L’ultimo regista

A mutação de Andrea Pirlo

Ilustração: Éric Chinaglia
Livraria FC

A mutação de Andrea Pirlo

Por Fernando Martinho

Regista, é a palavra em italiano para aquele que rege; na orquestra, é o maestro ou, justamente, o regente. Mas regente tem uma conotação mais governamental e imperial do que artística em português. E é sobre um artista, ou melhor, aquele que faz futebol parecer arte, que este texto fala.

Pirlo é daqueles jogadores que parecem não envelhecer. Que já iniciam suas carreiras como veteranos. Muitas vezes, são criticados. Parecem sem sangue. Sem a famosa raça, que remetem a Didi, daqueles que não sujam os calções de barro e fazem a bola correr. Devem se perguntar: “Pra quê dar um carrinho?”

Andrea Pirlo surgiu no Brescia e, em 1998, sua técnica exuberante o levou para a Internazionale que, para retomar as glórias de outros tempos, comprava todos os talentos que via pela frente no final dos anos 90 — Ronaldo e Recoba ilustram bem esse desespero de Massimo Moratti. Pirlo esbarrou com jogadores que atuavam na mesma posição que a sua (Roberto Baggio, Youri Djorkaeff e o próprio Álvaro Recoba). O elegante meia ficou sem espaço.

A instabilidade na Inter o levou a ser emprestado. Primeiro foi para o sul da Itália. Ficou uma temporada (1999/2000) na Reggina e jogou bem. Voltou à Inter e, novamente, ficou sem espaço. Jugovic havia chegado do Atlético de Madrid e era homem de confiança do então treinador Marcello Lippi, pois já haviam trabalhado juntos na Juventus multicampeã, anos antes. Clarence Seedorf também foi contratado e assumiu a camisa 10, deixada por Roberto Baggio, que se transferiu para o Brescia.

No início de 2001, sem muitas oportunidades, foi emprestado ao Brescia, seu clube de origem. Lá se reencontrou com Baggio, que vestia a camisa 10 e ocupava sua posição. Foi quando o experiente técnico Carlo Mazzone mudou a carreira de Pirlo para sempre.

Tendo dois jogadores para a mesma função de trequartista, Mazzone decidiu recuar Andrea Pirlo. Ele foi o responsável por tornar o meia ofensivo em um deep-lying midfielder (um organizador de jogo recuado), dadas as qualidades técnicas de passe e lançamento do jogador. O Brescia saiu da disputa contra o rebaixamento para uma confortável sétima posição, com a talentosa dupla Baggio-Pirlo.

Na temporada seguinte, o arquirrival Milan decidiu contratar o  jogador em um troca-troca controverso, com valores adulterados à italiana. Pirlo já chegava como “cabeça de área” e, com Carlo Ancelotti, atingiu um nível World Class.

Pirlo, Gattuso, Seedorf e Rui Costa — e depois, Kaká

Desta vez, sem disputar espaço com Seedorf — que também chegou da Inter um ano mais tarde —, formou ao lado do holandês e de Rui Costa um meio-campo histórico no Milan, marcado pela técnica e bom passe. O trabalho sujo ficava a cargo de Gattuso.

“Andrea demonstrou todo seu talento e valor. Quando jogamos juntos, tudo começava com ele. Ele sempre tinha o grande dom de visualizar e antecipar as jogadas antes de todos. A visão dele, o que ele pode fazer com a bola e sua criatividade fazem dele uma verdadeira super-estrela. Andrea tem algo que não se vê todo dia.” — Roberto Baggio sobre Pirlo em 2007.

Ainda sem Kaká, o Milan venceu a Champions League de 2003 na final contra a Juventus, em Manchester. Após a chegada do brasileiro, os Rossoneri dominaram o futebol europeu, chegando novamente à final da Champions em 2005, quando perderam para o Liverpool — naquela incrível final de Istambul — e em 2007, conquistada justamente contra os Reds, em Atenas.

Em 2006, veio a Copa do Mundo e, com a seleção, coroou-se campeão mundial — título que a Itália não conquistava desde 1982. Pirlo ganhou o apelido de Metrônomo, devido à maneira como controlava o tempo de jogo. Sabendo quando era para se fazer lançamentos mais agudos ou passes curtos.

O Milan foi se deteriorando com o passar do tempo, implacável com todos os seres humanos. Os craques que lá jogavam envelheciam, caíam de rendimento ou se aposentavam. Kaká foi vendido ao Real Madrid; Maldini, grande ídolo e capitão do clube, se aposentou. Uma crise institucional, financeira e esportiva começava a assolar o clube de Milão.

Ibrahimovic, Ronaldinho, Alexandre Pato, Robinho — e até Beckham —, em diferentes momentos, foram as últimas apostas de um Milan estelar, que ainda conquistou um Scudetto na temporada 2010-11. Foi a sinfonia derradeira da orquestra que teve Pirlo como seu grande regente.

Andrea Pirlo, que quase não jogou na sua última temporada pelo Milan, decidiu em mútuo acordo não renovar com o clube e migrou para a Juventus. O que parecia uma aposentadoria de luxo, em um grande clube, foi, na verdade, a penúltima obra desse grande regista.

Na Juventus, Pirlo se tornou uma referência novamente. Ditava o ritmo dos jogos de um time que estreava seu novo estádio e queria voltar a reinar na Bota. Desde que teve seu título cassado em 2006, a Vecchia Signora viu Inter e Milan dominarem o calcio. Pirlo não apenas levou a Juventus de volta à glória, como exibiu — talvez — seu melhor futebol.

Sem jogadores de renome a seu lado — tendo apenas um promissor Pogba e Carlos Tévez à frente — Pirlo conquistou quatro campeonatos italianos e uma Copa Italia. Durante as quatro sublimes temporadas, conseguiu conduzir o time até a final da UEFA Champions League de 2015.

Após a Juventus, Pirlo recebeu uma proposta para jogar na promissora e crescente liga norte-americana, a MLS, pelo recém fundado New York City. Os cruzamentos e passes continuaram os mesmos. Sempre brilhantes. Não importa o palco, nem o país, nem a orquestra. Pirlo.

A idade parecia não afetar Pirlo. Desde jovem, seu ritmo era o mesmo. A palavra mais usada ultimamente no futebol por especialistas em tática, a tal “intensidade” era o antônimo de Andrea Pirlo. Ele duelava com a intensidade sem nenhum medo de perder. Colocava a intensidade no bolso. Controlava os tempos como nunca, lançava e dava passes precisos como sempre. Foi na Juve que recebeu a alcunha de Arquiteto.

Pirlo era o responsável artístico e técnico de uma obra audiovisual que podia ser cinematográfica, televisiva, de um videoclipe musical, ou de um documentário. Dirigia aos atores e coordenava o set, controlando o trabalho dos colaboradores e dirigia as imagens e enquadramentos. Um perfeito regista.

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