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A trajetória de Ian Wright, das ruas ao Highbury

Por Miguel Lourenço Pereira.

Hoje em dia, estamos a começar a habituar-nos em conhecer as lendas de amanhã desde que são meninos. O trabalho de prospecção de talentos é cada vez mais intenso e público, pelo que ninguém se surpreende por ouvir falar do “novo Messi” num miúdo de apenas 15 anos de idade. Parece que, chegando aos 20 anos, se não se está no radar da elite as possibilidades de triunfar são nulas. Pode ser esse o futuro, mas nem sempre foi o passado. Houve uma altura em que ser jogador amador até à idade adulta escondia, na prática, verdadeiras pérolas preparadas para brilhar. Essa é a história de Ian Wright, um dos maiores goleadores da história do futebol inglês.

A 4 de Outubro de 1997, Highbury se levantou e não parou de aplaudir. O solo tremeu à medida que o coração gunner latia cada vez mais depressa. Minutos antes, Ian Wright tinha acabado de anotar o seu 300º golo como futebolista profissional. Seria também o seu último no mítico estádio do Arsenal, hoje transformado em prédios e jardins para a classe média alta inglesa.

Ian WrightApenas um ano antes, o artilheiro tinha superado o recorde histórico de Cliff Bastin que remontava aos anos 30, convertendo-se no maior goleador da história do clube. O recorde agora pertence a Thierry Henry mas, à época, muitos pensavam que nunca seria superado. Wright tinha 35 anos e estava no ponto final da sua carreira. Muitos pensavam o que teria sido dele se tivesse explodido mais cedo entre a elite.

O jogador tinha conhecido apenas dois clubes na sua carreira — o Crystal Palace e o Arsenal — até esse momento, mas o que muitos desconheciam é que a sua estreia como jogador profissional foi uma obra do acaso. Wright esteve a ponto de nunca ser futebolista não fosse por uma tarde de sol que levou Peter Prentice, um avispado olheiro do Palace, a passear pelo Greenwich Park. Um passeio que selou uma carreira única.

Wright pertencia a essa imensa minoria silenciosa de emigrantes caribenhos que haviam lotado Londres desde os anos sessenta. Para a sociedade inglesa a sua existência era um enigma e só a explosão musical do reggae e do ska, a finais dos anos setenta, começou a dar-lhes algo de notoriedade. Nos desportos, no entanto, eram ainda vistos com suspeita. A vida familiar do jovem também não ajudava. O seu pai abandonou-o, a mãe sofria de alcoolismo e o seu padrasto aplicava-lhe duros castigos físicos durante quase toda a infância que Wright passou — literalmente — nas ruas.

O futebol sempre foi uma via de escape, mas a sua condição de negro e caribenho parecia não ajudar. Tentou de tudo. Jogou em equipas de bairro, fez provas no Southend e no Brighton mas nunca conseguiu convencer os treinadores a contratá-lo. O seu carácter era um problema. Ao contrario da maioria dos (poucos) jogadores negros no futebol inglês dos anos 80, Wright não estava disposto a ficar calado. Sabia que o preconceito ia existir sempre, mas não ia tolerar abusos. No profundamente racista futebol inglês, isso era um problema.

Apesar de tentar de todos os modos, a Ian Wright o destino parecia fechar-lhe as portas da glória, forçando-o inclusive a passar duas semanas preso por não pagar as contas em atraso. Até que naquela tarde de junho, Peter Prentice viu como o jovem se exibia num jogo de liga amadora no parque de Greenwich com a camisola dos Greenwich  Borough. O futebol amador era tudo o que tinha sobrado a Ian e seria também a sua salvação.

Prentice agendou um jogo de exibição com o Crystal Palace para avaliar o potencial real de um futebolista amador que estava a ponto de cumprir os 22 anos sem ter tido nunca um contrato profissional. Wright superou todas as expectativas e o clube decidiu assinar com o artilheiro um contrato de três anos. Sua estância em Sellhurst durou seis temporadas até que o gigante do norte de Londres, o Arsenal, decidiu contratá-lo.

Ian Wright pelo Crystal Palace em 1991

Ian Wright pelo Crystal Palace em 1991

Tinha já 28 anos e muitos duvidam ainda da sua capacidade de brilhar ao mais alto nível. Wright, uma vez mais, provou que todos estavam errados. Do frio da rua, onde foi forçado a viver quando todos lhe bateram com a porta na carra, Wright demonstrou ao mundo do futebol que às vezes, entre os amadores de domingo, se escondem ainda algumas pérolas a seguir com atenção. Desde então casos como o dele têm sido cada vez mais raros porque os clubes passaram a levar a prospecção e a formação muito mais a sério. Por isso mesmo, Ian Wright, o Rei de Highbury, é mesmo o último caso de sucesso do universo amador a triunfar no hiper-profissional mundo do futebol moderno.

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