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Um gol tardio adiou um sonho, mas não impediu a evolução japonesa

Por Wladimir de Castro Rodrigues Dias

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futebol japonês vem conquistando uma reputação desde o início da década de 90, com a chegada de Zico e a aposta na contratação de craques, sobretudo brasileiros, como Amoroso, Leonardo e Edílson. O Galinho de Quintino levou consigo holofotes: mesmo já veterano, ainda teve tempo de dar contributo inestimável, ajudando, inclusive, na formação da J. League, o que ocorreu em 1992. Foi nesse momento, contudo, que a Seleção Japonesa sofreu um dos mais duros reveses da história do futebol. O palco? Doha.

Era o final de outubro de 1993 e as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994 se encaminhavam para o término. O Japão enfrentava o Iraque em busca do inédito: nunca havia disputado um Mundial. Estava a uma vitória de seu objetivo e tudo ia bem. Líder, era seguido de perto pela Arábia Saudita e tinha, à espreita, Coreia do Sul, Iraque e Irã, todos com chances de avanço. Porém, até mesmo um empate poderia classificar os japoneses, já que possuíam o melhor saldo de gols.

Existia também todo um contexto político por trás da competição. Irã e Iraque, que ainda tinham chances de classificação tinham contra si impostas sanções pelos Estados Unidos da América, que sediariam a competição no ano seguinte e não era certo se seria permitido às nações a disputa do certame, em caso de classificação. Para conter possíveis animosidades nas partidas decisivas, haviam sido escalados árbitros europeus de indiscutível experiência. No entanto, nada disso acabou lembrado, simplesmente porque nenhum desses países avançou.

Rolou a bola. Os campeões da AFC Asia Cup de 1992, sob a batuta do holandês Hans Ooft  — o primeiro estrangeiro a dirigir a Seleção Japonesa — haviam saído na frente logo aos cinco minutos, com gol de Kazu, velho conhecido das torcidas de Palmeiras, Coritiba e Santos, para nomear apenas alguns do clubes pelos quais passou em território brasileiro. O atacante aproveitou bola que ressaltou na trave após finalização de Kenta Hasegawa e cumprimentou as redes.

Aos nove da etapa final, Radhi Shenaishil empatou, mas Masashi Nakayama devolveu aos japoneses a liderança no placar aos 35, aproveitando lance do nipo-brasileiro Ruy Ramos. Em pouco mais de dez minutos, os Samurais Azuis confirmariam sua ida à terra do Soccer. Não contavam, todavia, com a interferência de Jaffar Omran Salman.

O jogo estava à mil, com lances perigosos de ambas as partes, quando o iraquiano marcou, de cabeça — curiosamente, após cobrança de escanteio curto, movimento tão abominado no mundo da bola. Chegava ao fim o sonho nipônico.

“Estivemos vencendo, jogando tão bem, e havia muita crença em nosso time. O futebol tinha alcançado esse novo nível e os japoneses estavam empolgados com a chance de jogar a Copa do Mundo […] O final do sonho, da forma como foi, foi devastador. Eu vi homens adultos chorarem”, disse Nakayama ao site oficial da FIFA. Por sua vez, em reportagem veiculada na revista The Blizzard, Ooft, o treinador do time, foi ainda mais expressivo ao falar do ápice da partida: “eu sabia naquele momento que havia acabado. Porque no momento que o árbitro apitasse o reinício ele apitaria novamente. Tinha acabado. Merda”.

Em pouco tempo se esvaiu toda a esperança do país. Isso porque, no mesmo horário, a Arábia Saudita bateu o Irã por 4 a 3 e a arquirrival Coreia do Sul conquistou vitória sonora contra sua antagonista do Norte, inapelável 3 a 0. Chamado de “Agonia de Doha” pelos japoneses o encontro ocorrido no estádio Al-Ahly é lembrado pelos sul-coreanos como o “Milagre de Doha”. Tudo dependendo do viés orientador da interpretação do fato.

Depois de liderar o Grupo F, deixando pelo caminho Emirados Árabes Unidos, Tailândia, Bangladesh e Sri Lanka, os japoneses avançaram à fase final e a lideraram até o clímax da disputa. Por um gol sofrido nos acréscimos ou dois marcados pela Coreia do Sul, que lhe conferiu vantagem no saldo de gols, o Japão teve que esperar mais quatro anos para, enfim, deixar de ser virgem em Mundiais. É importante notar, não obstante, que toda essa conjuntura de drama teatral serviu apenas para manter os japoneses motivados.

Seleção japonesa, no Mundial de 1998 (Foto: Getty Images)

Nos anos que se seguiram, a J. League se manteve em expansão e a primeira geração de atletas de maior destaque do país foi se forjando. Em 1998, já estavam presentes jovens como Hidetoshi Nakata (21), Shinji Ono (18), além do goleiro Yoshikatsu Kawaguchi (22). Em 2002, os japoneses co-sediaram o Mundial com a vizinha Coreia do Sul e aos poucos foram deixando de despender grandes quantias em craques reconhecidos.

Desde 1998, o país emplacou classificações para todos os torneios ocorridos até 2018. Aos poucos, o futebol japonês é reverenciado pela estrutura que foi montada e pelo aumento de sua qualidade. Nem um verdadeiro momento de agonia, vivido em 1993, foi capaz de aplacar o desenvolvimento dos Samurais Azuis.

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