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A história de Florin Piturca e a morte de Nicolae Ceaușescu

Por Tauan Ambrosio

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futebol é apaixonante por infinitas razões. É um amor passado de pai, mãe ou avós para filhos e netos. Em qualquer lugar do mundo, quem é apaixonado pela bola tenta passar para a sua cria o amor por certas cores, determinados cânticos e um só escudo. Cada um com a sua história, o seu time e sua realidade. Os sonhos e lutas também se fazem presentes, como em um episódio que tem como figura central o primo de Victor Piturca e seu pai.

Aconteceu em 1978. Florin Piturca tinha 27 anos e, apesar de não ter a mesma habilidade de Victor — campeão europeu com o Steaua Bucareste em 1986 —, era um atacante respeitado no Drobeta Turnu Severin, da segunda divisão romena.

Florin havia sido o grande herói da vitória por 2 a 1 sobre o Metalul de Bucareste, deixando o seu gol naquele encontro realizado em 10 de dezembro. Feliz, o atacante voltaria para a sua casa. Só que, no lugar da felicidade, veio o susto por um súbito mal-estar.

Talvez não parecesse ser algo muito grave quando ele ligou para a sua esposa e avisou que não estava bem. Mas certamente Florin não imaginava que aquela seria a última conversa com a sua companheira. O Piturca menos famoso e brilhante foi encontrado morto em um banheiro.

Como não poderia deixar de ser, o seu núcleo familiar sentiu o golpe. Principalmente Maximilian, pai de Florin. Tomado pela dor da perda, ele juntou as economias conquistadas como sapateiro e buscou uma maneira de ficar próximo do filho. O melhor atacante que o mundo já conheceu, deveria acreditar o progenitor, merecia ser eternizado no cemitério Dorobantia, em Craiova.

Uma estátua de bronze, em tamanho real, foi esculpida. E, desta forma, Florin ganhava a sua imortalidade. Parecia tão vivo que poderia até mesmo usar o pé direito para arrematar a bola, também feita em bronze e que passou a ser constantemente roubada por vândalos locais.

Maximilian, entretanto, não parou por aí. O seu luto foi eterno, e todas as noites ele deixava o trabalho para dormir dentro do mausoléu construído para o filho. Mas ainda seguia casado, e ao lado de Vasilica, sua esposa e mãe de Florin, buscava uma explicação lógica para descobrir como um atleta saudável pereceu de tal maneira. Como lhes negaram a autópsia do corpo, o casal buscou informações com outros jogadores do Drobeta. E descobriram que toda a equipe foi obrigada a beber um chá no intervalo da fatídica partida contra o Metalul.

A teoria, é claro, ficou centrada na presença de alguma substância ilegal na bebida. Até porque naquela época, Nicolae Ceaușescu, o então líder político da Romênia, estava obcecado para melhorar o desempenho de seus esportistas. A qualquer custo. Por isso, estimulou o teste de substâncias em atletas que não estavam no radar. A segunda divisão do futebol seria um laboratório perfeito para as “cobaias”.

Maximilian e Vasilica jamais perdoaram o ditador. E a história sobre a morte de Florin foi passando de boca em boca. Exatamente por isso, seria normal de se imaginar que tanto Maximilian quanto Vasilica poderiam correr perigo. Afinal de contas, nos 42 anos em que o ditador Nicolae Ceausescu esteve, de maneira absolutista, no poder, o terror era constante para quem não ‘andava na linha’. Perseguições, prisões e execuções faziam parte da rotina romena. No entanto, os pais de Florin já não tinham mais nada a perder. E se comportavam exatamente desta maneira.

Chegou a tal ponto, que em visita ao local, no ano de 1989, a filha de Ceaușescu, Zoia, ficou extremamente incomodada com a simples presença da estátua de Florin e deu ordens para que derrubassem a tumba.

Zoia, a filha de Ceaușescu

Nascida em berço de ouro e alimentada pelo poder, a filha do ditador não estava acostumada apenas em ver as suas vontades serem feitas: ainda sentia satisfação de fazer os mais frágeis abaixarem a cabeça – “assim, a pessoa tem mais chance de não tê-la cortada”, dizia um dos sombrios ditados populares da época.

Talvez tenha sido por isso que Zoia ficou sem ação quando, no momento em que ordenou a destruição da estátua, viu Maximilian sair do mausoléu. Destemido, ele chacoalhava o punho em direção à filha do ditador e amaldiçoou a família Ceaușescu: “Daqui um ano eu estarei de volta e vocês estarão mortos”. Tudo em vão. Mas na terra que inspirou a história de Conde Drácula, e na qual vampiros fazem parte do folclore local há séculos, é bom acreditar — e se proteger! — de qualquer tipo de maldição.

Nove meses depois de ter amaldiçoado a família Ceaușescu, o ditador foi capturado, julgado e executado por vários crimes. Dias antes, ele havia ordenado que a polícia atirasse nos manifestantes contrários ao seu regime. Mas o tiro saiu pela culatra, e Nicolae teve que fugir em um helicóptero desde o parlamento nacional enquanto o povo clamava pela sua cabeça. A imagem de sua morte, veiculada em TV’s nacionais e internacionais chocou alguns e deliciou outros – dentre eles, Maximilian e Visilica.

No ano seguinte, a estátua e o mausoléu de Florin Piturca foram reerguidos para Maximilian seguir passando as suas noites o mais perto que ele acreditava estar de seu filho.

Mas não há como driblar a morte, Florin jamais voltaria.

Talvez por isso, momentos antes de sua morte, em 1994, Maximilian não demonstrou tristeza. Pelo contrário. Os relatos de pessoas próximas dizem que o seu semblante mostrava até mesmo um certo alívio: “Há muito tempo espero esse momento. Estou muito feliz, pois em pouco tempo vou reencontrar o meu filho”. As palavras foram ditas no mesmo local onde Maximilian passou as noites nos 16 anos anteriores. Um local de luto, mas que ainda é prova viva de um grande amor.

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About The Author

Tauan Ambrosio

Jornalista formado na FACHA, acredita que o futebol, além de ser o melhor dos esportes, é palco para grandes lições sociológicas, históricas... e de vida. Árduo defensor de que 3 a 0 jamais será goleada, foi um goleiro promissor e hoje brinca de ser zagueiro esforçado.

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