O fatídico lado de fora da final da Copa Sul-Americana de 2017

Por Fernando Martinho

A

ntes da bola rolar e após o apito final, a área externa de um estádio é um lugar comum para torcedores. A expectativa prévia à partida e a euforia ou frustração depois do jogo são cenas conhecidas por jovens ou velhos torcedores. As brigas e confusões, os abraços, correrias, os gritos entoados por grupos que contagiam multidões ao redor do estádio, a cavalaria, os vendedores ambulantes, as crianças, os cambistas, os velhos, os policiais e seus escudos, os casais, o rádio do carro ligado até achar uma vaga pra estacionar e depois, no trânsito pós jogo; a galera descendo dos trens, metrôs e ônibus e correndo pra embarcar na saída. Tudo isso configura o imaginário e a realidade do lado de fora de um estádio numa partida importante, tipo uma final de Copa continental.

Mas existe um meio de campo, um hiato no espaço e tempo que poucos observam ou vivem. Quando todos conseguem entrar, durante pelo menos 90 minutos, o lado de fora do estádio, que estava tomado de gente, desaparece. Qualquer um só volta a pensar nele na hora de ir embora.

Foto: Fernando Martinho

O jogo de volta da final da Copa Sul-Americana entre Flamengo e Independiente marcou — definitivamente — uma nova era no futebol sudaca. A limitação de espaço sempre existiu, mesmo nos tempos que cabiam 250 mil pessoas no Maracanã. Se 300 mil torcedores quisessem assistir, fatalmente 50 mil seres humanos ficariam frustrados, não conseguiriam entrar e voltariam para as suas casas ou encontrariam algum bar perto.

Mas e se o seu lar ficasse a 3 mil quilômetros dali e você não pudesse entrar mesmo com o ingresso na mão? Quase duas centenas de argentinos não puderam entrar no Maracanã. A maioria não tinha ingresso, é verdade. Mas uma boa parte, sim, tinha. Ingressos do acesso D destinados à torcida do Flamengo, entregues pelo clube argentino através de seus dirigentes, que por sua vez receberam da Conmebol, segundo os relatos dos argentinos. Aqueles que não tinham ingressos contavam com a benevolência dos encarregados pelo controle do estádio que, em algum momento, os portões seriam abertos para os que relutaram e esperaram. A maioria desistiu. Restaram lá, até o final, algumas dezenas, por volta de cem hermanos.

Muitos choraram, outros brigaram, alguns se contentaram. O certo é que acabaram “assistindo” à final do lado de fora, com a percepção do jogo pautada na reação da torcida dentro do Maracanã. Alguns se animaram a seguir o canto da torcida, outros não conseguiam entender o que estava acontecendo e tentavam entrar no estádio de alguma maneira, insistindo incansavelmente.

Do lado rubro-negro, muitos foram até o estádio na esperança de conseguir ingressos. Alguns foram com a clara e manifesta intenção de invadir. Outros, no entanto, estavam ali de prontidão para se beneficiar de quem conseguisse vazar o sistema de segurança.

Foto: Fernando Martinho

A polícia e a guarda municipal brincavam de paintball. Nitidamente, dava pra ver um sorrisinho ou outro nas caras dos policiais debaixo dos capacetes ao fazer a multidão correr ou sofrer com gases. As armaduras trajadas mostravam a discrepância de poder. Garrafas de vidro arremessadas por alguns dos torcedores eram a principal ameaça aos cidadãos que ali circulavam, pois jamais causariam nenhum dano aos policiais. Bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e spray de pimenta eram lançados como se os recursos do — falido — Estado do Rio de Janeiro não fossem escassos.

Foto: Fernando Martinho

Culturalmente acostumados a comprar ingressos em dias de jogo, ou a formar filas nos dias que antecedem às grandes decisões, os torcedores — cariocas pelo menos — estranham o sistema de sócio-torcedor que prioriza os aderentes dos planos mais caros. Essa é uma outra discussão não menos importante, mas que também justifica os distúrbios desta final. Uma grande fatia de torcedores mais pobres são excluídos, sendo substituídos por outros seguidores do time, com poder aquisitivo mais alto  e que paga — no cartão de crédito — a semestralidade ou anuidade do plano de sócio-torcedor, numa espécie de “pista-vip” do futebol, afastando fãs, muitas vezes, mais apaixonados e, dessa forma, acaba aproximando, quase sempre, aquele que pode pagar mais, mas não necessariamente tão fanático.

Fanáticos, sem dúvidas, eram os hinchas do Independiente. Ainda mais esses que viajaram sem ingressos e acabaram AFUERA.

Foto: Fernando Martinho

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