferência para o Slavia Praga, onde consagrou sua carreira.

Josef Bican pelo Slavia Praga

A história diz que os treinos do Slavia Praga eram um show à parte. Centenas de torcedores pagavam para ver os truques que Bican era capaz de fazer, na maioria das vezes, exibindo sua pontaria refinada. Dizem que ele colocava diversas garrafas sobre o travessão — cada uma a alguns centímetros de distância da outra —, posicionava algumas bolas na entrada da área e derrubava as garrafas, uma por uma.

Os números de Josef Bican, de acordo com o RSSSF, são de 805 gols em 530 jogos oficiais e 663 gols em 388 partidas amistosas. A soma é igual a 1468 gols em 918 jogos, marca superior à de Pelé.

Ele jogou por três seleções: Áustria, por quem disputou a Copa de 1934; Boêmia e Morávia, por alguns jogos em 1939; e República Tcheca, onde pediu cidadania quando foi jogar no Slavia Praga. Foi impedido de jogar a Copa do Mundo pelos tchecos, mas seu sucesso na seleção chegou ao ponto de o time tentar boicotá-lo por puro ciúme.

Durante a Segunda Guerra Mundial, ele foi o artilheiro absoluto da Europa por cinco temporadas seguidas jogando pelo Slavia Praga. Quando a guerra terminou, o atacante recebeu uma proposta da Juventus, mas recusou após ouvir rumores de que os comunistas tomariam o poder na Itália.

Ironicamente, o Partido Comunista tomou o poder em Praga, mas Bican recusou-se a aderir aos comunistas — ele havia feito o mesmo com o Partido Nazista, enquanto vivia na Áustria. Mas os comunistas foram mais duros e o expulsaram da cidade, fazendo com que ele passasse dois anos jogando em Vítkovice até voltar a Praga, onde encerrou a carreira em 1955.

Mas e os cinco mil gols?

Essa história surgiu em 1969, quando Pelé marcou seu milésimo gol. Como o acontecimento despertava o interesse de todo o planeta, repórteres procuravam por outro jogador que tivesse atingido tal marca. O austríaco Franz Binder — 11º maior artilheiro da história — indicou Bican aos jornalistas. Quando perguntado sobre o porquê de jamais ter clamado pelo feito, Bican respondeu: “quem teria acreditado em mim se eu dissesse que marquei cinco vezes mais gols que Pelé?”

De fato, ninguém acreditaria. Bican teria que manter uma média de 185 gols por ano — desde os 15 até os 42 anos de idade, tempo total de sua carreira — para conseguir essa marca. De acordo com o RSSSF, sua média de gols, contando jogos oficiais e amistosos, foi de 54 por ano.

Mas ele era convencido demais para aceitar estes números. Para ele, foram cinco mil e ponto final. E assim foi até o ano de 2001, quando morreu aos 88 anos, em Praga. Até o fim de seus dias, não aceitava que os atacantes da atualidade tivessem mais créditos que os de antigamente:

“Eu ouvi muitas vezes que era mais fácil marcar gols na minha época. Mas as chances eram as mesmas há cem anos atrás e serão as mesmas daqui a cem anos. A situação é idêntica e todos concordariam que, de uma chance, deveria sair um gol. Se eu tivesse cinco chances, eu marcaria cinco gols — se eu tivesse sete, então seriam sete.”

About The Author

Lucas Sposito

Jornalista formado pela UMESP. Escreve para VIP, Sport Witness, Corner e Old Trafford Brasil. Não sabe se quer ser Andrea Pirlo ou John Frusciante quando crescer.

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