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A descentralização do futebol alemão explicada

Por Miguel Lourenço Pereira

Éraro encontrar grandes capitais sem equipas de futebol à sua altura. Habitualmente é precisamente nos grandes centros políticos que se encontram os clubes mais fortes de cada país. A Alemanha é uma excepção. Não só Berlim nunca teve um grande time à altura da urbe como nos anos da República Federal o futebol passou completamente ao lado do dia a dia da capital de então do país, Bonn.

Com o rio Reno passeando tranqüilamente a seu lado, Bonn cresceu como uma cidade vetusta e de prestígio mas, como tantas outras da fronteira occidental alemã, presa no anonimato. O final da II Guerra Mundial mudou radicalmente o dia a dia quotidiano dos seus cidadãos. O país, invadido ao mesmo tempo por quatro exércitos, foi dividido em partes iguais. Um jogo de tronos se estabeleceu na geografía alemã. Os soviéticos ocuparam de imediato um imenso bocado de terra ao leste e de aí sacaram da manga um novo país, a República Democrática. Para responder a essa jogada — que tinha tudo de política e nada de nacionalista — os alemães lograram persuadir aos Aliados responderem da mesma moeda. Em 1949 nascia, oficialmente, a República Federal da Alemanha, o país que resgatava das cinzas a velha Alemanha que Hitler tinha precipitado para a guerra mundial.

Na prática, a nova constituição do país reconhecia Berlim como capital mas havia um importante contratempo. A cidade era um enclave — também ela dividida em duas — dentro da República Democrática e sem contacto, salvo pelo ar, com o Ocidente. Como isso tornava, na prática, impossível que o governo se deslocasse para o coração do território inimigo, era necessário criar uma capital alternativa. A sorte calhou a Bonn. Nos trinta anos seguintes seria aí que o futuro do país e em grande parte da Europa seria decidido. Já o futebol alemão, a caminho da hegemonia continental, seguiria por outro curso.

A princípio, ninguém estranhou a ausência de um grande clube na cidade.

Eram os dias do futebol amateur num país que tardava em reconhecer o poder do profissionalismo. O “Milagre de Berna”, a conquista do Mundial de 54 na vizinha Suíça, tratou apenas de disfarçar a situação. O futebol alemão continuava atrasado em relação aos seus vizinhos. Os clubes eram geridos de forma amadora, os melhores jogadores abandonavam o país em troca de chorudos salários na Itália e a falta de competitividade da equipa nas recém-criadas provas europeias deixava claro que havia muito trabalho a fazer. Só em 1963 todos se puseram finalmente de acordo para criar uma liga profissional nacional, a Bundesliga. Em Bonn tomavam-se as decisões políticas mas não as desportivas. A urbe contava com dois clubes amadores, o Tura Bonn e o Bonner FV, nenhum deles com expressão regional.

Dois anos depois da formação da Bundesliga, várias personalidades da cidade acharam necessário criar uma equipa que estivesse à altura da mesma a nível nacional. Os dois emblemas fusionaram-se num só, o Bonner SC. O seu destino seria o de travar-se de igual para igual com os grandes do futebol alemão, um pouco como mais tarde surgiria com o Paris Saint-Germain, um clube criado a partir de uma hábil manobra de marketing para devolver a Paris o protagonismo perdido para os clubes regionais no conturbado futebol francés. A jogada tinha tudo para dar certo. Em Bonn havia dinheiro e com o dinheiro chegavam os patrocinadores. A existência de um máximo salarial prometia o equilíbrio e o Bonner, ainda a actuar nas ligas regionais, parecia ter tempo para aproximar-se da elite. A realidade acabou por ser radicalmente distinta. Pouco tempo depois de formar-se o clube começou a sentir as primeiras dificuldades.

A maioria dos habitantes de Bonn, pouco habituados a ter um clube de elite, já tinham proclamado o amor eterno típico do adepto a clubes vizinhos, essencialmente o FC Köln, uma das grandes formações da década. O Bonner nunca conseguiu sair da sua sombra. No início dos anos 70, o escândalo de corrupção da Bundesliga levou à total liberalização do campeonato. Todos aqueles que ambicionavam competir na elite já se encontravam nela, essencialmente Bayern München, Borussia de Mönchengladbach e de Dortmund, Köln, Hamburger SV e o Stuttgart. Os poucos escudos que conseguiram encontrar um lugar ao sol – como o Leverkusen ou Wolfsburg – foram sempre à custa do importante apoio de empresas.

Durante quase vinte anos o Bonner SV tentou sem sucesso entrar nos campeonatos nacionais mas nunca passou de disputar os torneios da Westfalen Ocidental. A cidade, repleta de burócratas, não parecia afinal ter tempo para dedicar-se ao lazer, e era o basquete — mais do que o futebol — o que parecia entusiasmar mais os políticos e administrativos que mudavam radicalmente o ritmo de vida de Bonn numa capital sem alma mas com dinheiro. O futebol continuou a florescer na região mas a ritmos distintos e o Bonner, como um qualquer Dom Quixote, continuou igualmente a combater moinhos de vento. Nos anos 80 a cidade era a única capital, entre os países da Europa, a não contar com uma equipa nos campeonatos profissionais, um fenómeno único que espelhava bem o seu carácter particular.

Com a queda do Muro de Berlim a cidade perdeu o seu sentido de vida. A capital voltou a Berlim, Bonn ficou presa numa profunda crise económica e de identidade e o Bonner caiu ainda mais no esquecimento, acabando por desaparecer em 2010 pelo acumular de dívida. Não foi o único clube da região a sofrer, já que os seus vizinhos do Köln e do Fortuna Dusseldorf não voltaram nunca mais a sentir-se equipas de elite no país. Apesar da mudança da capital para Berlim, as oscilantes campanhas do Hertha – maior clube da cidade – continuam a fazer do futebol alemão um caso sui generis. Se a Inglaterra tem em Londres várias equipas de elite, se as equipas de Roma, Madrid, Lisboa, Atenas, Istambul, Estocolmo, Varsóvia, Viena, Bruxelas e Moscovo são perfeitos representantes da importância de ser-se capital no futebol dos seus países, na Alemanha tudo gira em sentido inverso. E nenhuma cidade entende melhor essa singularidade do que Bonn, a capital sem futebol.

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