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Mais de um século de sobrevivência da competição mais antiga dos EUA

Por Carina Itaborahy.

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ova Iorque, abril de 1913. O encontro de uma pequena delegação no Astor House Hotel foi o primeiro passo para o desenvolvimento do soccer no país. A renião resultou na formação da Federação de Futebol dos Estados Unidos e, com ela, a criação de um campeonato nacional – a National Challenge Cup.

Sir Thomas Dewar, um escocês que viajava o mundo divulgando o uísque da família e interessado em promover o futebol na América, doou a primeira taça da competição, que sobreviveu até 1979 e hoje está exposta no National Soccer Hall of Fame, em Nova Iorque.

Num país em que pouco se sabia sobre futebol, era um grande desafio criar uma liga nacional. No entanto, o pontapé inicial foi dado em 1914. Um campeonato democrático, que reunia times amadores e profissionais em um sistema único de mata-mata desde as primeiras rodadas, para dar mais emoção às partidas.

Mais de cem anos se passaram e a fórmula de disputa continua a mesma. Apenas o nome mudou. Em 1990, passou a se chamar US Open Cup mas, no final da década, foi modificado para Lamar Hunt US Open Cup – em homenagem a Lamar Hunt, um dos fundadores da MLS (Major League Soccer) e grande entusiasta do futebol nos EUA. Hunt também foi o fundador da NASL (North American Soccer League), no final da década de 60.

A SOBREVIVÊNCIA

Foram muitos os percalços para manter a competição. Desde o fim dos anos 60 até a década de 90, os times profissionais ignoraram a Open Cup. “Foi o período mais desafiador. Quando as equipes da NASL se recusaram a participar da Open Cup, foi um grande golpe. Os times profissionais estavam virando as costas para a Copa. A Associação Adulta de Futebol Norte-americano assumiu a organização e manteve a competição. Se o campeonato ainda sobrevive, é fruto da dedicação dos times durante todos esses anos”, lembra o jornalista Josh Hakala. Para manter o torneio consistente até as finais durante aquele período, a Open Cup dependia do que restava de times formados por imigrantes europeus. Contudo, a criação da MLS, em 1996, fez com que os clubes retornassem à competição aos poucos, vencendo todas as finais desde então – exceto a de 1999, quando o Rochester Rhinos, de uma liga inferior, venceu o Colorado Rapids.

“Torcedores americanos são acostumados ao formato simples da NFL, NBA, NHL, MLB, que é uma temporada regular seguida de finais. A idéia de um torneio envolvendo times de níveis inferiores ainda é estranha para muitos torcedores e para a mídia.” — Thomas Floyd, Goal.com

A Open Cup nunca despertou o interesse de emissoras americanas. Poucas finais foram transmitidas nos últimos anos. Assistir aos jogos é sempre um desafio e também não é nada fácil encontrar transmissões online de boa qualidade. Tanto as torcidas quanto alguns times da Major League ainda torcem o nariz para o torneio, mesmo sendo o caminho mais fácil para Concacaf Champions League – desde 2007, o vencedor da Open Cup se classifica automaticamente para o torneio continental.

O Seattle Sounders é um clube da MLS que sempre priorizou a competição. Conheça a história do time de maior sucesso do futebol nos EUA, no livro: Soccer, Sucesso em Seattle de Mike Gastineau.

O jornalista Thomas Floyd, editor do site Goal.com, aponta como um problema a adoção do mata-mata desde o início da competição: “Há uma falta de entendimento entre torcedores casuais quanto ao formato do torneio. Torcedores americanos são acostumados ao formato simples da NFL, NBA, NHL, MLB, que é uma temporada regular seguida de finais. A idéia de um torneio envolvendo times de níveis inferiores ainda é estranha para muitos torcedores e para a mídia. Então, não há investimentos. Muitos jogos não são acessíveis e a torcida não se engaja. Se a torcida não se importa, o time também não se importa”.

Mas apesar do desinteresse da grande mídia, há quem se esforce para preservar os mais de cem anos de história da Open Cup. Em 2003, Josh Hakala criou o site Thecup.us – até hoje, o único com cobertura exclusiva da competição. Antes disso, Josh era apresentador do Soccer Fanatics Radio Show, que basicamente cobria a competição e discutia as notícias do futebol no país. Com o maior número de torcedores interessados no assunto, ele resolveu criar um site independente que pudesse não apenas reunir tabelas, notícias das partidas e fotos, mas resgatar a história do campeonato: “As pessoas estão muito interessadas em descobrir mais sobre o torneio e, principalmente, sua história. O site recebe cada vez mais acessos e eu gostaria de torná-lo rentável para dedicar mais tempo e ajudar as pessoas a aprenderem mais sobre a competição.”

WHAT NOW?

(E AGORA?)

Mas o que esperar do futuro do campeonato? Se alguns times não se importam tanto com a Open Cup, outros vêem nela uma chance de recontar a história. Em 2013, o DC United estava atolado em sua pior crise. Thomas Floyd acompanhou de perto o drama e a ascenção: “A vitória na Open Cup salvou o trabalho do treinador Ben Olsen e, no fim de 2014, ele foi eleito o melhor técnico da MLS. Isso mostrou como esse torneio pode mudar o rumo de uma equipe”. Para Josh Hakala, um investimento significativo precisa ser feito para atrair torcedores: “O torneio é exclusivo. É um evento fácil de ser vendido para fãs de futebol, mas o investimento tem que ser feito antes, para tornar as pessoas mais conscientes disso.” É um processo lento, mas que avança ao longo dos anos.

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About The Author

Carina Itaborahy

Jornalista formada pela UERJ e pós graduada em Marketing pela UFF. Passou pela Rádio Nacional, TV Brasil, Sportv e cobriu a Copa do Mundo pela Fox Sports. Lamenta que no futebol não há mais Túlios Maravilhas como antes, e acredita que a MLS vai ficar gigante em pouco tempo. Mora em Seattle e insiste em dizer que lá é muito melhor para se viver que Nova York.

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