Irresponsável mágico

Um craque que escolheu a vida comum

Ilustração: Éric Chinaglia
Livraria FC

Um craque que escolheu a vida comum

Por Guilherme Jungstedt

Um desperdício. Essa é a conclusão a que normalmente se chega sobre qualquer jogador que não viveu uma carreira tão gloriosa quanto poderia levar a supor seu dom de exibir o fino da bola. As razões para isso podem variar desde o sofrimento de seguidas lesões a uma vida entregue à lascívia e outros prazeres. No entanto, entre todas as possibilidades, uma delas sequer costuma ser levantada e, aparentemente, é a mais importante: a vontade do jogador.

Jorge ‘Mágico’ González é o maior jogador da história de El Salvador e se tinha esse apelido não era à toa. Desde que as audiências mundiais perceberam sua presença na Copa de 1982 — quando sua seleção sofreu a maior goleada da história das copas —, seu futebol atraiu alguns dos grandes clubes europeus. À época, as especulações apontavam para Milan e PSG; o Atlético de Madrid chegou a fazer uma proposta, mas o Mágico preferiu fechar com o Cádiz, da segunda divisão espanhola.

Depois de 33 jogos, 15 gols e uma promoção a La Liga em sua primeira temporada pelo time andaluz, González enfrentou a elite futebolística espanhola com a mesma desenvoltura. Era um dos principais jogadores do campeonato e, junto com Diego Maradona em seus dias de Barcelona, um dos mais festejados pelas torcidas — adversárias, inclusive. Quase não se notava os efeitos de seu comportamento fora de campo. Na verdade, aqueles que não testemunharam as ausências de González nos treinamentos do Cádiz jamais poderiam saber a diferença esportiva entre o Mágico são e o Mágico de ressaca.

“Sei que sou um irresponsável e mau profissional, e pode ser que eu esteja desperdiçando a oportunidade da minha vida. Eu sei, mas tenho uma coisa na minha cabeça: não gosto de levar o futebol como um trabalho. Se fizesse isso, não seria eu. Jogo apenas para me divertir.”

Diz a lenda que o Mágico González só não foi parar no Barcelona de Maradona por uma questão de comportamento. Em 1984, tanto o Cádiz quanto o clube catalão saíram em tour pelos Estados Unidos. Tudo parecia indicar que haveria alguma espécie de acordo para concretizar a negociação. Os dirigentes blaugranas, no entanto, teriam recuado após tomar conhecimento de “episódios controversos” protagonizados pelo Mágico no hotel em que as equipes se concentravam.

Impossível dizer como seria o Barcelona com González e Maradona, mutuamente admirados. Fato é que após se transferir para o Valladolid — basicamente por problemas com o técnico Benito Joanet —, o Mágico enfrentou dificuldades para se adaptar à rotina mais rigorosa de treinos e isso acabou levando-o de volta ao Cádiz no ano seguinte.

Jorge González deixou o Cádiz em 1991 para retornar ao futebol salvadorenho e se aposentar oito anos mais tarde. Ninguém jamais saberá o que o futebol lhe teria proporcionado se ele tivesse vivido seus melhores dias jogando com a camisa do Barcelona. O que se sabe é que ele nunca abriu mão de suas vontades e, francamente, quem poderá culpá-lo? Imagine só: perder dias e noites de farra, alegria e diversão só porque você precisa jogar uma partida de futebol profissional no dia seguinte. Isso sim seria um desperdício.

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