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Facchetti, a Grande Inter personificada

Por Felipe Portes

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Real Madrid perdia mais uma vez o título europeu ao final da temporada de 1963/64. Quem vivia aquele momento sabia o quão era raro ver Puskás e Di Stéfano saírem de campo derrotados. Do outro lado, naquele histórico dia 27 de maio, estava a Internazionale, representante italiana e dona de um futebol tão defensivo e eficiente quanto os mais agressivos da Europa. Em Viena, no Praterstadion, o placar da final da Copa dos Campeões Europeus consagrou pela primeira vez a equipe interista e o estilo inesquecível do catenaccio de Helenio Herrera.

Dentre os escolhidos por Herrera para levar aquela retranca evoluída para o mundo, estava um lateral esquerdo que também podia ser líbero e atuar como atacante pelas pontas. Um rapaz magro, alto, com cabelo arrumado e feição de gentleman, daqueles que qualquer homem de bem apresentaria para a própria filha em uma sociedade antiquada e de valores conservadores. Giacinto Facchetti, na acepção da palavra, era um jogador completo. Além da ótima qualidade técnica, também serviu como líder em um elenco repleto de generais. Marcou época fazendo o que nenhum outro fazia no continente: ser um defensor com liberdade para subir até a linha de fundo.

A arma secreta de Herrera

Para um defensor passar da linha do meio-campo, era uma raridade, uma exceção de traço sul-americano, eternizada por Nilton Santos e Carlos Alberto Torres. Assim, um jogador europeu precisava mostrar ser possível ousar e agredir, ainda que em um esquema rígido e voltado para a defesa.

Facchetti comemora o título europeu sobre o Real Madrid

A experiência de Facchetti ter começado nas categorias de base do Zanconti e do Trevigliese como atacante foi utilizada como uma carta na manga para o lateral, a partir dos primeiros jogos como profissional pela Inter, único clube que defendeu, por dezoito anos, em sua carreira profissional. O sucesso e competência de Giacinto o levaram a representar a Azzura por quatorze anos, conquistando a Euro 1968 e participando de três edições da Copa do Mundo, entre 1966 e 1974.

Pela Inter, o jogador desfilou seu talento como titular a partir de 1962, mas, ao contrário de Javier Zanetti, o último grande capitão nerazzurro — também um lateral —, Facchetti viveu apenas um ano como o dono da braçadeira na Inter, justamente em sua temporada de despedida, em 1978. Menos do que ele merecia, certamente, porém tempo suficiente para que ele fosse lembrado como um dos mais icônicos capitães da agremiação milanesa.

O defensor é um dos maiores nomes da Internazionale

Os títulos e a participação de Facchetti foram cruciais na consolidação do time chamado “Grande Inter”, quatro vezes campeão italiano no período de uma década, contrastando com Milan e Juventus na luta pela soberania nacional. Fora da Itália, o bicampeonato europeu e intercontinental inevitavelmente representou o tempo mais glorioso da Inter, comandada por Helenio Herrera entre 1960 e 1968. Os contragolpes pensados pelo treinador só foram possíveis porque Facchetti dominava o campo e qualquer adversário que cruzasse o seu caminho.

Não bastasse todo o poderio ofensivo e a tendência ao desarme, Facchetti ainda marcava gols, muitos gols, fosse em cobrança de faltas, descidas surpresas ou jogadas aéreas: 75 tentos em 634 aparições, uma marca improvável para alguém que vinha da defesa.

Na Itália, não são só os interistas que veneram a longa carreira e a imagem de Giacinto. Apelidado de “Gigante Bom”, assim como o lendário atacante galês John Charles, que fez história pela Juventus, o lateral da Inter também foi um grande exemplo de personalidade, simplicidade e caráter. Foi expulso apenas uma vez em toda a sua trajetória, por reclamação. O respeito por Facchetti transcendeu qualquer fronteira possível dentro da rivalidade entre interistas, milanistas e até mesmo os juventinos.

Gigante para sempre

San Siro, 6 de maio de 1978. Contra o Foggia, a Inter se despediria de Facchetti, o capitão que todos aprenderam a amar. O técnico Enzo Bearzot ainda o queria para a Copa do Mundo da Argentina porém Giacinto disse não, por não se considerar física e tecnicamente bem para um torneio deste calibre. Emocionada, a torcida a Inter lotou o estádio naquele sábado para ver seu capitão uma última vez.

O herói, já em seus últimos anos de carreira

A vitória por 2 a 1 foi um bom plano de fundo para o adeus daquela tarde. Para os interistas, não havia muito mais o que almejar: o campeonato já estava nas mãos da Juventus e a quinta colocação da equipe nerazzurra não mudaria nem para melhor, nem para pior, dada a distância para Milan, em quarto, e Napoli, na sexta posição. Muraro e Scanziani anotaram os gols da Inter naquela histórica partida e o gol do Foggia foi de Facchetti, contra. Ninguém se importou. Naquele dia, era proibido vaiar o eterno camisa 3, que saía de cena para se tornar uma estrela da mais alta patente no coração dos torcedores.

Anos depois de servir como jogador, o capitão ocupou vários cargos na Inter, desde diretor esportivo a presidente, eleito em 2004. Mas ele não ficou muito tempo na função. Sofrendo com um câncer de pâncreas, Facchetti morreu em 2006, aos 64 anos, dois meses depois de ver a Itália romper com o jejum de 24 anos sem títulos mundiais. A lenda permaneceu, ampliando ainda mais a admiração pelo seu legado. O número 3 da Inter foi aposentado em respeito a Giacinto, um dos homens mais justos e vitoriosos que já fardaram pelo clube italiano.

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About The Author

Felipe Portes

Jornalista e estudante de Letras. Sonhava em ser Francesco Totti, mas acordou metamorfoseado no corpo de um beque de segunda divisão do Chipre.

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