Bayern versus Nazismo

A grandeza oculta do clube bávaro

Ilustração: Valter Vinicius Costa
Livraria FC

A grandeza oculta do clube bávaro

Por Guilherme Jungstedt

Para muitos torcedores alemães, o FC Bayern representa toda a arrogância do mais pitoresco caráter bávaro. Diz a lenda nacional que os habitantes da Bavária são demasiado rudes e orgulhosos, simplesmente porque pertencem àquelas porções de terras ao sul do país. Generalizações à parte, não foi exatamente o suposto orgulho ariano – propagado por rivalidades regionais – que levou o FC Bayern a ser o gigante que é hoje.

Nascido em uma família de comerciantes judeus, Kurt Landauer chegou a jogar nas categorias de base do clube, mas abandonou a prática do futebol para estudar economia na Suíça. De volta à Alemanha, elegeu-se presidente do Bayern de Munique em 1913. Seu plano era instaurar a profissionalização do futebol no país, apesar da forte resistência da maior parte das agremiações esportivas, que temiam a perda de força regional. Felizmente – para estes últimos – Landauer renunciou ao posto para defender o país nos frontes de combate da Primeira Guerra Mundial

Kurt não apenas sobreviveu ao conflito como também reassumiu, em 1919, o posto que havia deixado anos antes. Sua volta ao cargo máximo do clube não agradou a todos, naturalmente. Enquanto a maior parte do quadro de associados do Bayern clamava pela construção de um novo estádio, o presidente fez valer seu comando em favor de sua proposta pessoal de investir no time. Sob a égide da profissionalização, o clube evolui ao longo da seguinte década com triunfos nas divisões regionais que disputava. O título nacional era uma questão de tempo – ele chegou em 1932, depois de uma vitória por 2 a 0 sobre o Eintracht Frankfurt.

Confiantes de que poderiam defender o título no ano seguinte, os campeões ignoravam por completo as intervenções planejadas pelo vindouro governo alemão liderado por Adolf Hitler. O Nationalsozialismus foi o belo nome por trás de uma das mais hediondas maneiras de se expressar a humanidade.

O nazismo impôs a exclusão de judeus de todos os setores da sociedade e a purga também se estendeu aos clubes e federações esportivas. Estas, agora não passavam de departamentos do Deutscher Reichsbund für Leibesübungen, uma espécie de comitê nacional para a educação física. Por Hitler, a profissionalização do futebol era tida como uma conspiração judaica e os clubes deveriam ser mantidos em condições amadoras. Um décimo da população judia alemã (40 mil pessoas, aproximadamente) estava envolvida com os esportes do país na época. Com a pecha de “clube judeu”, o Bayern de Munique foi um dos poucos clubes a manifestar contrariedade com a situação. Mas em campo, sofria um processo de queda livre, suavizado por pequenas glórias em torneios regionais. Seu rival Munique 1860, por outro lado, recebia irrestrito apoio do Reich.

Depois de ver-se obrigado a renunciar à presidência do Bayern pela segunda vez, Kurt Landauer também acabou demitido de seu cargo de chefia na editora Knorr & Hirth e foi trabalhar em uma lavanderia de propriedade judia. Apesar da ainda significativa presença de judeus na sociedade germânica, a tolerância nazista tinha data para acabar. Em Paris, o assassinato do diplomata alemão Ernst von Rath pelo judeu polonês Herschel Grynszpan foi o estopim para medidas mais efetivas a favor da macabra Endlösung (Solução Final).

No dia 9 de novembro de 1938, paramilitares nazistas vestidos à paisana foram responsáveis por uma noite de terror e destruição a sinagogas, redutos comerciais e lares judios. Pela quantidade de estilhaços resultantes das violentas ações, aquela noite ganhou o nome de Kristallnacht (noite de cristal). Milhares de judeus foram capturados, mortos ou feridos. No dia seguinte, foi a vez de Kurt Landauer rodar para os antissemitas. Ele e alguns de seus familiares foram enviados à cidade medieval de Dachau – o primeiro campo de concentração nazista.

Depois de um mês de pavor e desesperança, Landauer recebeu sua alforria depois de perceber um surpreendente traço humanitário nos representantes do Reich: ele seria libertado graças aos serviços prestados à Alemanha durante a última grande guerra. No ano seguinte, emigrou para a Suíça. Seus familiares terminaram seus dias em Dachau.

Quis o destino que a última partida jogada sob o nazismo fosse justamente o clássico entre Bayern e Munique 1860, com vitória por 3 a 2 a favor dos vermelhos. Landauer voltou do longo exílio para assumir a presidência do clube pela terceira vez, até o fim de seu mandato, em 1951. Faleceu dez anos depois, sem poder ver a criação da Bundesliga trazendo sua sonhada profissionalização do futebol. Mas por muito tempo, sua história foi ignorada.

O eterno ídolo Karl-Heinz Rumennigge afirmou jamais ter escutado o nome de Landauer enquanto jogava pelo clube. No entanto, já aposentado como jogador, aceitou o convite para uma visita a Duchau e hoje demonstra o devido respeito ao ex-presidente, levando outros ídolos históricos do time a fazerem o mesmo. A tal arrogância do caráter bávaro parece cada vez mais distante. A própria torcida passou a se afeiçoar do passado judio do clube e também expressou suas homenagens àquele homem que, acima de qualquer coisa, amou e lutou pelo Bayern.

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