A saga do goleiro de todos os cantos

Lutz Pfannenstiel: O primeiro e único a jogar por todas as federações continentais existentes.

FIFA possui seis confederações afiliadas, onde cada uma delas representa um continente: Conmebol e Concacaf dividem a América; a poderosa UEFA comanda a Europa (mais Cazaquistão e Israel); a CAF, o futebol africano; a AFC abrange todo o continente asiático e a OFC, os países da Oceania. Por mais subjetivo que pareça, é seguro dizer que cada continente possui suas próprias heranças culturais e estas exercem influências diretas sobre a prática do jogo. No entanto, apenas um homem é capaz de contar as aventuras e desventuras das seis confederações com a autoridade de quem já jogou por todas elas.

Lutz Pfannenstiel iniciou sua carreira profissional em 1991, no modesto FC Bad Kötzting, da Bavária. Mesmo jogando em divisões inferiores, ele já havia figurado na seleção alemã sub-17 e um suposto assédio do Bayern München começava a ser ventilado ao redor do jovem guarda-metas. Mas não se pode exatamente afirmar que a Lutz lhe tenha enchido os olhos a possibilidade de jogar pelo maior time do país. Ele temia ser o guardião de um eterno posto de goleiro reserva — o que hoje parece bastante sensato, considerando que o titular do Bayern em 1990 era Raimond Aumann, seguido por ninguém menos que Oliver Kahn, em 1994.

Para manter-se em plena atividade, ele deixou a Alemanha e foi jogar no Penang FA, da Malásia. Para muitos, pode não ter sido a melhor jogada profissional de um atleta nascido num país suficientemente tradicional para o esporte. Mas a decisão foi planejada de acordo com seus anseios por ganhar experiência em centros menores para, então, retornar à Alemanha em condições de brigar pela titularidade em algum outro clube da Bundesliga.

O plano parecia seguir seus caminhos naturais quando o Wimbledon levou-o para a Inglaterra — não era a Alemanha, mas conseguiu voltar para a Europa. Sem muitas oportunidades, não esperou sequer uma temporada inteira para transferir-se para o Nottingham Forrest. No novo clube, levou outras duas temporadas para constatar a progressiva realização de seu maior medo: o de ser um eterno goleiro reserva. Para interromper o temível processo e retomar seu desejo primário de ser titular onde quer que fosse, pediu para ser emprestado. E foi assim que ele chegou ao Orlando Pirates, da África do Sul; e foi assim que ele deixou o continente após sete partidas para jogar pelo Tempereen Pallo-Veikot, da Finlândia; e foi assim que ele se manteve na Finlândia para sequer chegar a jogar pelo FC Haka; e foi assim que ele voltou à sua terra natal para defender o SV Wacker Burghausen.

 

Em apenas oito anos de carreira, Pfannenstiel já havia defendido oito clubes de cinco países diferentes distribuídos por três continentes distintos. Um olhar desatento pode forjar a imagem de um profissional ruim que jamais se firmou em clube algum. Mas o fato é que a maior parte dos campeonatos que ele disputava era interrompida por conta de situações climáticas extremas. Dessa forma, a temporada regular naqueles países durava apenas seis ou sete meses, aproximadamente. Contudo, por mais improvável que pareça, a peregrinação entre clubes, países e continentes jamais foi algo premeditado pelo ex-goleiro: “Você pode não acreditar em mim, mas a coisa toda aconteceu realmente por acaso. Eu nunca esperei nem planejei jogar em tantos lugares.”

Por acaso ou não, a interminável turnê mundial de Lutz Pfannenstiel continuou no Geylang International, de Singapura, em 2000. Ele vai se lembrar do país pelo resto de sua existência, não apenas por ser o local onde mais partidas conseguiu disputar em uma única temporada (46), mas também por um episódio insólito. Acusado de participar de uma suposta máfia de apostas que arranjava resultados de partidas, ele foi preso pelas autoridades locais e passou a compartilhar seus dias e noites com “assassinos e estupradores, sem direito a sequer uma escova de dentes nem papel higiênico.” Felizmente, ele foi liberado 101 dias depois por falta de evidências que comprovassem seu envolvimento no caso.

Ao diário inglês The Guardian, Pfannenstiel revelou seu amadurecimento após os dias de cárcere: “É muito difícil seguir em frente depois de coisas como essa, embora a experiência me tenha feito perceber o que realmente importa na vida. Jogadores de futebol vão aos treinos com seus belos carros e roupas caras sem se importar com nada. Sob esse aspecto, a prisão me fez crescer muito rápido.”

Após o traumático incidente, o errante arqueiro recebeu a chance de retomar a carreira no Dinedin Technical, da Nova Zelândia, onde teve restaurada sua paixão pelo futebol, segundo ele próprio. De lá, voltou por empréstimo à Europa para literalmente morrer em campo pelo Bradford Park Avenue, da Inglaterra. No Boxing Day de 2002, Pfannenstiel chocou-se estranhamente contra o atacante Clayton Donaldson, do Harrogate Park. A colisão interrompeu suas capacidades respiratórias e o goleiro foi considerado clinicamente morto por três vezes. Mesmo havendo sido reanimado pelo próprio fisioterapeuta do clube, ele permaneceu em coma por algumas horas, mas já estava de volta aos gramados na semana seguinte.

Jogando pelo Calgary Mustangs, do Canadá, em 2004, Lutz realizou a façanha de haver jogado profissionalmente nos cinco continentes habitáveis do planeta. Em 2008, depois de mais algumas idas e vindas da Europa e perfeitamente consciente da proeza que estava prestes a concretizar, viajou ao Brasil para fechar a sena das federações continentais jogando pelo Clube Atlético Hermann Aichinger, de Ibirama-SC.

Três anos depois, estava encerrada a carreira do mais itinerante dos goleiros — não na Alemanha, para onde desejou voltar quando tivesse condições de disputar títulos, mas na Namíbia, acumulando as funções de jogador e treinador.

“Se eu trocaria isso tudo por outra coisa? Se me pudessem garantir 400 partidas por um clube alemão de ponta, alguns títulos e participações na seleção, então sim. Mas é preciso ser realista. Será que eu realmente estaria no mesmo nível de Kahn ou Jens Lehmann? Eu provavelmente haveria terminado como o reserva em algum lugar, jogando um par de jogos quando o titular se machucasse. Eu trocaria por isso a carreira que tive? Definitivamente, não.”

Infográfico por PaladarNegro.net

Infográfico por PaladarNegro.net

Além de atuar como olheiro e “relações internacionais” do Hoffenheim, Lutz Pfannenstiel está à frente do projeto Global United — uma organização sem fins lucrativos que tem como objetivo alertar a população mundial sobre as alterações climáticas. Para isso, Lutz planeja um amistoso internacional na Antártida. A ideia ainda não está devidamente amadurecida mas, se tudo correr bem, ele vai chegar ao gélido continente antes da Fifa.

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