E o vestibular do futebol

Por Fernando Martinho

V

estíbulo é um pórtico que dá acesso à entrada principal de uma construção. Metaforicamente, é aquilo que leva a algo, invariavelmente.Tal como o vestibular, que é quando um adolescente passa a ser considerado adulto, a Copa do Mundo é onde se separam os meninos dos homens.

Isso tem muito a ver com o que a Copa do Mundo foi durante o século XX: um evento que conseguia contrastar as mais diferentes culturas e suas habilidades, técnicas, conhecimentos e, acima de tudo, suas diferenças. A Copa do Mundo era o momento de se provar internacionalmente o quão bom era um jogador, técnico ou time.

A partir dos anos 2000, a Champions League passou a gozar dos melhores jogadores do mundo. Antes, os clubes europeus formavam, no máximo, a base de uma seleção. Desde então, as seleções se tornaram bases de alguns times, como a Espanha e a Alemanha, que eram as bases de Barcelona e Bayern, respectivamente.

Mesmo assim, o Mundial perpetuou-se como o vestibular do futebol. Por mais Champions Leagues e Bolas de Ouro que Messi e Cristiano Ronaldo acumulem, uma atuação de gala em Copa do Mundo é exigida pela opinião pública mundial. Messi vive ainda à sombra de Maradona. Cristiano, à de Eusébio. Mas Diego Maradona não só fez o gol mais bonito da história das Copas, como também levantou o caneco naquele mesmo mundial e foi aprovado em primeiro lugar no vestibular do futebol.

Nesse choque de culturas, etnias e bandeiras em que a Copa do Mundo se converteu, muitos atletas ficaram para a posteridade graças a atuações em cinco, seis ou, no máximo, sete jogos. Não bastaram os dois gols na final de 1998, Zidane precisou gabaritar a prova em 2006 contra o Brasil para que sua qualidade fosse comprovada para queles que enxergam o mundo do futebol através da Copa do Mundo. Era o antepenúltimo ato da carreira de Zizou.

Por conta do que apresentaram em 1994, George Hagi e Michel Preud’homme ficaram na história do futebol com um tamanho desproporcional ao que fizeram em suas carreiras. Hristo Stoichkov e Romário subiram de patamar também no Mundial daquele mundial. O exercício a se fazer é pensar o que seria de Romário se o tetra não tivesse sido conquistado. Qual seria o tamanho do baixinho? Basta olhar para Roberto Baggio, que foi tão bem na prova: levou a Itália até a final nos EUA, mas errou a última questão. Aquela que elimina o candidato.

Quando uma seleção já tem uma estrela, o nível de exigência é muito maior. Apenas outra estrela lhe permite entrar pra galeria dos notáveis. Era o caso de Baggio e também de Messi. Zidane não precisou ganhar em 2006, pois ele já tinha vencido em 1998. Hagi, Preud’homme ou Stoichkov, tampouco precisaram erguer a taça.

Tal qual Messi esteve à sombra de Maradona, Zico esteve à sombra de Pelé. Não bastou honrar a camisa 10 em 1982, naquela que foi a melhor seleção brasileira pós-Pelé (e talvez de todo o sempre) a não vencer a Copa. Zico, além de fracassar na Espanha, teve uma última chance em 1986 e, assim como Baggio, foi reprovado.

Fernando Calazans, jornalista que testemunhou toda a carreira de Zico, uma vez perguntado sobre o fato de o Galinho de Quintino nunca ter vencido uma Copa do Mundo, respondeu espontaneamente que se Zico nunca venceu uma Copa, azar da Copa.

Essa frase foi repetida em defesa do ex-camisa 10 da Seleção e do Flamengo e, posteriormente, usada para enaltecer a grandeza de outros grandes jogadores a jamais terem vencido uma Copa do Mundo. Mas a grandeza da Copa se dá exatamente pela escassez. É um evento que acontece a cada quatro anos e isso torna o Mundial tão especial e único, onde falhar custa esse peso a se carregar para o resto da vida.

Mas há casos, como os de Hagi, Stoichkov e Preud’homme, de 1994, ou de Johan Cruijff, vinte anos antes, em que não precisaram passar em primeiro no vestibular. Bastou terminar ali, nas primeiras posições para conquistarem seus lugares ao sol, sobretudo por serem as estrelas dessas seleções jamais campeãs, mas cujas campanhas contaram com o impacto direto das atuações individuais desses jogadores.

É exatamente o que aconteceu com Eden Hazard. Um jogador que já havia demonstrado todo o seu valor pelo Chelsea, mas carregava o fardo de ser a estrela máxima da tal “Ótima Geração Belga” que não chegava a lugar nenhum. As eliminações para a Argentina, em 2014, e para o País de Gales na Euro de 2016 (ambas nas quartas-de-final), relegava o talento de Hazard a um nível comum. Até que, após uma classificação relativamente fácil e tranqüila na primeira fase da Copa do Mundo da Rússia, um susto nas oitavas-de-final contra o Japão quase sentenciou o fim da tal geração belga. A vitória colocou a Bélgica nas quartas e o adversário era o Brasil.

Era a prova final. Aquela que definia, que tinha peso maior na hora de somar os pontos e ver quem entrava e quem saía. Foram onze jogadas de mano a mano, duelo entre Hazard e o marcador. O belga ganhou todas. Não só ganhou, mas mostrou ao mundo aquilo que fazia a cada temporada na Premier League. Hazard deixou de ser um jogador superestimado pra ser um gigante das Copas, que mostrou igualmente o seu talento diante da França na semifinal, apesar da eliminação.

Hazard levou a Bélgica novamente a uma semifinal e, a partir de 2018, para que outro belga supere Hazard, não bastará conquistar uma Champions League ou vencer uma Bola de Ouro: terá de colocar os belgas novamente, no mínimo, entre os quatro melhores de uma Copa. Para o mundo, fica eternizado um jogador fantástico, daqueles que os filhos e netos de quem lê este texto saberão de quem se trata: “Aquele da Bélgica, camisa 10 na Copa da Rússia, Eden Hazard.”

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