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Andre Gray, um jogador que escalou as divisões do futebol e carrega os preconceitos mais baixos consigo

Por Jessica Miranda.

E

m tempos moderníssimos de consumismo imediatista de conteúdo, procura-se cada vez mais rápido um “novo fulano” para se explorar à exaustão, restando ao velho apenas o olhar nostálgico da efemeridade. Assim, Andre Gray poderia ser conhecido, facilmente, como o novo James Vardy, não fosse por um “pequeno” detalhe.

Está enganado aquele que pensa que esta será uma história de cinderela, do jogador dispensado pelo Wolverhampton aos 13 anos, envolvido com gangues de rua, que deixaram nele uma cicatriz de briga de faca bem no meio da bochecha; daquele que atuou na quinta divisão da liga inglesa até os 23 anos, quando se transferiu — quase que milagrosamente — ao Brentford, marcando 16 gols na segunda divisão. Tampouco será o conto daquele que, quando todos duvidavam, batería seu recorde de gols, e que foi vendido ao Burnley por £ 6 milhões de libras e, por lá, anotou mais 23 tentos, para finalmente sair da Championship — a segunda divisão inglesa — não somente como artilheiro e campeão, mas como o melhor jogador.

Gray chegou para arrebentar na Premier League, mas foi ela quem lhe arrebentou, mais precisamente naquele 20 de agosto de 2016, quando o Burnley recebeu o Liverpool. Os Reds vinham embalados após uma vitória eletrizante, fora de casa, contra o Arsenal por 4 a 3.

Andre Gray deu o passe para o primeiro gol dos Clarets sobre o Liverpool, e mais tarde, o camisa 7 marcou o gol que selou a vitória do Burnley diante dos Reds. Momentos depois, ele ficou marcado pelo seu passado após um comentário antigo de seu twitter ter sido exposto.

Gray não apenas disse que os homossexuais o enojavam. Ele desejou que morressem queimados. Deflagrado o escândalo, o jogador se valeu também do Twitter para se desculpar no mesmo dia, justificando, em síntese, que tudo acontecera quatro anos antes, quando era uma pessoa completamente diferente do homem que se tornou.

É verdade. Na época em que postou essa temeridade, Gray defendia o modesto Hinckley United, em 2012. Ele nunca imaginaria a projeção que sua carreira tomaria, era só um moleque problemático e cheio de raiva.

De todas as formas, a Football Association acolheu a denúncia e, até o julgamento — poucos dias depois —, mais polêmicas surgiram com relação à conta do Twitter, desta vez, com um termo ofensivo a pessoas mestiças “I hate lightys!”, datado de 2014, quando já defendia o Brentford. O termo se refere a pessoas com a pele mais clara, mas afrodescendentes, exatamente o fenotipo de Andre Gray.

As desculpas pedidas por Gray fizeram com que ele recebesse uma suspensão de apenas quatro jogos, mais multa e curso educativo. O que muitos se perguntavam, em especial os frequentadores do Turf Moor, é se o Burnley deveria ter sofrido as consequências de um ato de 2012. Ao mesmo tempo, não seria responsabilidade do clube verificar o precedente do jogador, no ato da contratação?

Se bem o futebol é um terreno onde o desrespeito aos gays é praxe, talvez maior — ou no mínimo igual — que no restante da sociedade, não é uma casualidade que, depois de mais de um século de disputas internacionais entre seleções e clubes, não haja tantos casos de atletas assumidamente homossexuais, o que estatisticamente é improvável que sejam tão poucos. Com a ausência de exemplos de jogadores gays, fica mais fácil declarar abertamente o ódio. Não à toa, a FIFA resolveu agir, punindo as confederações nos quais os campeonatos tenham manifestações homofóbicas. Embora sejam punições irrisórias, já é um início prático.

André Gray cumpriu seu tempo de gancho, e voltou a ser relacionado pelo Burnley. Se ele aprendeu com seus erros e se sua pena foi o bastante ou não, é impossível saber. Ele carrega consigo, essa marca no seu rosto e na sua reputação. Da ingenuidade de um garoto rebelde, oriundo de gangues e de um adulto que dissemina o ódio, reproduzindo a homofobia e o racismo com que foi criado.

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