Da punição ao charme

Como a Full Members Cup foi de tapa-buracos a uma das competições mais carismáticas do futebol inglês

Se hoje o futebol inglês é um sucesso dentro e fora de campo, sabe-se que este foi o resultado de um duro trabalho para que o esporte local saísse do buraco em que se afundou no fim dos anos 80. Esta reconstrução contou com reforma de estádios, combate ao hooliganismo e aprimoramento do produto futebolístico. Durante este período, um pedaço da história foi preenchido por uma competição alternativa local: a Full Members Cup.

Tudo teve início na tragédia de Heysel, quando 39 pessoas morreram devido a atos de hooliganismo protagonizados pela torcida do Liverpool. Tratava-se de uma final europeia contra a Juventus, ou seja, a partida mais esperada da temporada. Aquilo marcava o início dos dias negros do futebol inglês.

Logo após o acontecimento, a então Primeira Ministra, Margareth Thatcher pressionou a Football Association para que os clubes ingleses se retirassem voluntariamente de todas as competições europeias. O tempo em que a Inglaterra se isolaria do restante da Europa serviria para que pudessem adaptar novas medidas de segurança aos estádios do país e inserir novas regras de conduta para os torcedores. Mas antes que a FA agisse, a UEFA fez questão de sentenciar os clubes ingleses: ficariam de fora de todos os torneios internacionais por tempo indeterminado.

O espaço aberto no calendário foi o motivo para a criação da Full Members Cup — uma nova copa que abrangeria as equipes da primeira e da segunda divisão. Como as competições europeias tinham a participação de apenas seis equipes inglesas, a introdução de uma nova copa local acabou beneficiando muito mais clubes, fazendo com que circulasse mais dinheiro.

A ironia é que Arsenal, Liverpool, Manchester United e Tottenham nunca se interessaram por jogar a competição. Ou seja, o que inicialmente foi feito para os maiores clubes, que estariam de fora das competições europeias, acabou tornando-se uma taça carismática disputada entre os menores. Os menores de verdade, pois a League Cup já era vista como uma taça alternativa à Liga Inglesa e à FA Cup.

Chamada de Simod Cup (de 1987 a 89) e Zenith Data Systems Cup (de 1989 a 92) devido aos patrocínios, a Full Members Cup teve um charme à parte durante seus anos de existência. Entre seus vencedores, apenas os pequenos e medianos da época. As finais com placares cheios de gols e definições de título na prorrogação também ajudavam. Foi justamente essa a magia da competição:

1986: Chelsea 5-4 Manchester City
1987: Blackburn Rovers 1-0 Charlton Athletic
1988: Reading 4-1 Luton Town
1989: Nottingham Forest 4-3 Everton (Na prorrogação)
1990: Chelsea 1-0 Middlesbrough
1991: Crystal Palace 4-1 Everton (Na prorrogação)
1992: Nottingham Forest 3-2 Southampton (Na prorrogação)

Chelsea e Manchester City nada mais eram que dois clubes de poucas aspirações que saudavam seus antigos troféus. O Reading foi campeão em 1988 enquanto caía para a terceira divisão — tanto é que não pôde defender seu título no ano seguinte. Já os títulos do Nottingham Forest, que já vivia sua decadência, faziam com que os pedidos por Brian Clough na seleção inglesa voltassem a ecoar pelo país.

O torneio teve seu fim no ano de 1992, após os clubes ingleses serem reintegrados às competições europeias. A competição foi cancelada devido ao início da Premier League, que finalmente traria um novo modelo ao futebol local. Hoje, as taças inglesas são assistidas pelo mundo inteiro. Só não são mais vistas de perto por clubes como Blackburn, Reading, Forest e Palace.

Compre a sua Corner #7
Mantenha-se informado sobre nossos textos e produtos.
Assine a nossa newsletter.

Nome e sobrenome
Email