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O título da Copa Sul-Americana que ninguém esquecerá

Por Fernando Martinho

E

xistem histórias como a do Leicester. Uma fábula que — de tão impossível — não há como não se render ao seu charme. Emociona lembrar a maneira como o time foi avançando a cada rodada, contradizendo qualquer prognóstico, quebrando qualquer casa de aposta, o impossível havia acontecido diante dos olhos de todos.

No mesmo ano que Leicester emocionou o mundo, um outro time surgia numa competição com uma reputação muito menor. Um time do sul do Brasil, do oeste de Santa Catarina, começava a subir degraus improváveis. Qualquer um olhava e dizia, “daqui a pouco aparece um grande e acaba com a farra deles”.

A começar pela maneira como os clubes brasileiros se classificavam para a disputa da Copa Sul-Americana, o que já diminui bastante o status da competição, os times jogavam sempre de maneira um pouco desleixada, deixando a sorte dizer se valia à pena ou não imprimir maiores esforços. O primeiro confronto da Chapecoense foi contra o Cuiabá, time campeão da Copa Verde, competição que envolvia os clubes da região Centro-Oeste e Norte do Brasil.

Para se chegar até ali, era preciso também ser eliminado da Copa do Brasil (!) antes da quarta fase da competição. Após o triunfo sobre o time matogrossense, o adversário era então alguém de calibre internacional. Um clube com reputação continental inigualável até aquele momento. Apelidado como Rey de Copas, o Independiente detinha sete Copas Libertadores em sua sala de troféus. Quando a Chapecoense foi fundada, em 1973, El Rojo de Avellaneda ganharia sua quarta Libertadores, e ainda acumularia outras duas nos dois anos seguintes, e a sua última em 1984 — a essa altura o clube de Chapecó tinha conquistado apenas um campeonato catarinense, em 1977.

Dois empates a zero, disputa por pênaltis. Deu Chapecoense. Sorte de principiante. Era a primeira competição continental do clube. Veio então um adversário sem tanto prestígio internacional, mas era a primeira grande viagem na América do Sul — afinal, Buenos Aires é logo ali. Destino Colômbia.

A posição sempre confortável na tabela do campeonato brasileiro permitia que a Chapecoense focasse na negligenciada competição sul-americana — pelo menos por parte dos clubes brasileiros. A derrota no jogo de ida anunciava um — falso — alarme que despertaria de um sonho. Mas veio a volta na Arena Condá, e um contundente 3 a 0 levou a Chapê às semifinais da Sul-Americana. O Coritiba era o outro brasileiro na competição até ali, mas fora eliminado pelo Atlético Nacional naquela mesma fase. Flamengo e Santa Cruz sequer passaram das oitavas de final.

Agora sim. Semifinal. Por menos almejada que seja a competição, invariavelmente as atenções se voltam para o torneio. Querendo ou não, trata-se de um título continental. E, o mais valioso, a vaga na Copa Libertadores do ano seguinte, o grande prêmio dessa conquista. Mas justamente o San Lorenzo — que ficou conhecido mundialmente por ser o time do Papa Francisco — era o oponente. Cauteruccio abriu o placar no Nuevo Gasómetro. Porém, Ananias empatou. O empate no jogo na Argentina contagiou e inflamou a torcida do jovem clube catarinense.

Na partida de volta, estádio totalmente tomado. Uma energia incrível. Um jogo parelho, com oportunidades dos dois lados. O San Lorenzo precisava fazer um gol para tirar a vantagem que o gol fora de casa marcado pela Chapecoense dava, em caso de um empate por zero a zero. O tempo passava. Lentamente para a Chapê, e muito rapidamente para os Cuervos. Final do segundo tempo. Placar intacto.

Veio então, aos 48 minutos e 30 segundos da segunda etapa, a defesa do goleiro Danilo ficou eternizada na narração de Deva Pascovicci do canal Fox Sports. “Que o espírito do Índio Condá esteja com você agora, Danilo! [Bola cruzada] Olha o lançamento, a bola chegou, tentou, Danilo! Danilo! Danilo! Foi o Condá. Foi o espírito de Condá que salvou essa aí. Coloccini, Danilo! E espírito de Condá estava com você agora, Danilo. Meu Deus! Reveja a jogada do herói Danilo que com o pé direito salvou o time como já salvou em outras oportunidades. Vai acabar o jogo! [49’07″de jogo] Não foi agora, não vai ser mais. Pode acabar, seu juiz. A-CA-BOU! Como é rica a história da Chapecoense.

Acabou o jogo. Zero a zero. Chapecoense finalista da Copa Sul-Americana. Sonhar a essa altura era o mesmo que ser realista. Vivia-se aquela ilusão intensamente de maneira bem desperta. Mas o outro finalista era ninguém menos que o Atlético Nacional, campeão da Copa Libertadores daquele ano. Mais uma vez, a Colômbia era o destino.

O avião fretado levava toda a delegação do time, além de jornalistas e equipes de reportagens que cobriam o clube. Naquela quarta-feira, na finalíssima do torneio, o estádio estava repleto. A torcida rival teve de se curvar à linda história de um modesto time que sonhou enquanto pôde. Chapecoense campeã da Copa Sul-Americana e classificada para a Libertadores. Uma linda história. Um triste fim. Uma história e uma Copa sem final.

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