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Do milagre à vergonha

Uma revanche que virou camaradagem.

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Livraria FC
Por
Guilherme Jungstedt

A segunda fase de grupos do Mundial de 1978 chegava a sua última rodada. Os atuais campeões da Alemanha Ocidental tentariam progredir na competição contra a já eliminada Áustria, que chegava a Córdoba depois de perder para a Itália em Buenos Aires. Apesar da falta de aspirações no torneio, os austríacos tinham motivações históricas para o jogo: jamais haviam vencido a Alemanha desde que o país conseguiu dissociar-se do Reich. Poucas vezes a história do futebol registrou tamanho empenho num time que jogava apenas para cumprir tabela.

A improvável vitória da Áustria por 3 a 2 não apenas eliminou a Alemanha como também resgatou o orgulho da população do país. Após o gol da vitória, o narrador Edi Finger esgoelava-se para transmitir ao mundo o sentimento que refletia o espírito de boa parte dos austríacos na ocasião: “I wer’ Narrisch!” [em tradução livre, algo similar ao brasileiríssimo “Ah, eu tô maluco!”]. Na Áustria, a frase tornou-se um mantra e, no folclore futebolístico local, a heroica partida passou a ser lembrada como O milagre de Córdoba.

Quatro anos mais tarde, na Espanha, os dois países voltavam a disputar uma edição de Copa do Mundo. Coincidências à parte, Áustria e Alemanha Ocidental caíram no mesmo grupo, junto com Chile e a debutante Argélia. A estréia dos bicampeões mundiais aconteceria justamente contra o time africano.

Ninguém esperava por surpresas. Afinal, os experimentados alemães enfrentariam uma seleção que participava da competição pela primeira vez. Era improvável que um estreante africano causasse problemas a um time que não parecia estar disposto a cometer os mesmos erros do Mundial passado. Tamanha confiança deu lugar a discursos absortos em arrogância. O goleiro Toni Schumacher chegou a dizer que a Alemanha marcaria entre “quatro a oito gols, só para aquecer.” Ele não foi o único alemão tomado pelo oba-oba. “Se perdermos essa partida, tomarei o primeiro trem de volta pra casa.” — dizia o jactante treinador Jupp Derwall.

Os gols de Rabah Madjer e Lakhdar Belloumi decretaram a vitória da Argélia por 2 a 1, transformando o pedantismo alemão em chacota mundial. Na outra partida do grupo, a Áustria derrotava o Chile por 1 a 0. Na segunda rodada, os alemães superaram a vergonha da estréia após um inapelável 4 a 1 sobre os sulamericanos. A Argélia, no entanto, foi derrotada pelos austríacos por 2 a 0.

As vagas do grupo seriam decididas na última rodada. A Argélia fez sua parte e venceu o eliminado Chile por 3 a 2, tornando-se o primeiro time africano a vencer duas partidas em uma Copa. No dia seguinte, Alemanha Ocidental e Áustria se enfrentariam já sabendo os resultados que precisavam para avançar. Para os austríacos, bastava um empate ou uma vitória simples. Mas um triunfo alemão por até dois gols de diferença poderia levar os dois rivais para a próxima fase.

O início avassalador da Alemanha — abrindo o marcador logo aos 11 minutos — sugeria uma disputa de alto nível. Mas o que se viu durante os 79 minutos seguintes esteve longe de ser um embate sangrento permeado por componentes históricos e revanchistas do Mundial anterior. Ao contrário, os dois times emanavam camaradagem com sonolentos passes de lado e desinteressadas tentativas de chegar ao gol adversário.

Quando percebeu a apatia das equipes, Eberhard Stanjek, narrador da ADR (TV pública alemã), recusou-se a prosseguir com o relato da partida, deixando seus telespectadores apenas com as imagens e as inflamadas vaias e protestos do público presente. Espanhóis rogavam para que os times se retirassem de campo; argelinos exibiam notas, sugerindo a armação do resultado. O apito final concretizava a vitória da Alemanha Ocidental pela contagem mínima, ao mesmo tempo em que garantia os dois times na seqüência da competição, eliminando a Argélia.

Em 52 anos de Copa do Mundo, jamais havia ocorrido situação semelhante. Graças a este embaraçoso insulto à inteligência dos torcedores e à própria prática esportiva, a FIFA estabeleceu que cada grupo teria os jogos de sua última rodada disputados simultaneamente.

O caso ficou mundialmente conhecido como A vergonha de Gijón e, apesar das insistentes negativas de alemães e austríacos sobre qualquer tipo de arranjo, o jornal espanhol El Comercio deu à partida o merecido tratamento. Publicou a crônica do jogo em sua seção destinada a ocorrências criminais.

 

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