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Marcar os camisas 10 de Brasil e Argentina durante a Copa de 82 pode ter sido uma das mais ingratas tarefas que o futebol já proporcionou

Por Lucas Sposito.

Craques jamais são esquecidos. Seus gols são reprisados na TV e suas camisas sempre têm lugar nas vitrines. Suas figurinhas são (ou eram) desejadas pelas crianças e eles são lembrado não apenas por seus fãs, mas também pelos rivais. Apesar disso, é claro que há partidas em que o craque simplesmente não aparece em campo. Dia ruim? Às vezes. Anulado pelo defensor? Raramente, mesmo que doa admitir — é mais fácil acreditar que foi por motivos extra-campo.

Os anti-heróis, por sua vez, costumam ser esquecidos mesmo quando são bem sucedidos em tarefas consideradas impossíveis. Imagine o que é ter que marcar, em uma Copa do Mundo, os camisas 10 de Argentina e Brasil num intervalo de sete dias. E não eram quaisquer camisas 10. Estamos falando de Maradona e Zico.

O primeiro desses jogos foi contra a Argentina. Foram dois dias de preparo enquanto estudava Maradona. Eram vídeos e vídeos para aprender a parar El Pibe de Oro.

A tarefa foi dura. Maradona era rápido como uma flecha e foram necessárias seis faltas e um cartão amarelo para manter a defesa italiana protegida das investidas do argentino. O camisa 10 saiu de campo indignado e chegou até mesmo a receber cartão por reclamar da violência sofrida toda vez que pegava na bola. Mas ao apito final, não tinha mais choro: a Itália vencia a Argentina por 2 a 1 e agora enfrentaria a famosa geração brasileira de 82.

Como a Seleção Canarinha atropelou os rivais hermanos, decidiria contra a Azzurra uma vaga na semi-final. No vestiário italiano, enquanto se preparava para a partida, o camisa 6 recebeu do técnico Enzo Bearzot uma orientação de última hora: teria a missão de parar Zico.

Também não foi nada fácil. Na segunda bola que o Galinho recebeu, ele tirou o zagueiro para dançar e completou a jogada com uma assistência primorosa para Sócrates. Seria ingrato o trabalho de pará-lo individualmente.

Claudio Gentile e Diego Maradona em 1982 Zico deu mais trabalho que Maradona. Se o argentino tinha o foco em receber a bola e partir em velocidade para dentro da área, a cadência do brasileiro tornou mais difícil a tarefa de marcá-lo. A paciência para encontrar os espaços e descolar alguns passes teve resultado, mas só nos primeiros minutos. Desarmes ligeiros, faltas, e até uma camisa rasgada foram os produtos da dedicação defensiva durante aquela tarde que até hoje se mantém na cabeça dos brasileiros.

Fim de jogo, 3 a 2 para a Itália. Mais uma missão cumprida. Mais uma tarefa pessoal realizada com excelência. Foram mais duas vitórias, contra Polônia e Alemanha, para que a Azzurra se consagrasse tricampeã do mundo — a maior glória futebolística que este anti-craques viria a conquistar.

Mas zagueiros durões também têm sentimentos. Por isso, nunca aprovou os comentários de Maradona sobre ele. Em entrevista ao El País em 2011, mostrou que ainda guarda rancor do argentino por não reconhecer seu bom trabalho ao anulá-lo:

“Voltamos a nos enfrentar três vezes. Trata-se de uma pessoa com quem não desejo manter relações. É desleal. Maradona não sabe perder. Se perde, põe a culpa nos outros. Com o Zico, mantenho boas relações. É um sujeito honrado. Terminada a partida, ele me disse que eu tinha feito o que eu tinha que fazer. Ponto final.”

Gentile! Claudio Gentile! Esse era o nome do zagueiro.

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