Vem pra rua, um comercial da Copa do Mundo que mudou o Brasil e o Canarinho Pistola

Por Fernando Martinho

O Brasil vivia seu décimo primeiro ano de governo PT. Um governo de bases ideológicas de esquerda, que entendeu como funcionava o mecanismo político até melhor que o partido que governou o Brasil nos oito anos anteriores.

A Seleção Brasileira era comandada por Felipão, que assumiu o cargo de treinador tão logo José Maria Marín assumiu a presidência da CBF após a prisão de Ricardo Teixeira.

O PT fez o que o PSDB não chegou perto de fazer no que diz respeito à distribuição de renda e inclusão — não social, mas — econômica de uma parcela enorme da população.

A inclusão econômica elevou o consumo no país, e o sistema de créditos para empresas e trabalhadores fizeram a economia disparar. Por este simples motivo, um setor específico nunca lucrou tanto na história do Brasil: os bancos.

Foi um período de crescimento, sem dúvidas, mas para conseguir governar, como dito antes, foi imprescindível o entendimento do mecanismo — a escolha deste termo não é em vão, óbvio.

Surgiam obras e mais obras com a Petrobrás puxando a locomotiva e grandes eventos como a Copa do Mundo e Olimpíadas mostravam para o mundo a grandeza do gigante que estava adormecido. A Johnnie Walker fez uma campanha com um gigante de pedras que se erguia do lugar onde fica o Pão de Açúcar.

Um anos antes da Copa do Mundo, um evento teste, a Copa das Confederações, que também podia ser visto como uma degustação, ou apenas um cheirinho pra população, daquilo que aconteceria em 2014. O Brasil disputaria como país sede, enquanto o Uruguai era o representante do continente sul-americano, por ter vencido a Copa América dois anos antes, na Argentina.

O PT exerceu um papel fundamental para levar a construção de estádios “Padrão FIFA” a cidades como Cuiabá e Manaus, onde sequer há times que disputam a primeira divisão do futebol brasileiro. Brasília também não tinha nenhum time na elite do campeonato há muito tempo e teve um dos estádios mais caros — mas é a capital do país.

Coincidência ou não, em paralelo, a economia mostrava alguns problemas. Com muito crédito no mercado, a especulação imobiliária era um dos sintomas mais nítidos da inflação. Mas muito distante dos preços milionários de novos empreendimentos, outro aspecto muito mais mundano e sensível: a passagem de ônibus sofreria um reajuste de vinte centavos para acompanhar a inflação, já que os salários dos trabalhadores rodoviários são calculados no preço do transporte.

Em meio a isso, o Brasil começava a se preparar para uma guerra publicitária entre patrocinadores da Copa do Mundo, da Seleção Brasileira e os não-patrocinadores. Era também o momento em que o time comandado por Felipão queria mandar um recado para o mundo e mostrar que o futebol penta-campeão estava vivo.

A Fiat, que não patrocinava ninguém, fez uma produção ousada, com uma música cantada por Falcão, vocalista consagrado d’O Rappa. O ritmo empolgante, refrão de fácil memorização e a hashtag usada como título da campanha, inclusive, certamente deixou tanto a Volkswagen [patrocinadora da CBF] quanto a Hyundai/Kia [patrocinadora da FIFA] com muita inveja: #VemPraRua

O aumento das passagens de ônibus começou a mobilizar grupos como o Movimento Passe Livre, que pouco a pouco se reuniram e começaram a tomar espaços e produzir manifestações cada vez maiores.

Rapidamente, a insatisfação com os serviços públicos levou a que outros setores da população se mobilizassem e aderissem aos protestos. No Rio de Janeiro, sobretudo, a repressão promovida pelo governo estadual e municipal fomentaram o aumento das manifestações.

A Copa das Confederações, como evento teste, colocava o Brasil no centro das atenções da mídia esportiva mundial mas, acima de tudo, da imprensa local. Os jogos eram realizados em seis capitais, que também seriam cidades sede da Copa do Mundo um ano depois. Nessas cidades era comum ver a hashtag #NãoVaiTerCopa pichada em muros e viadutos, além de ouvir o grito nas mobilizações.

Surgiram, então, os Black Blocs. Personagens juvenis que quebravam bancos e patrimônios públicos. Difícil afirmar quem começava o caos: se era a repressão policial militar, provida de equipamentos desproporcionais para contenção de massas, ou os Black Blocs. Ora um, ora outro. Mas faz parte do jogo.

Junto com o #NãoVaiTerCopa outro grito compunha o repertórios dos manifestantes: #VemPraRua. Sim aquele mesmo da Fiat. E esse grito em especial parece ter motivado à Classe Média a aderir àquilo que era tratado como vandalismo pela maior parte da grande mídia. Era comum que ao sair do trabalho, o cidadão fosse pra algumas das aglomerações na Cinelândia, na Candelária ou Alerj, no centro do Rio de Janeiro.

O filme da agência Leo Burnett, chegou a ser retirado do ar. A Fiat não gostou da associação com as manifestações políticas. Nenhuma marca gostaria de promover uma campanha de cunho político. Mas já estava feito. O anúncio trazia imagens

A Copa das Confederações começava em meio à protestos nas principais cidades do País e para garantir a realização dos jogos, o policiamento foi colocado na rua com força máxima. A Espanha, campeã do mundo e da Europa enfrentou o Taití, representante da Oceania, no Maracanã. O placar elástico de 10 a 0 sobre o modesto time insular do oceano pacífico foi sucedido por mais um episódio lamentável da frágil democracia brasileira.

A ida ao novo Maracanã pela primeira vez. Era a chance de ver o estupro financiado com dinheiro do governo, aprovado pelo poder público que descaracterizou totalmente o Estádio Jornalista Mário Filho e o transformou em mais uma grande arena qualquer. Manteve-se a fachada externa e construíram uma arena por dentro daquele esqueleto sob o argumento do “Padrão FIFA”. Sem dúvida um estádio melhor, porém outro estádio, sem sal, sem sabor, sem alma.

Mal comparando com Wembley, foi feito um novo estádio no lugar daquele tradicional monumento do futebol. Mas tudo bem, a vida segue, mesmo que goela abaixo e com valor nitidamente superfaturado, o que ficou constatado anos depois, após desvendado todo o esquema de licitação de obras públicas onde a Odebrecht e demais empreiteiras estavam envolvidas.

Em 18 de junho de 2013, na sua apresentação como membro do Comitê Organizador Local, Ronaldo Luiz Nazário de Lima, anunciava que Copa do Mundo não se fazia com hospitais e escolas, as sim com estádios. Pragmaticamente ele estava coberto de razão. Mas a mensagem era clara, que aquilo tudo ali tinha que acontecer a fórceps, simbolicamente, dane-se o país, o importante era fazer a Copa. Ao seu lado, estava Jérôme Valcke, secretário geral da FIFA, personagem que não precisa ser citado novamente neste texto, o que importa é que ele foi afastado da entidade por escândalos de corrupção em 2015 como esquemas de venda ilegal de ingressos pra Copa do Mundo.

No congresso tramitava uma Proposta de Emenda à Constituição que faria a contribuição sindical deixar de ser obrigatória e passaria a ser facultativa. A PEC 36/2013, passou a ser um dos principais motes dos grupos liderados por sindicalistas que acreditavam no enfraquecimento dos sindicatos se medida fosse aprovada.

Outras reivindicações também entraram nos protestos, e aquela inicial, contra o aumento da passagem não só perdeu o sentido, afinal a maioria dos governos assegurou que o transporte não aumentaria. Mas surgiram cartazes e faixas que diziam: “não são só pelos 20 centavos”.

As manifestações de 2013 começaram com um viés de esquerda contra um governo federal que foi o que o Brasil teve mais próximo de uma administração de esquerda, embora muito distante dos ideais defendidos pelo Partido dos Trabalhadores e seu grande líder: Luiz Inácio da Silva.

Os ideais foram vendidos, certamente superfaturados. Esse é o preço do poder. O mecanismo colocava como principal aliado o PMDB que partia pra uma estratégia de governos estaduais e de indicações para ministérios, ou seja, marcava presença na gestão dos orçamentos.

No Rio de Janeiro, o PMDB governava tanto o Estado quanto a capital. Copa do Mundo e Olimpíadas eram uma pequena fatia das verbas destinadas para o estado. Não à toa, o Palácio da Guanabara em Laranjeiras e a Prefeitura, na CIdade Nova, tal como a já citada Alerj, no Centro, era os alvos das passeatas.

Os grandes veículos usavam números fornecidos pela Polícia Militar o Estado do Rio de Janeiro para diminuir o tamanho das manifestações. Eram totalmente incompatíveis os discursos com as imagens. O aparato policial não se justificava se fossem tão poucas pessoas presentes como diziam.

PEC 36-0 Taití

Naquele dia, de Espanha e Taití, após o jogo, a viagem de metrô durou uns 12 minutos até a estação Uruguaiana, que fica próxima à esquina da Avenida Presidente Vargas com a Avenida Rio Branco, bem perto da Candelária, onde estava prevista uma concentração daquela que foi a maior até então.

O front já havia se deslocado pela Presidente Vargas em direção à prefeitura, mas deu pra seguir no vácuo junto com muitos retardatários. Passando pelo sambódromo, já mais perto da Prefeitura do que da Candelária, já havia uma densidade bem maior, onde já não se permitia seguir no mesmo ritmo, e logo após cruzar o viaduto São Sebastião, antes de chegar à altura da estação Praça Onze já havia uma retenção e um clima hostil.

Barulhos de bombas, algum corre corre ali, outro aqui. Gritos pra se sentar em vez de correr. “Amanhã vai ser maior!” e “Não vai ter Copa!” eram os principais coros da multidão estagnada ali.

Os estouros das bombas se aproximavam, eram cada vez mais altos e mais freqüentes, até o momento em que era possível visualizar o pelotão vindo contra, carregando seus escudos e disparando bombas de gás lacrimogênio.

Muita gente já havia recuado, não dava mais pra permanecer por ali. É verdade que algumas pessoas queriam causar danos à via pública, destruindo placas ou o que desse, alguns eram vaiados, mas cada um sabe o que deve fazer. Mas enquanto todos já se afastavam, começavam a surgir as maiores cenas de terror e opressão.

Sem nenhuma economia, policiais começaram a espalhar os grupos que caminhavam já na direção contrária com bombas de gás. Correria, gritos, clima de guerra civil.

A partir dali, nada mais teve a mesma magnitude naquele ano ou no ano seguinte, quando, já na Copa do Mundo, alguns grupos tentaram causar algum dano e foram fortemente reprimidos para que o maior evento de futebol do mundo fosse realizado.

Dentro de campo, o Brasil passou pelo Uruguai no Mineirão, e se classificava pra final contra a Espanha. Maior potência do futebol mundial, campeã a Eurocopa de 2008, da Copa do Mundo em 2010 e da Eurocopa, novamente, em 2012, um ano antes.

No Maracanã, na final, viu-se um outro público nas arquibancadas. Um presságio do que se tornaria o estádio a partir da remoção de espaços de livre circulação como as antigas arquibancadas e a colocação das cadeiras em todo o estádio. O êxito do Brasil dentro de campo foi contundente sobre a Espanha, que jogava em ritmo de treino. O sabor foi de um mundialito, de roubar o cinturão do campeão, no melhor estilo Maguila, mostrar que nós é nós.

Restava aguardar e superar muito do negativismo ainda após a realização da Copa das Confederações de que o país não teria estrutura para comportar uma Copa do Mundo. Os atrasos nas obras, sobretudo de infra-estrutura, eram evidentes.

Veio a Copa e ela aconteceu apesar de alguns protestos que tentaram fazer algum barulho, mas já não tinham nem a magnitude de 2013 nem um motivo além das denúncias de superfaturamento das obras. O PT fez uma Copa política levando estádios para cidades de acordo com alianças e esquemas e sem o propósito do seu uso posterior à competição. O argumento era de interiorizar o futebol, de levar a prática do esporte para outras praças e não somente às cidades que já dispunham de estrutura. Construir um estádio em Itaquera tinha o mesmo intuito, de levar a Copa e o futebol à regiões mais carentes, pra isso construíram um estádio com piso do banheiro de mármore em uma região menos favorecida de São Paulo. O jogo não era de futebol, era político.

Na Copa, todo mundo sabe como acabou. 2014 também era ano de eleição, e após o 7 a 1, o PT conseguiu ser eleito pela quarta vez consecutiva, mas desta vez com uma diferença de apenas 3 milhões de votos. O país estava dividido, claramente, e em um momento com grande midiatização de tudo.

Na Seleção, Dunga assumia o cargo de técnico. A capitão do tetra foi o escolhido de José Maria Marín. Dunga usava um discurso quase paramilitar, de orgulho de vestir a camisa, a amarelinha, um papo patriótico que herdou de Zagallo. Marin foi governador de São Paulo entre maio de 1982 e março de 1983. Logo depois, se tornou o vice de Paulo Maluf, o último do período militar.

José Maria Marin era filiado à ARENA (Aliança Renovadora Nacional), também conhecida como o partido dos militares. Não era em vão que Marin tivesse escalado técnicos com perfis de generais como Felipão e Dunga.

Acontece que os jogadores não eram os mesmos do final dos anos 90 ou início dos 2000. O discurso de amarelinha por si só não rendia nenhum impacto. Eram os tempos de jogadores muito mais preocupados com suas contas no Instagram, seus fones que lhes permitiam passar nas zonas mistas fingindo não terem ouvido nenhum chamado de jornalistas e, fatalmente, não entendiam a linguagem de Dunga, um sujeito antiquado, bronco que, por sua vez, não entendia como lidar com essa geração Instagram.

Ninguém mais viajava pra conhecer lugares, senão pra postar selfies. Ninguém ia a restaurantes simplesmente para comer, senão para postarem fotos de seus pratos. O mesmo valia pro futebol e pra manifestações políticas.

Surgiam grupos virtuais como o MBL (Movimento Brasil Livre), Revoltados Online, Movimento Vem Pra Rua (inspirado justamente na hashtag da Fiat) entre outros que prometeram em suas páginas de Facebook e canais de Youtube ir às ruas após as eleições vencidas pelo PT, com Dilma Rousseff.

As manifestações de 2013 foram uma degustação de que era possível reivindicar algo mas, a partir de 2015, o teor, os personagens e a motivação dos protestos eram outros. A Operação Lava-Jato ganhava força. Eduardo Cunha, que havia sido eleito presidente da Câmara, era alvo da investigação da Polícia Federal que identificou o tal mecanismo, ilustrado na série de José Padilha, lançada em 2018, com precisão, com erros, com adaptações e desvios, porém verossímil.

Em 2015, O PT encarou uma “crise econômica”. De econômica não tinha tanto, mas sim de política. O PMDB exigiu o Ministério da Saúde como forma de garantir apoio no Congresso ao governo. Era simplesmente o ministério com maior orçamento da União.

Foi no mesmo ano, em 27 de maio, que José Maria Marin foi preso em Zurique. A justiça norte-americana conseguiu rastrear a operação financeira da Copa América Centenário, a ser realizada em 2016 nos EUA, e prendeu vários membros da FIFA.

Ricardo Teixeira e, agora, Marin estavam presos. João Havelange, que presidiu a FIFA até 1998, também estava na mira de investigações, mas renunciou ao cargo de presidente honorário para escapar das acusações. O novo presidente da CBF, Marco Polo del Nero, não podia sequer sair do país. Del Nero não viajava junto com a Seleção e sequer representava a entidade em qualquer evento fora do Brasil. Mas nas manifestações que se deram a partir de de 2015, a camisa que se viu presente nos milhares de manifestantes era justamente a amarelinha da CBF.

O #VemPraRua pegou de vez. Tanto em 2015 quanto em 2016, o país travou politicamente. Dilma Rousseff perdeu as rédeas do governo e, no Rio de Janeiro, as manifestações mudaram de endereço, dias, horários e perfil. Passaram a acontecer em Copacabana, aos domingos, com gritos de “A nossa bandeira, jamais será vermelha!” e “Vai pra Cuba!”.

Eduardo Cunha, que não conseguiu a proteção que desejava da presidente Dilma, acatou, então, um pedido de impeachment contra a presidente. O resultado era bem maior do que o esperado. Mesmo tendo sido eleita nas urnas, a democracia brasileira é tão frágil que dá a um processo parlamentar sujo o poder de suprimir o resultado de uma eleição. Os três poderes iniciavam uma batalha entre si. Assumia Michel Temer, do PMDB, vice-presidente de Dilma e aliado até meses antes, quando escreveu uma carta anunciando seu rompimento com o governo. Temer passou pelo crivo de Lula e do PT, que aceitou a aliança para conseguir governar. Tiro n’água. O PMDB, nas mãos de Michel Temer, mostrou que com eles não se brinca.

Temer fez discurso na abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em agosto de 2016. A cidade ainda era governada por Eduardo Paes e o governo do Estado era comandado por Luiz Fernando Pezão, ex-vice governador de Sérgio Cabral Filho — todos do PMDB.

Olimpíadas também não se fazem com hospitais nem escolas e o importante aqui era ganhar medalhas. Falando de futebol, mesmo após uma péssima campanha, o Brasil venceu na final a Alemanha e com um semi-espírito de revanche do 7 a 1, os brasileiros conquistaram a primeira medalha de ouro na modalidade masculina. Marco Polo Del Nero já havia designado Tite para o lugar de Dunga e os ventos pareciam mudar de direção, pelo menos no futebol. Mas a camisa parecia estar manchada.

Já em 2018, o El País produziu uma matéria mostrando como a camisa amarela da Seleção tinha se tornado um item controverso. Muitas pessoas não quiseram adquirir a camisa ou preferiam comprar o modelo azul por conta da associação política que a camisa ganhou e a controvérsia entre discurso anticorrupção e a camisa da CBF, uma instituição reconhecidamente corrupta, tendo presos seus mais recentes presidentes.

No final de 2017, Marco Polo Del Nero foi deposto de seu cargo por imposição da FIFA , que precisava dar uma resposta às autoridades americanas. Jamil Chade, correspondente do Estadão na Suíça, cobriu o assunto, como sempre, e destacou que a entidade máxima do futebol mundial não tinha nenhum compromisso com o combate à corrupção, mas sim, com seus patrocinadores e, sobretudo, com a justiça americana.

Inclusive, a CBF lançou como mascote, o Canarinho “Pistola”: um personagem carismático, como tudo que vinha da Seleção comandada por Tite. No entanto, o Canarinho “Pistola” não pôde embarcar para a Rússia, pois a FIFA não autoriza que haja concorrência de itens comerciais que não sejam de seus patrocinadores. Um mascote é um ativo significativo, que comunica com muita gente atraindo muita atenção midiática.

O Canarinho “Pistola” começou a ser usado em fotos de perfis de redes sociais. A então pré-candidata pelo PCdoB, Manuela Dávila, chegou a postar uma foto do mascote com a foice e o martelo. Dessa vez, era a esquerda brasileira que se apropriava de um ícone do futebol para manifestar sua insatisfação política.

Com razão, afinal, aquela PEC 36, de 2013, foi engolida pelas manifestações, mas voltou à pauta e entrou em uma articulação muito maior: a Reforma Trabalhista. Aprovada em 11 de julho de 2017 pelo Senado, após ser aprovada na Câmara em 26 de abril desse mesmo ano. Michel Temer assinou a promulgação da reforma em 13 de julho de 2017 e as novas leis trabalhistas passaram a vigorar a partir de 11 de novembro do mesmo ano — seis meses após a publicação no Diário Oficial. A população vota em representantes para o Congresso. Os legisladores atendem aos interesses de grandes empresas e não da população. Por quê? Muito simples: são elas, as empresas, quem financiam as campanhas políticas.

Assim, com a Reforma Trabalhista, dentre várias alterações, a contribuição sindical passou a ser facultativa e qualquer trabalhador que queira acionar seu antigo empregador na Justiça, deverá arcar com os custos judiciais, caso perca a ação. Em outras palavras, a democracia é totalmente subvertida, atendendo aos interesses de grandes empresas e não de trabalhadores, que, curiosamente, são os responsáveis por eleger quem legisla.

Desde 2014, falou-se em Fla-Flu político. Fato é que fica difícil entender se o Brasil vive uma futebolização da política ou uma politização do futebol. Mais fácil é compreender que ambos são ferramentas de poder e dinheiro. Aliás, muito dinheiro.

O Canarinho tinha que ser pistola. Pistola: o termo que alude a enfurecido, puto da vida, revoltado. O problema é que a revolta, pelo visto, no Brasil, acaba saindo pela culatra. Talvez a rua seja mesmo a maior arquibancada do Brasil, mas existe uma enorme diferença entre os camarotes vips da Zona Sul carioca com a geral do Centro do Rio de Janeiro.

Visite nossa loja virtual e adquira as edições impressas da revista! Os textos publicados nas revistas são exclusivos e não são republicados no site, nem vice-versa. Garanta seu exemplar, colecione e leia a Corner.