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Autor do livro e do filme El Otro Fútbol

Por Fernando Martinho

U

m livro de fotografias que virou filme. El otro fútbol é uma obra que provoca curiosidade e reflexão sobre o que é futebol. Federico Peretti mal sabe contar como começou seus trabalhos cinematográficos, deixou claro agir sob seus instintos e intuições, que foram sendo convertidos em técnica sem nunca ter estudado academicamente as artes visuais.

Foi na sua produtora, a Casa Kiev — que leva esse nome em alusão a sua câmera analógica com a qual produziu as fotos para o livro — o local da entrevista. A nova sede da empresa, que atende diversas grandes agências de publicidade da Argentina. Peretti falou sobre seus trabalhos que percorrem do Ushuaia à Macapá, do extremo sul da Argentina ao extremo norte brasileiro. Abaixo, um fragmento da entrevista.

Você tem mais referências na fotografia do que no cinema?

Fiz metade de uma faculdade de Comunicação Social e metade de uma de Letras. Estudei coisas que, embora estejam relacionadas à arte em algum ponto, não se aplicam a nada do que eu faço hoje. Claro que gosto do cinema e da fotografia, mas tem gente que me pergunta: “Onde posso estudar fotografia?” Nunca estudei nada disso. Comprei uma câmera, comecei a tirar fotos e é verdade que não fui bem no início. Mas aos poucos você vai aprendendo e absorvendo conhecimento dos outros. Tenho muitos amigos que estudaram fotografia e cinema. Todos eles me perguntam se eu vi aquele filme do Lars Von Trier, ou o último videoclipe do Michel Gondry. Acabo conhecendo porque sempre há alguma coisa do meu interesse nas indicações deles. Mas, como nunca tive o afã acadêmico, não vejo como aplicá-lo a meus trabalhos. Creio que meu aprendizado foi mais intuitivo. Mas, se fosse há alguns anos, teria gostado de estudar. Em termos de influência, não consigo pensar em quais seriam, justamente porque nunca tive as obrigações acadêmicas de ter que ver tal filme, tal foto ou tal cineasta. Tecnicamente, não deixa de ser uma deficiência, já que tardei mais tempo em aprender, mas, no final, não sei se é uma coisa que se ensina. Ou se enquadra bem ou se enquadra mal. Há grandes fotógrafos de agências, jornais e televisão que vão para o estádio e tiram fotos excelentes. Sabem que precisam capturar o momento da comemoração, do técnico, da torcida, do jogo. Mas eles não me parecem buscar a sensibilidade de visões mais artísticas das coisas.

O cinema brasileiro chega até você?

O que mais chega são as coisas mais comerciais como Cidade de Deus ou Carandiru. Quando estive no Brasil filmando os capítulos de O outro futebol, o pessoal da produtora Doble Chapa tinha uma pegada mais para documentários musicais. Mas entramos em total sintonia porque eles trabalhavam sob idéias e métodos que nós também adotávamos para buscar nossas histórias. Tive acesso aos documentários que eles fizeram, mas só os tenho porque eu fui para o Rio, fiquei na casa deles e eles me deram. Dificilmente teriam chegado a mim por outros canais. Tem sempre essa coisa de que parece que a América Latina é uma coisa e o Brasil é outra. O Mercosul funciona muito bem comercialmente, mas o intercâmbio cultural ainda é fraco. Durante os últimos anos, quando fui muitas vezes ao Brasil, conheci o trabalho de Raul Seixas e fiquei fanático! Mas pensei: “Poxa, tive que ir ao Brasil e foi preciso que alguém tivesse o disco do cara para eu conhecer. Como é possível que aqui chegue um Elvis Presley, mas não chegue um Raul Seixas?” Mesmo sendo países limítrofes, ainda há esse tipo de barreiras entre Brasil e Argentina.

Como publicitário, você chegou até mesmo a fazer uma filmagem com o Pelé. Como isso aconteceu?

Foi legal, aconteceu um pouco antes do Mundial. Fomos até o Rio gravar um comercial e foram quatro, cinco dias de filmagens que seriam feitas na Cidade de Deus. Fiquei entusiasmado por conhecer o lugar, ainda mais estando com outros brasileiros e não como um turista que faz esses roteiros turísticos das favelas. A filmagem com o Pelé foi por apenas uma tarde. Ele chegou de helicóptero, fez os takes que tinha que fazer e se foi. Nunca fui de tirar fotos pessoais com grandes figuras. Eu me contentei em estar ao lado dele, falando com ele. Mas foi bom ver que ele foi muito gentil com as pessoas que lhe pediam fotos ou autógrafos. Mesmo não gostando muito do caráter do Maradona, por exemplo, sempre vi o Pelé com aquela coisa “Pró-FIFA” e também pensava que ele era um filho da puta. Mas eu o vi tão velhinho, sorridente, com dificuldades para andar… Ele me pareceu bem simpático. Mas, claro, ele estava num contexto em que isso também poderia ser interessante para ele.

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About The Author

Fernando Martinho

Jornalista e publicitário. Estudou comunicação social na Universidad Nacional de La Plata. Para Martinho, não existe golaço de falta (nem aquele do Roberto Carlos em 97 ou de Petković em 2001). Aos 11 anos, deixou o cabelo crescer por causa do Maldini. À noite, ataca como DJ e nas horas vagas, caminha com cães.

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