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Huracán, a paixão proibida

Nos anos 1960, o cinismo tomou de assalto o futebol argentino. Quase nada já sobrava da herança emocional da La Nuestra, a escola de artesãos com chuteiras que tinha formado esse DNA de jogo platense até ao desastre que foi a viagem da Argentina à Copa da Suécia, em 1958. No meio do caos emocional, da violência e da impunidade, o futebol argentino voltou a apaixonar-se por si mesmo no dia em que seu caminho se cruzou com o do Globito. A saga do Huracán de César Menotti demonstrou aos gauchos que havia uma porta para viajar no tempo para o seu passado mais memorável em algum lugar do velho, mas inesquecível, El Palacio. 

Todas as gerações de adeptos, jornalistas e jogadores tinham aprendido a respeitar o futebol argentino. Esses eram os mesmos que tinham ombreado com — difícil — Uruguai nos anos 1920, nessas lutas pelo trono mundial de que os ingleses nada queriam saber. Os que tinham dado ao mundo, na década de 1940, uma equipa irrepetível como La Máquina do River Plate, tão grande que até Di Stéfano só podia ser suplente, ou donde tinham saído os Angeles de Cara Sucia para o futebol europeu na década seguinte. Eram décadas e décadas de mágicos com a bola, de legionários com alma de pintores, de soldados com vocação de estrelas de Hollywood. Nos dias em que o tango e o futebol se misturavam com promiscuidade, o futebol argentino representava, como nenhum outro, o fascínio do desporto-rei por ser uma via alternativa, de atalhos e becos sem saída, à autovia do êxito. Tudo isso desapareceu com um suspiro. O débâcle nesse Mundial de 1958 — um torneio que os argentinos pensavam que podiam ganhar e no qual foram eliminados com toda a justiça na primeira ronda — e o fim agreste e violento do Peronismo, substituído por uma série de ditaduras militares consecutivas com uma nova filosofia de vida, em que o meio deixava de ser questionado sempre que o fim fosse o triunfo, rasgou meio século de herança cultural, dessa La Nuestra que tinha iluminado o mundo ainda antes do samba brasileiro.

Os triunfos internacionais do Racing de Avellaneda e, sobretudo, do Estudiantes de La Plata de Osvaldo Zubeldía, bem como a polêmica — e injusta — expulsão de Rattin no Mundial de 1966 e a posterior ausência no torneio seguinte, só reforçaram esse período emocional negro do futebol albiceleste. No meio de estádios tomados pelas barras bravas, peões do Estado militar no controlo das ruas, do tráfico de drogas e das gangues criminais, o relvado perdeu a cor e deixou de ser verde para ser outra coisa qualquer. Os jogadores trocavam agressões como quem troca cumprimentos, havia alfinetes escondidos e pistolas na cabeça. Um mundo ao contrário que um dia passou à porta da casa do Globito — nome dado por culpa de que um globo aerostático, que o célebre navegador argentino Jorge Newbery utilizara nas suas viagens, tinha o nome de Huracán — e teve vergonha de si mesmo. Porque ali, na casa do Huracán, de repente, o futebol argentino voltava a ser o que sempre tinha sido.

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Jornalista e escritor. Autor dos livros “NOITE EUROPÉIAS”, “SONHOS DOURADOS”, “SUEÑOS DE LA EURO” e “JOHA: A ANATOMIA DE UM GÊNIO”.Futebol e Política têm tudo a ver, basta conectar os pontos.O coração de menino ficou no minuto 93 da final de Barcelona.Estudou comunicação na Universidade do Porto e morou mais de uma década em Madri.

1 Comments

  1. eduardokaehlermeister

    abril 24, 2023

    Lindo o texto.. só faria algumas correções. O Huracán é alcunhado de ‘Globo’, e mui raramente, ‘Globito’. E há o apelido ‘Quemero’, graças à proximidade do Palácio Duco com a região onde se fazia a queimada do lixo municipal.

    Como histórico, o Huracán teve realmente seu primeiro – e único -título argentino profissional em 1973, mas teve seus momentos de glória no amadorismo dos anos 20, quando Stabile e Masantonio brilhavam, e levou o clube a ser chamado de ‘O Sexto Grande’ do futebol argentino, mesmo que Estudiantes, Velez, Argentinos Juniors, Rosario Central, e até o Ferro Carril Oeste tenham obtido mais sucesso futebolístico. Muito dessa grandeza se dá ao maior clássico de bairro do mundo, contra o San Lorenzo, sediado em Boedo – outrora parte de Almagro – vizinho de Parque Patrícios.

    Um grande abraço, e parabéns !

    Eduardo.

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